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No Cassino do Senhor, de João Bastos de Mattos

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Tinha sido um encontro tão sem pretensões que ele nem sabia dizer como é que depois virou tudo aquilo. Marilda romântica não-me-toques, não sei se minha mãe vai deixar, e depois o cinema e depois a discoteca, a mão que não podia ultrapassar certos limites e aquele jogo duro e a mãe: criei minha filha para ser feliz no casamento e o pai: mas você vai ter condições de assegurar a felicidade de minha filha. Tudo já era passado e agora os dois na alegria e na tristeza, o apartamento de dois quartos no Cachambi e o emprego dele como técnico de manutenção de geladeiras e ela digitadora num bureau de informática e a velha cuidando do neném e Marilda reclamando minha mãe está deseducando a criança e mal dava para ir ao cinema os dois juntos mas o churrasco na casa do sogro era de lei e a santa cervejinha garantida nos fins de semana. Não, não foi bem assim. Eu me confundo. Refaço a história. Ela é que se insinuou e ele nem fazia tanta força mas afinal era cômodo e podia sair alguma coisa inter…

10:04, de Ben Lerner

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Quando nossos corpos se separaram, pensei ter visto a respiração condensada de Alena vagando pelo ar, mas o apartamento estava quente demais para isso; seja como for, corpo dela voltou à homeostase, e pelo visto muito mais rápido do que o meu. Ela levantou-se do colchão, alisou o vestido que não chegara a tirar em nenhum momento e eu me recompus e segui-a até a escada de incêndio, onde recebi as luzes do prédios mais altos que assomavam à nossa volta, todos eles envoltos em um halo agora. Alena tirou um cigarro de um maço que já devia estar em cima de uma lata de tinta cheia de areia e acendeu-o com um fósforo que risca em qualquer lugar - de proveniência obscura- na parede de tijolos externa do prédio. "Ah para com isso" eu disse, referindo-me àquela atitude descolada absurda e cumulativa. Ela bufou um pouco quando riu e depois tossiu fumaça, voltando a ser real. Ficamos conversando sobre a exposição enquanto o cigarro durou - a abertura teria início dali a uma ou duas horas…

Jogo de cena em Bolzano, de Sándor Márai

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No livro de Sándor Márai, Jogo de cena em Bolzano, Giacomo Casanova fugiu da prisão em Veneza, e permanece por um tempo em Bolzano, cidade do Tirol italiano. Circunstâncias várias fazem com que ele receba em seu quarto de hotel, quando se preparava para um baile de máscaras em casa dos condes de Parma, a visita da própria condessa, já vestida para a festa – a condessa que, na descrição do autor, foi o grande amor de Casanova. Segue parte da fala da Condessa de Parma:
E nos dois palcos, na cama e no mundo, seremos cúmplices que sabem tudo sobre si mesmos e os outros, e não teremos mais medo de atuar no palco, porque o amor é cumplicidade e aliança, Giacomo, não apenas fervor e promessa, lágrimas e gritos; é uma aliança muito séria e dura. E sustentarei essa aliança até a morte. O que irá acontecer? Não tenho planos, Giacomo. Não digo "Cá estou, sou sua, leve-me com você", pois são apenas palavras tolas. Mas você precisa saber que, se não me levar consigo agora, esperarei por v…

Asas de papel, por Carmen Belmont

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Asas de papel, por Carmen Belmont
– Corta. Corta tudo – disse a voz que parecia sair dela, irreconhecível. Enquanto as mechas longas caíam, a imagem da mulher que ela fora se desfazia no espelho, interrogando-a com um misto de indignação e tristeza, mas ela não se deixou intimidar: sustentou o olhar reprovador levantando a curva dos lábios no lado direito da face, quase como se fosse dar um sorriso. Mas não sorriu; ficou observando aquela figura que chegava, como uma onda inesperada, nos cachos rebeldes cujas pontas curtas se multiplicavam desordenadamente sobre a nuca recém-descoberta.


