segunda-feira, 19 de junho de 2017

João da Rua, por Guilherme Preger

Minha vida era boa, até o dia em que veio o Golpe. E com o Golpe, veio minha demissão. E com a demissão eu fui para a rua. Por isso decidi me recolher a um canto na rua Paulo Barreto em Botafogo, onde morava anteriormente, vivendo de aluguel num apartamento de quitinete. Decidi levar comigo um saco com apenas duas mudas de roupa e mais uma mala repleta de livros. Decidi me estabelecer justamente na calçada junto ao muro que delimitava a garagem de meu antigo prédio, abaixo de uma marquise que me protegia da chuva. O espaço era aconchegante, razoavelmente limpo e tinha mais ou menos a dimensão de metade de meu apartamento anterior. Achei que seria um lugar apropriado, pois sempre fui amigo do porteiro, seu Pereira, e do servente, o Gerson, trabalhadores desse meu antigo prédio, bem como do Alcides, que era uma espécie de “faz-tudo” do condomínio, tendo trabalhado em minha casa várias vezes. Em minha vida de bonança, de trabalhador de carteira assinada, sempre fui generoso e os ajudava quando eventualmente me pediam algum auxílio. No natal, a caixinha era gorda.
Contei com a compreensão de meus amigos trabalhadores que após um inicial estranhamento continuaram a conversar comigo sobre futebol e política. Antes de ser despejado de meu ex-apartamento distribuí quase todos meus pertences domésticos entre eles, mudas de roupas, objetos de decoração, quadros, utensílios domésticos e eletrodomésticos, eletrônicos, etc.  Quem não gostou muito foi a síndica, que anteriormente me tratava de Dr. João. Agora ela sempre entrava no prédio sem me cumprimentar. Meus ex-vizinhos que me davam bom dia, boa tarde e boa noite no elevador, também não me dirigiam mais a palavra. Quando entravam de carro na garagem, que era ao lado de minha cama de papelão, fingiam não ter me visto.
Meu amigo Pereira, o porteiro, me confidenciou, em nome de nossa amizade, que a síndica exigiu que ele jogasse a água da mangueira do jardim na calçada onde estavam minhas coisas, para acabar “com aquela porqueira”. Por isso, combinei com o Pereira que todo dia de manhã eu daria uma volta com minhas coisas para que ele pudesse lavar a calçada. Achei que seria uma boa ideia, pois era uma maneira de manter meu espaço mais asseado. Então, eu dava uma volta no quarteirão, pedindo algumas esmolas para o café. Às vezes, costumava dar uma passada no cemitério que ficava por perto, na rua São João Batista. O cemitério era o lugar onde eu mais gostava de passear e onde sentia uma paz absoluta. Quando podia, acompanhava os enterros e apresentava minhas condolências às famílias em luto.
Então, retornava após o almoço, abria minha mala que servia então de uma pequena banca de livros improvisada. Minha biblioteca era boa, portanto consegui vender rapidamente vários livros. Pereira e Gerson também me traziam outros livros que encontravam na vizinhança. Alcides montou uma mesinha de madeira feita com caixotes de frutas do supermercado. Meus clientes me ofereciam livros por consignação. Pessoas da vizinhança também me ajudavam com marmitas que me entregavam discretamente. E minha banca então foi crescendo. Trabalhava só na parte da tarde, depois dava mais um passeio na direção da praia e me dava ao luxo de tomar um café num botequim. Descobri, por meio de um padre que me comprou um livro, que na Igreja da Matriz poderia tomar banho, no banheiro dos fundos. À noite, afinal, regressava ao meu dormitório, abaixo da velha marquise.  

Eu tinha um afeto por aquela região, por aquela rua e por aquele prédio. Ali estava perto de meus amigos que poderiam me ajudar em caso de um súbito mal-estar. No natal, eles me deram presentes: uma garrafa térmica, um cobertor e uma edição antiga, de capa dura, de Os Bruzundangas, de Lima Barreto que o Alcides encontrou abandonado num apartamento após uma mudança. Resolvi que não iria vender essa edição e passei a levá-la no bolso do sobretudo para ler calmamente em algum banco de praça ou no cemitério .  Com a venda de livros e com as economias guardadas da minha demissão, calculo que posso ficar nessa vida por mais uns três ou quatro anos, talvez mais. Esse Golpe será demorado, é o que dizem.  


