quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Sobre​ ​silhuetas​ ​e​ ​sombras​ ​projetadas, de Maria Paganelli

O entardecer é sobre um amor específico, um romance específico, mais especificamente. Entardece e é mais difícil enxergar o que acontece na minha moradia. Vejo bem nitidamente as silhuetas que percorrem o céu mudando de cor. Desenham em cores fortes, delicadas e mutáveis. Já as sombras são puro breu e aumentam mais a cada instante. Ele está certo, é o horário em que menos dá pra se ver as coisas. Nada se vê, nada se entende. Nem por mim que construí tudo aquilo que pode ser silhueta e sombra, mas muito menos pelo curioso visitante com uma pequena vela que o guia. De dentro da casa eu era acostumada a enxergar sem luz a minha escuridão e, quando o encontrei na porta, aproveitava o que ele conseguia enxergar para ver com seus olhos a minha casa, ver como sou com outra percepção. No meio a isso acontece um apagão do que eu via lá dentro e não consigo mais entender de onde vem aquelas projeções esquisitas. Que sombras são aquelas sem formas específicas? Sou eu ou ele? Ou somos os dois que desenham a escuridão indefinida dentro de mim? As sombras que projeto pela luz em comum ficam cada vez mais difíceis de entender se mostram um caminho para dentro da casa ou nos embarreiram, expondo todo o medo de alguma iluminação. A nossa vela, com o tempo, derrete na mão dele e também pinga sobre meus pés descalços. Incômodos e dores acontecem num sábado feio. Dos meus olhos escorrem algumas coisas que não sei do que nomear. E como a vela, também me queimam e doem. Não entendo. É como se agora brilhasse no meu olho aquele reflexo da vela, quando fui atender a porta. Sem dúvidas derretia alguma parte de mim ali bem à beira da rua. Mas ele trouxe uma vela pequena, chamas inseguras que dançam bastante no fio envolto em cera branca e nos meus olhos castanhos como os dele. Não entendo... - Lá fora entardece passando cores infinitas no céu. Lá fora as cores se escurecem, ficam cada vez mais parecidas com o tom escuro de azul que tenho dentro do meu quarto apagado. Sintonias muitas nesse encontro entre fora e dentro de casa. Entre os dois. Entre dia e noite. Num encontro de fim de tarde, que é momento de indefinição tão emocionante. Nesse meio do caminho acontece aquele silêncio demorado: o tempo das respirações. Enquanto respiramos, eu, ele e a vela, me vejo a um silêncio de distância de convidá-lo a entrar, iluminar o ambiente, os candelabros e a lareira daqui de dentro. Mas dele eu ainda não sei, só ouço respirações.

Conto lido no encontro de 07/11/2017

Maria Paganelli é artista. Pinta, escreve e tem uma banda de forró chamada Patuá. Ela se entrega com uma sensibilida ímpar ao que faz, como demonstra em um belo sorriso italiano cheio de vitalidade. Veja seus trabalhos em: https://www.facebook.com/mariaivpaganelli/?notif_id=1510486672450253&notif_t=page_invite&pnref=story



segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Sempre aos domingos, por Bruna Viana

Te amo sempre, aos domingos. Enquanto arrasto minha ressaca, de álcool ou de sono, para qualquer compromisso familiar em que eu deva sorrir. Te amo, no trajeto, enquanto empurro o pedal da bicicleta, cansada em parte pela minha falta de técnica e, em muito, pelas sobras emocionais de outros seis dias em que vivi. Te amo porque chove ou faz calor e sempre tenho de lidar com as consequências de me vestir de forma incompatível com clima –preciso, constantemente, de agasalho ou de filtro solar. Te amo porque almoço o que não queria, porque sinto sono durante a tarde e vontade imensa de uma rede qualquer que sustente minha alma desconfortável e, quem sabe assim, torne-me um pouco mais leve. Te amo porque o dia entardece desse jeito implacável e me obriga ao porvir de outra semana. te amo porque não sei mais o que esperar de outra semana. Te amo enquanto procrastino a bagunça do armário e descumpro a velha promessa da faxina aos domingos. Te amo porque despejo em ligações para novos ou velhos amigos essa ânsia de desatar da garganta esse nó-de-domingo. Esse dia em que se adensa o mal resolvido. Te amo porque estou inerte, falta-me ânimo e busco um filme qualquer que me antecipe da segunda feira uma nova vida. Te amo enquanto encaro a falta de paciência que o calendário desse ano teve por mim. Te amo porque tento dormir cedo, perambulo o corredor entre os quartos e escuto TVs ao longe, desassossegada de minha programação. Te amo porque meu pescoço não se encaixa no travesseiro, porque estou cansada, mas desperta, porque penso e sinto tanto e me esforço e me enfeito, leio os livros, corto e lavo meus cabelos, escuto todos aqueles forrós nordestinos, festejo e corro em calçadas e vou para tantos lugares, tantas viagens e sempre acabo assim,em qualquer lugar, de qualquer modo, dando o nome de amor para esse sentir vazio que me toma

