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O Espeleólogo, por Paula Giannini

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Quando crescesse queria ser espeleólogo, como o avô, um rapaz de apenas 38 anos. Jovem demais para ser avô. Velho demais para ser considerado um jovem. Sempre suado, visivelmente exausto, mas disposto a contar seu dia ao neto, com um estudado sorriso e pormenores dignos da mais emocionante aventura. Assim havia sido a sua jornada de trabalho, escavara em busca de tesouros e embrenhara-se em obscuras cavernas. Sempre iluminando os buracos com a inseparável lanterninha de cabeça, igual à que dera ao menino quando este completara dez anos. - Agora você já é quase um homem. E descansava sua carrocinha de espeleologista na porta da pequena casa. Para o avô um lugar provisório, de onde assim que a vida permitisse, tiraria sua família. Para o garoto, um castelo, com seu portal adornado com imagens aladas e figuras de longas orelhas esculpidas em pedra. Coisa para gente muito rica. Coisa para os heróis. E o avô-herói retirava maravilhas do carrinho. Latinhas, anéis, medalhas com fotos d…

Juiz de Fora, por Guilherme Preger

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13:00. Faltam 13 minutos para eu sair deste quarto de pensão. A minha Missão estará cumprida se eu sair exatamente às 13:13.
Esses maçons imbecis acham que o PT roubou o número 13 deles. Eles não sabem que esses petistas são estúpidos. Os petistas acreditam nos juízes e no judiciário. Eu acredito no Senhor e em minhas mãos guiadas por Ele. A faca do Senhor está amolada na fé luminosa.
Dizem as Escrituras que eram 12 os apóstolos mais um: Satã, que vivia sempre junto a Judas. Então Judas trouxe o 13º apóstolo. Mas há também quem diga que o 13º apóstolo era Jesus. E Satã é quem guiava Jesus e seus 12 apóstolos.
A Maçonaria é satânica. Todos sabem disso. Os estúpidos petistas acham que as elites brasileiras têm raiva deles por causa do bem que eles fizeram aos pobres. Mentira. As elites têm raiva dos petistas porque eles roubaram o número 13.
A guerra que existe no Brasil é cósmica. Não tem nada a ver com esses néscios seguidores do José Dirceu. É uma guerra de mundos. É uma guerra entre…

Portas da Cidade, por Camilla Agostini

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Muitos morros no Rio de Janeiro viraram cidade. Modos de vida rurais emaranhados numa confusão de vielas, escadas, becos, fiações irregulares, uma arquitetura caótica onde um dia antes foi mata. A vegetação nas proximidades serve de refúgio para criminosos e sem-tetos. Há locais em rochedos e ranchos improvisados que servem de abrigos temporários para figuras como Tião Espiga, ilustre desconhecido da história de Copacabana, um catador de papelão da década de 1950. Lembrado por vizinhos, passava os dias com seus trapos a juntar papelão pelas ruas desse bairro badalado da zona sul. Era como aquelas criaturas monocromáticas que vagam silenciosamente pelo cotidiano, no vai e vem das calçadas da cidade. No fim da tarde, se recolhia em um abrigo rochoso, fazia um fogo e aquecia algum alimento; era também ali onde dormia. Conta a lembrança de uma vizinha, que seu pai a ameaçava, dizendo que chamaria Tião Espiga com seu saco para leva-la embora quando fazia muita bagunça. Tião Espiga era a enc…

A cidade em fuga, por Ana Teresa Jardim (mote)