(Conto vencedor do encontro do dia 13/06/2017, comemoração dos 10 anos do Clube da Leitura)


Guilherme Preger, escritor de esquerda, carioca e capoeirista,  é um dos fundadores do Clube da Leitura, autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014).    

Por um bife, de Jack London

Ele era um veterano e o mundo não se dava bem com veteranos. Ele não era bom para nada, a não ser parar biscates, e o nariz quebrado e a orelha inchada não lhe ajudavam nem para isso. Ele se viu desejando que tivesse aprendido algum ofício. Teria sido melhor a longo prazo. Mas ninguém havia lhe dito isso, e ele sabia, bem no fundo do coração, que não teria ouvido se o tivessem.  Tinho sido tão fácil. Dinheiro de sobra, lutas intensas e gloriosas, períodos de descanso e vagabundagem entre elas, um séquito de ávidos puxa-sacos, os tapas nas costas, os cumprimentos, os figurões contentes em lhe pagar um drinque pelo privilégio de uma conversa de cinco minutos, e a glória da luta, os ginásios gritando, o turbilhão dos golpes finais, os juízes “King é o vencedor!” e o seu nome nas colunas de esporte no dia seguinte.
            Aqueles tinham sido dias e tanto! Mas ele se dava conta agora, do seu jeito lento e reflexivo, que eram os veteranos que ele estava derrubando. Ele era a Juventude, ascendendo; e eles era a Idade, afundando. Não espantava que tivesse sido fácil – eles com suas veias inchadas e as juntas dos dedos batidas e cansadas até os ossos das longas batalhas que já tinham lutado. Lembrou do dia em que derrubou o velho Stowsher Bill, em Rush Cutters Bay, no décimo oitavo round, e como o velho Bill chorara como um bebê depois no vestiário. Talvez o aluguel do velho Bill estivesse atrasado. Talvez ele tivesse uma mulher e duas crianças em casa. E talvez Bill, naquele dia da luta mesmo, estivesse faminto por um bife. Bill tinha jogado o jogo e levado um castigo incrível. Ele podia ver agora, após ele mesmo ter passado por duras experiências, que Stowsher Bill lutara por um prêmio maior naquela noite há vinte anos do que o jovem Tom King, que lutara pela glória e o dinheiro fácil. Não bra, tinha um número espanta que Stowsher Bill tivesse chorado depois no vestiário.

Bem, um homem tinha somente um determinado número de lutas em si, para começo de conversa. Era a lei pétrea do jogo. Um homem poderia ter cem lutas duras nele, outro homem só vinte; cada um, de acordo com sua constituição e a qualidade da sua fibra, tinha um número definido, e, quando ele as lutara, estava acabado. Sim, ele tivera mais lutas nele do que a maioria dos lutadores, e tivera mais do que a sua cota de lutas duras, extenuantes – do tipo que exigiam do coração e dos pulmões até estourarem, que tiravam a elasticidade das artérias e faziam nós duros de músculo da flexibilidade macia da Juventude, que esgotavam os nervos e o vigor e deixavam o cérebro e os ossos cansados do excesso de esforço e esgotamento da resistência. Sim, ele tinha se saído melhor do que todos eles. Não sobrara nenhum dos seus velhos parceiros de luta. Ele era o último da velha guarda. Ele tinha visto todos terminarem, e dera uma mão no fim de algum deles. Eles colocaram ele contra os veteranos, e um depois do outro ele derrubou – rido quando, como o velho Stowsher Bill, eles choraram no vestiário. E agora ele era um veterano, e eles colocavam os jovens contra ele. Havia esse garoto, Sandel. Ele viera da Nova Zelândia com um histórico a legitimá-lo. Mas ninguém na Austrália sabia nada a respeito dele, então eles o colocaram contra o velho Tom King. Se Sandel fizesse uma boa apresentação, ele teria a oportunidade de lutar contra homens melhores, com bolsas maiores para vencer; então isso dependia dele proporcionar uma batalha feroz. Ele tinha tudo a ganhar com isso – dinheiro, glória e uma carreira; e Tom King era o velho tronco grisalho que guardava a estrada para a fama e a fortuna. E ele não tinha nada a ganhar, a não ser trinta libras, para pagar o senhorio e os comerciantes. E, refletindo sobre isso, Tom King percebeu em sua visão impassível a forma da Juventude gloriosa, erguendo-se exultante e invencível, com músculos flexíveis e pele macia, com um coração e pulmões que nunca foram exaustos e desgastados e que riam da limitação de esforço. Sim, a Juventude era a Nêmesis. Ele destruía os veteranos e não dava importância, e ao fazer isso ela destruía a si mesma. Ela alargava suas artérias e machucava as juntas dos dedos, e por sua vez era destruída pela Juventude. Pois a Juventude era sempre jovem. Era apenas a Idade que envelhecia.

