segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Tratado do uso das mulheres, de Rubem Fonseca


'Foi tudo uma coincidência'.
'Coincidências não existem.'
'Não existem?'
'Vá lá, existem. Mas não resultam em nada.'
'Um amigo meu estava andando numa rua da cidade e um infeliz resolveu se matar, pulou da janela de um prédiio e caiu em cima do meu amigo que passava. Os dois morreram. Não foi uma coincidência? Com resultado, trágico, aliás.'
'E você se chamar Francisco Nunes Correia é a importante coincidência que levou você a querer escrever esse livro?'
'É.'
'O nome do sujeito é Francisco Nuñes Oria. Não é Nunes Correia. Ele nasceu em mil quinhentos e tantos, na Espanha.'
'As coincidências podem ser plenas ou parciaisl. Eu também sou médico, como ele era. O tratado que ele escreveu é de 1572, o final do número do meu telefone.'
'Que coisa mais boba.'
'Coincidências parciais são muitas vezes mais importantes do que as plenas. E não se esqueça de que o tratado dele, como o que eu pretendo escrever, é um guia prático e higiênico sobre o coito. E isso hoje em dia é mais necessário do que em 1572.'
'E você tem que usar o mesmo título: Tratado sobre o uso das mulheres? Uso? Uso das mulheres?'
'Não sejamos hipócritas. O que os homens fazem com as mulheres na cama senão usá-las?'
'Então você me usa?'

'Digamos que eu me sirva de você, como se fosse uma iguaria. Ao praticar com você a introductio penis intra vas, eu te como, como dizemos muito apropriadamente em nossa bela língua.'
'Eu também te como. Você deveria chamar o seu livro de Tratado do uso das mulheres e dos homens.'
'Vocês mulheres dizerem que nos comem é um emprego novo desse vocábulo. Que digam. Mas a metáfora não é perfeita'.
'Quais são os temas que você pretende abordar?'
'Assim como o meu quase xará, farei inicialmente um levantamento dos estudos realizados no período compreendido entre o começo do século V e meados do século XV e de antes mesmo, pois os medievos se basearam muito em Galeno. Mas você quer saber quais são os t´picos. São variados. Por exemplo: de que maneira o uso das mulheres pode ser danoso ou proveitoso; como resistir às tentações da carne; os riscos higiênicos, os riscos dos excessos; o coito como uma atividade imprescindível para assegurar a saúde do corpo e da mente humanos. Tenho aqui cópias desses velhos tratados sobre o assunto. Por incrível que pareça ainda existem nos dias de hoje, não tão repressivos quanto na Idade Médica, preconceitos puritanos que condenam o prazer sexual'.
'Você vai perder muito tempo para fazer isso.'
(...)
'A igreja, no século XXI, ainda se prende, de certa maneira, aos ditames bíblicos sobre a necessidade de reproduzir, como está no Genesis, 1,28. Para esses fanáticos, indiferentes ao fato de viermos num mundo em que existe gente em excesso, o objetivo do coito seria a geração de novos seres. Mas a finalidade do coito deve ser o prazer. Não vou, portanto, ao contrário do meu antecessor, ensinar também a usar as mulheres para fazer filhos. Exatamente o oposto'.
'Porém, um dos tópicos mencionados por você é como resistir à tentação da carne. Não é um apelo á castidade?'
'Não, claro que não. Eu estou numa festa e uma mulher extremamente atraente me leva para o banheiro para que eu a coma. Estou morrendo de tesão por ela, mas não tenho uma camisinha comigo. Então tenho que resistir à tentação da carne'.
'Que festas são essas que você frequenta?'
'É uma situação hipotética.'
'Fala a verdade. Já aconteceu isso com você? Confessa, diga: aconteceu antes de eu conhecer você.'
'Aconteceu antes de eu conhecer você'.
'E você resistiu?'
'Não. É por isso que eu sei que a carne é fraca.'
'A mulher confiou em você. Mas você me disse que a regra de ouro nas relações sVocê vai ensinar uma coisa que não sabe fazer.'
'Não sabia.'
'Esse episódio do banheiro foi há muito tempo?'
'Há quanto tempo nos conhecemos?'
'Um ano, dois meses e vinte e dois dias.'
' Esse detalhe me deixa emocionado. Vinte e dois dias?'
' E seis, não, sete horas.'
'Eu devia casar com você.'
'Que merda, anda, fala logo, há quanto tempo você comeu no banheiro essa vadia sem preconceitos puritanos?'
'Uns dois, três anos.'
'Aids fica incubada por muito tempo, sabia?'
'Depois daquele comportamento imprudente fiquei muito preocupado e fiz um monte de exames.'
'Quero ver a data e o resultado do último.'
(...)

