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A biblioteca elementar, por Alberto Mussa

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Os mortos voltam para casa. Os encantados, não. Porque os mortos perdem o nome quando morrem. O nome pode ir até a encruzilhada do primeiro céu, onde fica o Urubu de Duas Cabeças, e tentar passar. Pode também arriscar passagem pelo portal de pedra, entrada da terra dos antepassados, antes que as pedras fechem e o esmaguem. O encantado, não. Um encantado não pode se aventurar nesses lugares, porque é pesado. Encantado é o morto que não consegue perder o nome na hora de morrer. Encantados vão sem rumo, procurando a morte. Não apodrecem, como os mortos. Vão se esgarçando, perdendo os contornos, com o tempo. Não sentem dor. Têm é muita angústia, muita agonia. Essa angústia é que provoca o encantamento. Dizem, os encantados, que é melhor morrer. A morte precisa ser aceita. A angústia, na hora da morte, não deixa o nome fugir, se separar da sombra. Isso é o encantamento, uma grande desgraça. E os encantados vagam. Se, daqui, você chamar, você cantar, o encantado vem. Encontra um corpo e vem. E v…

Raimundinha Viramundo, por Marcos Pedrosa de Souza

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Deoclesiano Davidafulo de Graça Filho era um célebre empresário da alta sociedade carioca. Tinha uma mansão de dois andares na Urca, luxuosa, fina, vistosa, e um renomado escritório comercial no centro da cidade. Frequentava o Iate Clube do Rio de Janeiro, onde gostava de ir para espairecer vendo o cair da noite. Isso quando não partia para as laranjeiras para assistir a seu filho mais velho, Deoclesiano Neto, jogar pelo Fluminense, seu clube do coração. Na torcida pelo Fluminense Football Club destilava todas as chateações do dia enquanto via oscratch tricolor, que tinha o Deoclesiano Neto como maior craque e goleador do time, dar suas botinadas. Era um torcedor fanático, apaixonado, doente e, como em tudo, estourado. Daqueles que xingam jogadores e juízes com vontade o tempo todo. Para fugir dos aborrecimentos do Rio de Janeiro, tratou de dar vazão a uma doce nostalgia campestre que sempre alimentou e que acabou se concretizando na aquisição de uma fazenda à qual deu o nome de Sosseg…

Lagartixa cauda-de-chicote, por Patricia Porto

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Enfim encontro–me com a lagartixa. Ela que esteve sempre presente. Um amigo homem, claro, cortava o rabo da lagartixa aos aplausos de sua mãe: "Vai, filho, corta!" Isso só para vê–lo nascer de novo, o rabo, coisa de criança – a mãe dele dizia. Assim como era um chiste que o mesmo menino chutasse o rabo da babá – aos cinco anos de idade – quando voltava da sua escola em Londres. Meninos que cortam rabos de lagartixas adoram Londres – nem preciso fazer pesquisa – conheci muitos. Meninos que ficaram presos no cordão de fel de suas mães adoram cortar os rabos das lagartixas – alguns até queimam o rabo da lagartixa. Esses meninos não conhecem as mulheres amazonas ou as mulheres das ribeiras. Lá onde as águas cantam, as florestas abraçam – meninos que cortam, chutam ou queimam o rabo da lagartixa – eles simplesmente não existem. Mas foi quando vim para o Rio de Janeiro que conheci os cortadores de rabos de lagartixa, um terror. (mote vencedor para o encontro de 12/03/2019) Do livro &…

Doutor Faustus: Autoexílio nos Trópicos, por Marcos Pedrosa de Souza

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Foi no mesmo bar em que se conheceram, que os dois vieram a se reencontrar. Doutor Faustus, o mefistófeles do submundo do Rio de Janeiro, e Demétrio, o Lacan da Lapa. Não se viam há um bom tempo e se lançaram aos braços um do outro com toda efusividade em uma daquelas confraternizações de velhos e saudosos amigos. A última vez que se encontraram foi ainda durante o período de vivência intensa de suas respectivas juventudes. Era à época em que Faustus, ainda um estrangeiro na cidade, buscava sua aproximação com as figuras mais prosaicas da vida carioca. E entre estas, estava Demétrio, alguém com quem teve imediata e plena identificação. Apesar da pompa do título de doutor, Faustus era, como Demétrio, um charlatão barato, um vigarista de alta estirpe, um pilantra formado nas piores escolas da canalhice. Também tinha realizado seu curso por correspondência como o Lacan da Lapa, nosso psicanalista especializado no atendimento aos frequentadores do baixo meretrício. Só que em lugar de Viena…