(tradução de Jorge Ritter)


Bibliografia: Nascido em 1876, em São Francisco, Jack London (pseudônimo de John Griffith Chaney) teve uma infância pobre. Foi obrigado a abandonar os estudos na adolescência para trabalhar e aos catorze anos já cumpria jornadas de mais de dez horas diárias em fábricas. Aos dezoito, cansado da exploração, resolve percorrer seu país de trem, clandestinamente. Na volta da viagem, decide tornar-se escritor. Em 1900 publica o primeiro de uma série de livros, sempre com êxito de público. Mantém o hábito de viajar, trabalhando inclusive como correspondente de guerra. Enfrentando graves problemas de saúde, morre aos quarenta anos, por overdose de medicamentos. Obras: Produziu diversos romances e coletâneas de contos, entre os romances, destacam-se “O Grito da Selva”, “Antes de Adão”, “Caninos Brancos” e “O Lobo do Mar”. “Por um bife” é uma coletânea de contos especial só com histórias de boxeadores. 

(Mote lido por José Fontenelle para o encontro de 27 de junho de 2017)

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Corredor Polonês, por Eduardo Villela

Sentada no banquinho, Daniele olha as nuvens ao lado e abaixo. Os querubins em torno não chegam a incomodar, quase fazem um pouco de cócegas. Com a rapidez que lhes é característica, checam boca, nariz, pernas e braços, cabelos protetores; um se detém mais em seu rosto, olhando-a fixamente. Este é um anjo superior, milhares de anos à frente dos demais. Os outros se ocupam em observar se ela enxerga bem, se pode ouvir qualquer ameaça, identificar algo nocivo pelo cheiro, sentir gosto estranho, sentir dor.
Eles nada dizem, mas parecem em conjunto mostrar a ela que nada será simples dali pra frente. Aí é que entra a importância do querubim mais evoluído, a testar sua percepção e raciocínio, inteligência e bom senso. Sabe que ela passará por momentos difíceis, desafiadores, que exigirão todos os seus sentidos e capacidades que aqui não têm uso. Daniele tem um pouco de medo, e o tal anjo então sorri, pois é justamente essa faculdade que ele quer testar agora. É um anjo só cuida de coisas invisíveis, e por isso desperta um pouco da inveja dos outros.
Ela olha de novo as nuvens lá embaixo, que nada deixam ver além. Tenta imaginar como é o mundo, não consegue. Não tem ideia de como será esse lugar que todos falam e ninguém conhece. Há os que vêm só por pouquíssimo tempo e retornam para lá, mas esses não conversam, parecem descansar enquanto passam pela manutenção angelical.
Daniele já ouviu fofocarem que além das nuvens há mares, tempestades, montanhas com precipícios, mas são só conjecturas... O que mais assusta, na verdade, é todo o aparelho necessário para viver a tal vida. Olhos, bocas, braços, nariz, isso sem mencionar os órgãos internos − pulmão, intestino, pâncreas, coração! Todo o aparato e a armadura em volta parecem indicar que a vida deve ser mesmo bem desafiadora e complicada.
E as tais faculdades invisíveis de que trata o anjo mais nobre? Será preciso usar tanta inteligência, astúcia, medo, sensibilidade, percepção na tal vida na Terra? O anjo nesse instante faz uma carinha preocupada, e de repente dá um empurrão nela para fora do banco, e Daniele vai caindo, caindo, caindo... Os demais querubins param estupefatos e ficam se encarando um ao outro sem entender nada. Até que o querubim superior desce, agarra-a pelo braço e traz de volta uma Daniele que, em vez de assustada, parece agora atônita. O nosso anjinho nobre respira aliviado, ao perceber em sua pupila que o medo agora dá lugar a outros sentimentos, como surpresa e espanto. As coisas parecem voltar a ficar em ordem.
De todos os itens a serem checados durante o trabalho dos anjos, as faculdades invisíveis são tratadas como superiores às outras. Às vezes, por uma falha, a pessoa até nasce com um ou outro problema físico, e algum querubim sofre advertência por isso. Mas quando o problema se dá dentro das tarefas do anjo superior, coitado, ele tem que ser reprovado mil anos atrás, para o mesmo trabalho dos demais, e conviver com o escárnio deles enquanto tenta escalar degraus de novo.
O trabalho em Daniele durou só mais um pouco que o necessário, então ela foi jogada de vez às nuvens, para ultrapassá-las e só retornar depois de toda a provação. Por que era assim, por que todos tinham que passar por isso, ninguém sabia explicar, mas devia haver algum motivo. O que sabiam de bom era que a dificuldade desalentadora a viver na Terra era inversamente proporcional ao tempo que ficavam lá embaixo, pequeníssimo se comparado à vida aqui em cima. Mas todos têm que passar por isso, sim. Alguns são tão fortes que sobem, passam por um pit stop rápido, e ainda retornam para ficar mais um tempinho por lá.
Isso era quase tudo que os querubins sabiam, baseado nas aferições a partir do trabalho deles. Tentavam deduzir como eram as coisas além nuvens a partir, apenas, do aparato necessário para essa aventura, que, por parecer tão desafiadora e rápida, chamavam-na “corredor polonês”.
A inspiração do nome veio de um ser que subira certa vez apenas para manutenção e repetia, seguida e pausadamente, essas duas palavras.