publicado no livro Contos para ler na cama, Record, 2005

Mote lido por Vivian Pizzinga para o encontro de 22/08/2017 


terça-feira, 1 de agosto de 2017

Os Miseráveis, de Victor Hugo




Ser bem-sucedido, eis o ensinamento que, gota a gota, vai caindo da corrupção que avança. Diga-se de passagem, o sucesso é algo bastante repugnante. Sua falsa semelhança com o mérito engana os homens. Para a multidão o sucesso tem quase o mesmo perfil que a superioridade. O sucesso, sósia do talento, tem quem se deixe lograr: a história. Somente Tácito e Juvenal rosnaram para ele. Hoje em dia uma filosofia quase oficial entrou em intimidade com ele, enverga sua libré e lhe serve de antecâmara. Ser bem-sucedido: teoria. Prosperidade supõe capacidade. Ganhe na loteria e será considerado um homem hábil. Quem triunfa é venerado. Nasça com sorte e pronto, o resto virá por si; seja feliz, e será visto como grande. Fora cinco ou seis grandes exceções, que fazem o esplendor de um século, a admiração contemporânea não passa de miopia. O dourado passa por ouro. Ser o primeiro a chegar não prejudica nada, desde que sejamos este primeiro.


(Mote lido por Gabriel Cerqueira para o encontro de 25/07/2017)


Victor-Marie Hugo foi um escritor, político e ativista francês. Nasceu em 26 de fevereiro de 1802 em Besançon. Considerado um dos maiores escritores da história da literatura mundial, Victor Hugo sempre fora hábil com as letras e escreveu diversas obras, como odes, romances e peças, desde a juventude. A maioria de seus escritos contém sérias críticas e reflexões sobre a sociedade francesa do século XIX; não é raro observar que suas tramas servem como planos de fundo para apresentar diversas questões sociais e existenciais. Victor Hugo ficou em exílio por quase duas décadas em Bruxelas por ser contrário ao governo de Napoleão III e apenas retornou ao seu país natal quando a república fora proclamada em 1870. Em 1871 se torna deputado e em 1876, senador, cargo que exerceu até sua morte em 22 de maio de 1885 decorrente de uma congestão pulmonar. Entre algumas de suas obras mais famosas estão O Corcunda de Notre-Dame (1831), Os Miseráveis (1862), Os Trabalhadores do Mar (1866).

terça-feira, 18 de julho de 2017

O homem perante a natureza, de Blaise Pascal


A primeira coisa que se oferece ao homem ao contemplar-se a si próprio, é seu corpo, isto é, certa parcela de matéria que lhe é peculiar. Mas, para compreender o que ela representa a fixá-la dentro de seus justos limites, precisa compará-la a tudo o que se encontra acima ou abaixo dela. Não se atenha, pois, a olhar para os objetos que o cercam, simplesmente, mas contemple a natureza inteira na sua alta e plena majestosidade. Considere esta brilhante luz colocada acima dele como uma lâmpada eterna para iluminar o universo, e que a Terra lhe apareça como um ponto na órbita ampla deste astro e maravilhe-se de ver que essa amplitude não passa de um ponto insignificante na rota dos outros astros que se espalham pelo firmamento. E se nossa vista aí se detém, que nossa imaginação não pare; mais rapidamente se cansará ela de conceber, que a natureza de revelar . Todo esse mundo visível é apenas um traço perceptível na amplidão da natureza, que nem sequer nos é dado a conhecer de um modo vago. Por mais que ampliemos as nossas concepções e as projetemos além de espaços imagináveis, concebemos tão somente átomos em comparação com a realidade das coisas.

Esta é uma esfera cujo centro se encontra em toda parte e cuja circunferência não se acha em alguma. E o fato de nossa imaginação perder-se neste pensamento constitui, em suma, a maior manifestação da onipotência de Deus.

Que o homem, voltado para si próprio, considere o que ele é diante do que existe; que se encare como um ser extraviado neste pequeno setor da natureza, e que da pequena cela onde se acha preso, do universo, aprenda a avaliar em seu valor exato a terra, os reinos, as cidades e ele próprio. Que é um homem diante do infinito?


(Mote lido por Gabriel Cerqueira para o encontro de 11/07/2017)

Blaise Pascal foi um teólogo, filósofo, matemático, físico, inventor e escritor francês. Nasceu em 19 de junho de 1623 em Clermont-Ferrand. Sua curiosidade na infância revelou ser um estado latente de genialidade, pois conseguiu reproduzir proposições matemáticas de Euclides de Alexandria aos 12 anos de idade mesmo sem nunca ter estudado tal ciência. Ao longo de sua brilhante carreira desenvolveu a geometria do acaso, o Triângulo de Pascal, o Tratado do Equilíbrio dos Líquidos, inventou a primeira calculadora mecânica - a Pascalina -, escreveu diversas obras teológicas, entre outras contribuições científicas e filosóficas. Faleceu vítima de câncer no estômago em 19 de agosto de 1662, aos 39 anos, em Paris.