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Cló, de Lima Barreto

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CLÓ
O doutor Maximiliano bebeu ainda uma cerveja e, acabada que foi a cerveja, saiu vagarosamente um tanto trôpego. A noite já tinha caído de há muito. Era já noite fechada. Os cordões e os bandos carnavalescos continuavam a passar, rufando, batendo, gritando desesperadamente. Homens e mulheres de todas as cores - os alicerces do país - vestidos de meia, canitares e enduapes de penas multicores, fingindo índios, dançavam na frente ao som de uma zabumbada africana, tangida com fúria em instrumentos selvagens, roufenhos, uns, estridentes, outros. As danças tinham luxuriosos requebros de quadris, uns caprichosos trocar de pernas, umas quedas imprevistas. Aqueles fantasiados tinham guardado na memória muscular velhos gestos dos avoengos, mas não mais sabiam coordená-los nem a explicação deles. Eram restos de danças guerreiras ou religiosas dos selvagens de onde a maioria deles provinha, que o tempo e outras influências tinham transformado em palhaçadas carnavalescas... Certamente, durante os …

Um dia de cada vez, por Carmen Belmont

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Um dia de cada vez, por Carmen Belmont
Calma. Não sei mais quem eu sou. Só sei que não sou esse com a mão direita que começa e termina o dia assim – trêmula. Tíbia. Inútil.
Não, eu não. Sempre fui forte, correndo atrás do que queria, sem esperar que caísse do céu, no meu colo, sem esforço. Trabalhando duro, contornando dificuldades, mudando de casas, cidades, até de país, se as coisas não estivessem favoráveis. Absorvia os baques e aprendia as lições sem medo de tentar outro caminho, aproveitar oportunidades, inventar soluções novas para velhos problemas. Costumava pensar, com orgulho, que era tão adaptável que poderia ser deixado nu em lugar desconhecido e distante –  como, por exemplo, a China – que, mesmo assim, daria um jeito – eu sempre arranjo um jeito, sou um sobrevivente. Mas agora isso, isso que não posso controlar, não posso curar, não posso nem esconder e está aí pra todo mundo ver, uma manifesta deficiência que vem à tona, saída de uma zona misteriosa do meu cérebro de lutad…

A folia, de Guilherme Preger

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Prezados, já temos o plano detalhado para o ensaio geral de nosso enredo, “Os Patos no Maravilhoso Reino da Folia Golpista”. Começaremos o desfile com um grande carro abre-alas, o “Pato Rei”, composto pela enorme alegoria de um majestoso Pato, com 20 metros de altura, todo realizado em teflon amarelado e ilustrado com motivos decorativos de nosso artista convidado, o pintor Romero Britto que veio diretamente de Miami para participar de nosso barracão. Logo em seguida virá nossa Comissão de Frente, cujo mote será “Salvação Nacional” e cujos integrantes virão com cartolas e fraques, relembrando nossos saudosos Barões do Império. Eles virão fazendo mesuras aos milhares de patos das arquibancadas e camarotes. Em seguida, teremos o sensacional dueto de passistas. Nosso Mestre-sala virá caracterizado com a fantasia do mediúnico patrono Romero Jucá, vestido de cartomante e com cartas e búzios na mão. A Porta-Bandeira trará uma inovação arrasadora: em vez de portar uma bandeira num estandarte…

A revolta do soluço, por Manuel Lima Dias

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A Revolta do Soluço Por Manuel Lima DiasPara o artista plástico Everardo Miranda
Bem-aventurados os que não sofrem metáforas”weitergang1050, quinquagésima primeira folha,Gonçalo de Barros Carvalho e Mello Mourão e Paulo Ramos FilhoRio de Janeiro, novembro de 1973
Um soluço súbito apoderou-se de Antônio.   Tapou a boca e arregalou os olhos.   Quem?   O soluço ou Antônio?   Não importa: coisa boa, não era.   Ou um ou o outro teve seus ombros a pulsar.   O soluço se multiplicou pelo corpo de Antônio, e Antônio se multiplicou pelo efeito do soluço.   Ou vice-versa e o contrário...   Não sei, e não interessa. Um olhou pro outro e quis firmar sua autoridade. A força de um soluço está no caos.   Ninguém consegue contê-lo, espasmo após espasmo ele inflige a anarquia no comando de quem julga detê-lo.   (...) Mas para Antônio, nada mais fácil de combater do que um rebelde sem causa.   -Baderneiro! – Bradava – baderneiro! – Prendia a respiração, como que para sufocar a revolta. (...) Cada qual sustentava…