(conto lido no encontro de 13/6/17)

Eduardo Villela lançou seu primeiro livro de contos, "O Interesse pelas Coisas", em fevereiro. O livro está disponível no site da Editora Moinhos.


sábado, 3 de junho de 2017

Conversa, por Gabriel Cerqueira




Fevereiro de 1902, em São José do Barreiro - São Paulo


Felipe Azevedo andava de um lado para o outro na cozinha do casarão da Fazenda Santo Eustáquio. Ele esperava por Carlos Fagundes, um conhecido de infância a quem iria propor a venda da Fazenda São Francisco. Já tinha em mente tudo o que iria dizer e como agir, e estava confiante mesmo diante do desafio que estava por vir. Sentou em uma das cadeiras postas a uma longa mesa de mogno e bebeu um pouco do café que Dona Maria havia passado. Um burburinho se iniciou fora do casarão seguido. Fagundes entrou na cozinha. O rosto jovem, a pele bronzeada, bigode e barba finos, o cabelo ondulado e o corpo esbelto; parecia mais um peão bem cuidado que senhor de fazenda. Colocou o chapéu em cima da mesa e sentou-se em uma das cadeiras.

Fagundes não era uma pessoa fácil de lidar, isso Felipe sabia desde criança. Homem de poucas palavras e senso forte, o arquétipo de homem mal-encarado envolveu Carlos e a simples pronúncia de seu sobrenome, alcunha pela qual era mais conhecido, era recebida com receio por qualquer pessoa da região. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, viu-se obrigado a se afastar da advocacia após a morte do pai em 1897 para administrar os bens que herdara.

Felipe foi direto ao ponto - prolixo era uma das últimas coisas que Fagundes aparentava ser – e logo começou a falar sobre as dimensões da Fazenda São Francisco, de quão boa a qualidade da terra era, ideal para o plantio de café e das cabeças de gado que poderia angariar se aceitasse a oferta logo. Fagundes disse apenas:

- E o senhor seu pai concorda com isso?

Parecia que tudo que Fagundes dizia era friamente calculado. Felipe tinha a fama de bon vivant sustentado pelo pai. Felipe não se abalou.