Na presença da ausência, por Mahmoud Darwich

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No exílio escolhes um espaço para domesticar o hábito, um espaço privado para o teu diário. E escreves: O lugar não é uma armadilha. Podemos dizer: Aqui temos uma rua lateral, uma estação dos correios, uma padaria, uma lavandaria, uma tabacaria, uma esquina, e um cheiro que me faz lembrar...
As cidades são cheiros: Acre cheira a iodo e especiarias. Haifa, a pinho e lençóis engelhados. Moscovo, a vodca e gelo. Cairo, a maga e gengibre. Beirute, a sol, mar, fumo e limões. Damasco, a jasmim e frutos secos. Tunes, a almíscar e sal. Rabat, a hena, incenso e mel. Uma cidade sem cheiro não tem lugar na memória. Os exílios partilham um cheiro: o cheiro da melancolia do que se foi; um cheiro que lembra outro. Um cheiro ávido e nostálgico que te guia, como um mapa turístico já gasto, ao cheiro do lugar primeiro. O cheiro é uma memória e um pôr-so-sol. Aqui, o pôr-do-sol é a reprimenda da beleza ao forasteiro.
Mas, contrariamente do que dizem, amar o pôr-do-sol não é um dos atributos do exílio.
A m…

Corpo tomado, por Leo Almeida

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Metástase, doutor? Foi o que me restou dizer, naquela tarde de chuva, incrédulo, tentando esconder a expressão de pânico que queria irromper na minha cara. Sou um homem que não se mostra, em qualquer situação. Não sou de choro ou lamento, nunca fui de expor meu tutano. Sempre pelo avesso. O que importa, costurado por dentro; por fora, apenas o supérfluo. Consideram-me, por isso, um homem frio, objetivo. E sou. Mas essa notícia, dada assim, sem qualquer preliminar que arrefecesse o golpe, soou em mim como um estrondo incômodo. Guilhotina descendo num pescoço. Como assim, metástase? Repeti, quase me engasgando com a proparoxítona. Nossos últimos exames estavam tão promissores. Ou não estavam? Foi essa a tua avaliação, lembra? O médico, recostado numa cadeira de couro preto, olhou-me, creio que com pena. Virou o monitor na minha direção, para que eu pudesse conferir seu vaticínio. Mostrou-me na tela do computador umas manchas escuras nas imagens da ressonância que fizera a seu conselho, …

Crônica da casa esquartejada, por João Bastos de Mattos

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CRÔNICA DA CASA ESQUARTEJADA
João Bastos de Mattos, 12/02/2019 Inspirado no conto Casa tomada, de Julio Cortázar

Já era um fato previsto, desde que se soube que uma tribo de bárbaros havia cruzado o Reno. Mas foi para nós uma surpresa quando a notícia chegou, dada a rapidez com que tudo ocorreu: nossa Horta havia sido invadida de madrugada por um exército de Suevos. Nada a fazer, disse Flamínio, o mais sensato dos irmãos, quando Cornélia, com o olhar desamparado, veio nos avisar. A Horta já deixara há muito de ser uma horta, mas havia na família a mania de manter as denominações históricas. Ali era o lugar da fantasia, com circos mambembes montados pelos mais velhos, incendiando a imaginação dos pequenos, que sonhavam equilibristas com saltos mortais, homens do come-fogo, feras de terras longínquas obedecendo à voz do domador. Não havia remédio, os Suevos que vinham das margens do Elba tinham escolhido justamente nossa Horta para armar suas tendas, amarrando varais nos galhos da jabuticabe…