Sobre​ ​silhuetas​ ​e​ ​sombras​ ​projetadas, de Maria Paganelli

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O entardecer é sobre um amor específico, um romance específico, mais especificamente. Entardece e é mais difícil enxergar o que acontece na minha moradia. Vejo bem nitidamente as silhuetas que percorrem o céu mudando de cor. Desenham em cores fortes, delicadas e mutáveis. Já as sombras são puro breu e aumentam mais a cada instante. Ele está certo, é o horário em que menos dá pra se ver as coisas. Nada se vê, nada se entende. Nem por mim que construí tudo aquilo que pode ser silhueta e sombra, mas muito menos pelo curioso visitante com uma pequena vela que o guia. De dentro da casa eu era acostumada a enxergar sem luz a minha escuridão e, quando o encontrei na porta, aproveitava o que ele conseguia enxergar para ver com seus olhos a minha casa, ver como sou com outra percepção. No meio a isso acontece um apagão do que eu via lá dentro e não consigo mais entender de onde vem aquelas projeções esquisitas. Que sombras são aquelas sem formas específicas? Sou eu ou ele? Ou somos os dois que…

Sempre aos domingos, por Bruna Viana

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Te amo sempre, aos domingos. Enquanto arrasto minha ressaca, de álcool ou de sono, para qualquer compromisso familiar em que eu deva sorrir. Te amo, no trajeto, enquanto empurro o pedal da bicicleta, cansada em parte pela minha falta de técnica e, em muito, pelas sobras emocionais de outros seis dias em que vivi. Te amo porque chove ou faz calor e sempre tenho de lidar com as consequências de me vestir de forma incompatível com clima –preciso, constantemente, de agasalho ou de filtro solar. Te amo porque almoço o que não queria, porque sinto sono durante a tarde e vontade imensa de uma rede qualquer que sustente minha alma desconfortável e, quem sabe assim, torne-me um pouco mais leve. Te amo porque o dia entardece desse jeito implacável e me obriga ao porvir de outra semana. te amo porque não sei mais o que esperar de outra semana. Te amo enquanto procrastino a bagunça do armário e descumpro a velha promessa da faxina aos domingos. Te amo porque despejo em ligações para novos ou vel…

Carolina, por César Manzolillo

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Eu quero que você saiba que ainda não decidi se vou mesmo fazer. Não sei se quero levar essa coisa adiante, se preciso mesmo. Claro, sou ansiosa, mas acho que todo mundo é um pouco hoje em dia. Esse mundo tá um caos. Além do mais, me assusta um pouco a ideia de ter de dividir com alguém meus segredos, meus pensamentos mais íntimos. Eu sou atriz, acho que você não sabia, né? Claro que não sabia. A gente mal se conhece. Bem, tô começando mas você acredita que meu primeiro trabalho profissional foi numa peça de Nelson Rodrigues? A temporada acabou domingo passado. Bonitinha mas ordinária. Não, eu não era a protagonista. Era uma das irmãs da Ritinha. A Vera Fischer fez no cinema. A Ritinha, eu quero dizer, ela fez a Ritinha. Acho ele um gênio. Foda mesmo. Manda muito bem. Minha família toda foi assistir. Até meu pai. Ficou meio chateado porque eu apareci de peito de fora. Mentalidade atrasada, meu Deus. Aquela cena tava completamente dentro do contexto. Por mim ele nem teria ido. Já sabia…