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A minha história começa em Ipanema, que você conhece. Mas qual? O bairro boêmio dos anos pós-guerra, o paraíso dos hippies? A Ipanema que te peco para lembrar já tinha visto passar metade dos anos 50. Mas na minha percepção as épocas sempre trazem rastros indeléveis das anteriores. Tal vez eu me sinta assim por sempre ter convivido com pessoas de épocas separadas da minha por lapsos muito grandes de tempo. De modo que a atualidade nunca chegava completamente, ou o pelo menos chegava mais devagar. Estava sendo criada, naquele momento, a batida jazzística que misturava o samba ao som e à calma das marés, e a bossa nova era tocada em apartamentos térreos nos prédios de três andares em Ipanema. Brisas noturnas sopravam suavemente da praia ali tão perto, onde se podia caminhar descalços o mundo de Julia e Max tinha o chão atapetado, cigarreiras, tafetá em pó compacto. A pequena cobertura na rua Joaquim Nabuco tinha no chão da sala um tapete cor de coral, que neutralizava com sua tonalidade q…

Lero lero que eu também quero, por Fernando Andrade

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Me dá, disse o garoto de rua. Vai trabalhar vagabundo.  Vai chover canivete, diz o coro.  Estou com fome, me dá! merda. Eu já falei, que para comer o pão o diabo precisar amassar ou deformar. Caralho para com estas imagens idiotas. Estou pedindo um regalo e que passa pelo gargalo. Galopa, cavalo, a quem se mostra os dentes, à cavalo, não se dá por contente. Porra, não tô aguentando mais esta diatribe verborrágica poética. Vai tomar no rabo da sua lagartixa. Se regenere meu jovem, vai para a igreja de São Judas, tá deu?  Eu vou te enfiar a faca, seu poeta de merda, me passa a grana do dia. Eu preciso ir me já. Ficaria aqui por alguns segundos? tomar conta de abacaxis, pera, aí,  tenho algo a lhe contar. O Juvenal tem uma carrocinha comunista. Vende churros e precisa que alguém tome conta. Está disposto a esta enxurrada de tempo is money. Não tenho dialética para engorduramentos, sou mais esta sua barraca legalminosa. ( tradução - leguminosa) Colega se eu te deixar aqui você vai contra…

Espiral, de Geovani Martins

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Começou muito cedo. Eu não entendia. Quando passei a voltar sozinho da escola, percebi esses movimentos. Primeiro com os moleques do colégio particular que ficava na esquina da rua da minha escola, eles tremiam quando meu bonde passava. Era estranho, até engraçado, porque meus amigos e eu, na nossa escola, não metíamos medo em ninguém. Muito pelo contrário, vivíamos fugindo dos moleques maiores, mais fortes, mais corajosos e violentos. Andando pelas ruas da Gávea, com meu uniforme escolar, me sentia um desses moleques que me intimidavam na sala de aula. Principalmente quando passava na frente do colégio particular, ou quando uma velha segurava a bolsa e atravessava a rua pra não topar comigo. Tinha vezes, naquela época, que eu gostava dessa sensação. Mas, como já disse, eu não entendia nada do que estava acontecendo. As pessoas costumam dizer que morar numa favela de Zona Sul é privilégio, se comparamos a outras favelas na Zona Norte, Oeste, Baixada. De certa forma, entendo esse pens…

O sonho de Luzia, por Guilherme Preger

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Imagino Luzia fugindo de algum sapiens macho, violento, estuprador. Ela está há dias numa caminhada de fuga solitária, extenuante. Ela abandona a Zona da Mata, onde o bote de algum animal ou o abraço forçado do macho (os machos são inimigos) é sempre iminente. Ela alcança a região do sertão, de suas veredas e rios, da mata rasteira do cerrado, onde pode ver de longe a aproximação do inimigo. Ela deve ter pensado: viver é muito perigoso. É quase noite, mas ainda há luminosidade. Ela procura um rio onde possa beber água e limpar suas feridas. Há em seu corpo frágil rasgos da vegetação espinhosa, cortes de pedras afiadas, cicatrizes das lutas pela sobrevivência. Ela vê o regato do rio colorido pelo sangue de suas veias e de sua menstruação. A noite é deslumbrantemente estrelada no céu límpido do planalto americano. Ela ouve o cicio das folhas e o zumbido dos insetos. Ela ouve um choro de criança, mas que deve vir de sua própria imaginação. Então ela deita e dorme. Não há tempo para divag…