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A Natureza das coisas, por Marilia Passos

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Sentada no batente da janela, ela olha a baía de Guanabara. Queria viver com a mesma desenvoltura daqueles homens que não têm medo de cair. Talvez eles se segurem nas opiniões tão firmes que possuem sobre tudo, ou talvez sejam destemidos mesmo, ou talvez nunca tenham vivido um fracasso. Ou talvez só sejam homens. Como Chico, o amigo de infância que ganhava em tudo. “Meninos são mais fortes”, ele dizia. E ela então quis ser homem, até a tarde em que Saulo, o faxineiro da escola de dança, pediu para ver a xoxota dela. Luísa achou aquilo engraçado: ninguém nunca lhe pedira para ver a xoxota. Ele repetia a pergunta como um apelo, o mesmo tom que ela usava quando implorava um brinquedo: “Compra, mãe, compra! Por favor!”.  — Não, Saulo, não vou mostrar xoxota nenhuma. Balançava a cabeça do mesmo jeito que a mãe.  Esfregando o chão, ele insistiu uma, duas, dez vezes. Ela não saía do lado dele, observando aquele homem gordo se rastejar sobre seus pés pelo reflexo do espelho. Ficou um bom tempo c…

Coisas na cabeça de um guri, por Camilla Agostini

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Tomar um brinquedo nas mãos, pousá-lo logo à frente e vê-lo mover. Se a casa de bonecas da prima abre portas e janelas, deixando as mãos apertadas entrarem, seus pequenos balanços em formato de carrossel giram e a lembrança voa para o dia no parque de diversões. Luzes coloridas e brinquedos emocionantes, assustadores com uma dose de aventura. Montanha russa, trem fantasma, bate-bate. Esperava a chuva passar para que logo pudesse ir aos balanços da pracinha, enquanto giravam ali no chão da sala as cadeirinhas coloridas nas mãos do guri. A praça era o que restava depois da temporada do parque na localidade.
Esse mesmo piá esteve um dia instigado em como tanta coisa podia parar dentro de uma garrafa de vidro. Olhava bem e desafiava o pensamento, imaginando a engenharia necessária para passar um boneco articulado de madeira pelo gargalo. Averiguava com as pontas dos dedos que não havia marcas na garrafa, a única entrada possível era a diminuta boca e insistia em uma resposta até cansar a…

Enquanto os dentes, por Carlos Eduardo Pereira

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Havia muitas brincadeiras de garoto, guerra de amêndoa, golzinho, pipa, taco, rolimã, cuspe a distância, e Antônio era um desastre em todas elas. Mas em corrida de chapinha ele se destacava. Era o responsável por desenhar as pistas, reproduções dos circuitos que ele conhecia tão bem. Desenhava na calçada irregular, não exatamente como eram, mas simulando florestas e pontes, riscando o chão às vezes com tocos de giz, quase sempre com pedaços de tijolo. Tinha jeito para desenho e talento para atividades manuais em geral, era o que diziam. A mãe guardava as tampinhas das garrafas de cerveja ou do refrigerante de domingo e Antônio separava as mais lisinhas, as que não tinham sido deformadas pelo abridor, para usar nas competições. Com o tempo, desenvolveu técnicas para incrementar seus automóveis imaginários, testando materiais, derretendo cera de vela na parte de dentro das chapinhas, misturando tintas, cores as mais variadas, proporcionando estabilidade, e beleza, aos petelecos. Mas tev…