- Senhor Antônio está muito doente. O médico disse que não dura duas semanas. Como não levo tino para os negócios de fazenda ele mandou que eu vendesse a São Francisco.

- Não sabia que Antônio estava tão mal assim. E por que você não espera a herança? Pode deixar a cargo do advogado do senhor seu pai, que Deus ainda terá, a venda das posses. E Pedro, que houve com ele?

- Por que a parentada está atenta feito urubu sobrevoando carniça. A todo momento chega gente que não vejo há mais de anos e agem como se almoçassem lá na fazenda todo domingo depois da missa. Pedro anda enfiado na Fazenda Aurora, em Barbacena - sentiu vergonha ao falar do único irmão que tinha, pois era o oposto dele e orgulho do pai, mas não deixou transparecer.

Maria Amália, esposa de Fagundes, entrou na cozinha pela porta que dava para fora do casarão. Não disse palavra. Se aproximou de Fagundes e tocou sua mão, e ele lhe devolveu o gesto. Era uma Gouveia e haviam se conhecido em Braga. O populacho de São José do Barreiro costumava dizer que Fagundes e Maria Amália eram duas faces da mesma assombração. Ela também compartilhava o ar sério do marido, não gostava de conversa mole, nem das reuniões de senhoras na cidade; gostava da roça, do sol batendo na face, de fruta colhida do pé. Caçava de espingarda na mão montada em seu cavalo. Sua pele também era bronzeada e os longos cabelos castanhos estavam presos em trança. A aura de mulher forte a envolvia, algo que ao mesmo tempo atraía os homens e os amedrontava. Para manter seus status de poder eles preferiam mulheres que costurassem buracos nas camisas em vez delas mesmas fazê-los.

Pessoa de alma pequena, Felipe pensava mais com a cabeça de baixo que com a de cima e demorou seu olhar mais tempo do que devia em Maria Amália. Fagundes sacou uma faca que estava em sua bota e a fincou na mesa. Enquanto os dois homens se encaravam - um parecendo uma cobra prestes a dar o bote, o outro a presa covarde que suava frio -, Maria Amália despejou um pouco de água num copo de barro; o som do líquido preencheu a cena fatal. Ela bebeu tranquilamente e se retirou do aposento.

- Para que serve a faca? - enfim disse Fagundes.

- Para fatiar… Cortar - Felipe tremia. “Lá vem os enigmas do Fagundes…”, pensou ele.

- O que determina isso?

- O fio da lâmina.

- E quem determina isso? - Fagundes fez questão de enfatizar bem a palavra quem.

- Aquele que a manuseia.

Fagundes pegou a faca e a deixou cair na mesa, a lâmina tilintou.

- Sem o homem a faca não nem existe. O metal habita as entranhas da terra e o cabo ou é árvore ou sustenta um animal. É o homem quem decide qual o nome do objeto e o que fazer com ele, como cortar a comida ou arrancar couro... Que tipo de homem eu sou?

Uma resposta que poderia ser considerada um ato de suicídio surgiu à boca de Felipe, que a falou sem pensar:

- Apenas um homem.

A sorte era que Fagundes não tinha o ego elevado e gostava da sinceridade contida nas respostas atrevidas.

- Visitarei seu Antônio nesta semana - Fagundes continuou com seu mistério; ao não dizer data certa poderia chegar a qualquer instante, o que atrapalhava qualquer situação que poderia ser ensaiada por Felipe. - É uma vergonha que ainda não tenha visitado um amigo de grande estima para mim e meu pai. Já está na hora de você ir.

Felipe pegou seu chapéu e acenou com a cabeça.

- Obrigado por ter me recebido, Carlos.

E Felipe saiu contrariado, com o gosto amargo da derrota na boca. O que havia imaginado não se cumprira, pelo contrário, tornara-se pior. Agora precisava arranjar algum jeito de matar o pai ou piorar sua saúde antes que Fagundes soubesse que Antônio Azevedo estava apenas com um resfriado.

(Conto lido no encontro de 30/05/2017) 

Gabriel Cerqueira não faz a menor ideia de quem ele é.