– Chega. Assim já está bom.
– Mas... ainda não terminei  e –
– Terminou sim – disse e se levantou da cadeira onde estivera sentada, penteando, com os dedos, os cabelos ainda úmidos. Parecia um moleque que acabara de escapar da chuva – pensou, algo divertida, sacudindo gotas brilhantes sobre a bancada envidraçada. Pagou e ganhou a rua rapidamente, juntando-se aos passantes da tarde, suavemente tingida por u…

“Estou bem, mas poderia estar um pouquinho melhor”, de Lydia Davis

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Estou cansada. As pessoas na minha frente estão demorando muito para escolher o sabor do sorvete. Meu dedão está doendo. Tem um homem tossindo durante o concerto. A ducha está um pouco fria demais. O trabalho que tenho para fazer hoje de manhã é difícil. Nos sentaram muito perto da cozinha. A fila dos correis está comprida demais. Estou com frio sentada aqui no carro. O punho do meu suéter está úmido. O chuveiro está sem pressão. Estou com fome. Eles estão brigando outra vez. Esta sopa é insossa. Minha laranja-lima está um pouco seca. Não consegui sentar no trem sem ninguém ao meu lado. Ele está me fazendo esperar. Eles foram embora e me deixaram sozinha à mesa. Ele diz que minha respiração é incorreta. Preciso ir ao banheiro, mas tem alguém lá. Estou um pouco tensa. Minha nuca está dormente. O gato está com micose. A pessoa atrás de mim no trem está comendo algo que cheira muito mal. Está quente demais naquela sala para eu praticar piano. Ele me liga quando estou trabalhando. Comprei creme azedo por engano. Me…

Matadouro 1704, de Guilherme Preger

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“Humanista é uma pessoa com grande interesse pelos seres humanos. Meu cachorro é humanista” Kurt Vonnegut “Derrama o leite bom na minha cara/E o leite mau na cara dos caretas” Caetano Veloso “O diabo na rua, no meio do redemunho” Riobaldo Tatarana
Irmãos, as pragas invadiram nossos pastos e adoecem a nossa grama e alfafa. Nasceram e se multiplicaram as flores vermelhas que envenenam nossos bois. E com isso o sangue de nosso gado se deteriora e o leite de nossas vacas adquire uma maligna cor rubra. Do que adiantam as vacas se seu leite já não alimenta nossa prole? Sacrifiquemos então, Irmãos, uma Vaca para que o deus santificado, cuja mão livre organiza os passeios no pasto, possa interromper a PesTe que nos abate, como se fossemos nós o gado. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, digamos SIM ao sacrifício da Vaca! SIM! Em nome de minha mulher, de meus filhos e da família reunida em volta da mesa para a santa ceia, eu digo SIM! Em nome do meu tio Guimarães que me levava quando criança ao…

Vida Sertaneja, de Cecília Mouta

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A luz da lua sombreava, feito pintura, qualquer coisa que se atrevia a emergir naqueles vastos campos, agora negros, pela noite. A paisagem que se formava era quadro digno de memória. Dava dó de passar ali no meio e estragar a obra da natureza, mas a vida não é arte, e os compromissos não esperam. A barba por fazer coça o meu rosto feito urticária das “brabas”, mas não gosto de mim sem ela, então, só raspo quando vejo a loucura se aproximar em cima de boi “brabo”. E põe “brabo” nisso! Esses dias o Demônio danou a correr atrás de Jeremias, o rapaz que costumava me ajudar a botar o rebanho pra pastar nas terras mais distantes. Jeremias, que não é bobo nem nada, danou a correr também. Mas o pobre do rapaz foi ser filho de nordestino e puxou essa tal de genética das pernas curtas. Foi o tempo dos meus cílios se separarem para o chifre do Demônio perfurar sua pele maltratada. O berro de Jeremias era mais potente que berrante. O voo, mais alçado que de águia. Eu e mais dois ajudantes partim…