Aristeu, por João Mattos

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Aristeu, no primeiro dia de aula. Aristeu, companheiro de carteira escolar, com dificuldade de pegar no lápis. Para mim era fácil, vinha de uma casa de professora, tinha lápis de cor, papel e cartolina, giz de cera à vontade. "Mas essa gente é muito bronca", dizia minha mãe. E teve o dia de fazer a primeira cópia. A história de Oscar, seu barco e seu cãozinho. Da lousa para o caderno, capricho e atenção. Eu terminei, os colegas terminaram. Aristeu, com seus garranchos, nunca chegava. "Muito devagar, muito devagar!", censurou a professora. Aristeu ria, um riso sem graça. A casa de Aristeu era lá pra baixo, quase na beira do rio. Isso era recente, dois anos antes moravam na roça, no bairro dos Sete Fogão. Minha mãe corrigia: "Sete Fogões". Mas não tinha jeito não, o nome do lugar era Sete Fogão mesmo. Aristeu e as brincadeiras no pátio. E na volta da escola, passar pela praça, subir na mangueira, jogar pedras no laguinho dos peixes. Aristeu era danado. Empinan…

Razão é o caralho, por Daniela Ribeiro

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Pois estava eu arrumando a cama em formas geométricas... Meu Deus, por que Guilherme não consegue ver as formas geométricas dos lençóis e das fronhas. Ele faz de propósito! À noite me lê as maravilhas da harmonia do mundo, sobre como Kepler descobriu as órbitas dos planetas e os sons harmônicos a partir de notas musicais; de manhã é incapaz de deixar o tapete perpendicular, ou de ajeitar o lençol de modo a que se assemelhe a um retângulo sobre a cama.
Essas harmonias, teoricamente descritas, me parecem um tanto quanto míopes. De perto, de perto, não há nada rigorosamente igual ou simétrico. Se bobear, foram todas construídas a partir de heptaedros, hahahaha. É a única explicação para Bolsonaro ter ganhado as eleições, para Olavo de Carvalho ter algum público, mesmo nas redes sociais, e para o PMDB do Rio de Janeiro existir. 
Talvez, quem sabe, se sairmos às ruas armados de violões e violinos desafinados, todos tocando em uníssono infernal, não tiremos os cidadãos de bem de sua pachor…

Caderno de memórias coloniais, por Isabela Figueiredo:

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Ernesto não ia trabalhar há três dias. Era preto e os pretos eram preguiçosos, queriam era passar os dias estendidos na esteira a beber cerveja e vinho de caju, enquanto as pretas trabalhavam na terra, plantavam amendoim ao sol, suando com os filhos às costas, ao peito, e a enxada a subir e a descer. Preto era má rês. Vivia da preta. Não pensava na vida, no futuro, nos filhos. Só queria descansar, dormitar, dançar, cantar, beber, comer, viver vida boa. Era absolutamente necessário ensinar os pretos a trabalhar, para seu próprio bem. Para evoluírem através do reconhecimento do valor do trabalho. Trabalhando, poderiam ganhar dinheiro, e com o dinheiro poderiam prosperar, desde que prosperassem como negros. Poderiam deixar de ter uma palhota e construir uma casa de cimento com telhado de zinco. Poderiam calçar sapatos e mandar os filhos à escola para aprenderem ofícios que fossem úteis aos brancos. Havia muito a fazer pelo homem negro, cuja natureza deveria ser anulada – para seu bem. De m…

O número três implica caos

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O combinado era de que seríamos três. Um, o outro e um terceiro. E o terceiro não seria a simples adição ou a complexa multiplicação dos outros dois. Pois um mais um dá dois; e um vezes um dá um. O terceiro seria um ente autônomo, com suas necessidades e desejos diferentes das necessidades de nós outros. Dizem que o número três é mágico. Falam no poder da Santíssima Trindade. Falam da complexidade da dialética hegeliana: tese, antítese, síntese. E o corpo: cabeça, tronco e membros. No nosso caso, seria simples assim: o um, o dois e o três. Como num triângulo, nem isósceles nem equilátero, um triângulo irregular. Cada lado com seu comprimento. Cada um de nós estava num vértice. E cada um via sempre o segundo e o terceiro. O terceiro deveria ser o produto de nossas ações, o resultado de nosso encontro, mas a verdade é que aos poucos cada um de nós dois começou a ser definido, ou determinado pelo terceiro. O terceiro parecia não ter vindo depois, mas antes. Foi o terceiro que determinou…