Sempre, aos domingos.

(Mote vencedor para o encontro do dia 21/11/2017).

O mote, Sempre aos Domingos, foi extraído do texto homônimo de Bruna Viana, na página 21 do terceiro número da Madame Eva, Revista de Tautologias, disponível em https://revistamadameeva.wordpress.com/revistas/madame-eva-no3/

Bruna Cabral de Pina Viana nasceu em uma vila de pescadores no sul da Bahia. Paraíso que nao se revela o nome para que ninguem se anime em visitar. Escreveu em areia seus primeiros e melhores versos. Só o mar pode ler. Publicou seu primeiro livro aos sete anos, edição já esgotada. Caminhou pelo nordeste dos treze aos dezessete anos, tempo em que produziu dois de seus melhores contos, premiados Honra Capibarida. Escreve, atualmente, somente em guardanapos de mesas de bar. Mas sempre os atira ao mar.



segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Carolina, por César Manzolillo

Eu quero que você saiba que ainda não decidi se vou mesmo fazer. Não sei se quero levar essa coisa adiante, se preciso mesmo. Claro, sou ansiosa, mas acho que todo mundo é um pouco hoje em dia. Esse mundo tá um caos. Além do mais, me assusta um pouco a ideia de ter de dividir com alguém meus segredos, meus pensamentos mais íntimos. Eu sou atriz, acho que você não sabia, né? Claro que não sabia. A gente mal se conhece. Bem, tô começando mas você acredita que meu primeiro trabalho profissional foi numa peça de Nelson Rodrigues? A temporada acabou domingo passado. Bonitinha mas ordinária. Não, eu não era a protagonista. Era uma das irmãs da Ritinha. A Vera Fischer fez no cinema. A Ritinha, eu quero dizer, ela fez a Ritinha. Acho ele um gênio. Foda mesmo. Manda muito bem. Minha família toda foi assistir. Até meu pai. Ficou meio chateado porque eu apareci de peito de fora. Mentalidade atrasada, meu Deus. Aquela cena tava completamente dentro do contexto. Por mim ele nem teria ido. Já sabia que ia reagir mal. Enfim. E depois eu não quero que as pessoas pensem que sou uma patricinha que veio fazer terapia porque não tem mais nada pra fazer na vida. Tipo pra passar o tempo, entende? Minha família não é rica. Bem classe média. Acho que até pode me ajudar no meu trabalho de atriz. Tudo tem prós e contras, não é mesmo? Eu posso começar. Talvez o ideal seja eu começar sem compromisso. Sei que não sou obrigada a nada. Não precisa você me dizer. Não sou tão tapada. Verdade. Sou filha única. Não sou mimada. Quando falo que sou filha única, as pessoas logo pensam isso. Bem ao contrário. Mas não posso negar que durante muito tempo eu desejei muito ter um irmão, uma irmã, um primo adotado que fosse, a casa mais cheia, mais barulho, mais agitação. Carolina, minha filha, você ainda não está pronta? O táxi já chegou. Temos hora marcada. Por que você se olha tanto nesse espelho? Depois que você entrou pro teatro, resolveu ensaiar tudo. Até a vida. 


(Mote vencedor lido por Daniel Ribas para o encontro de 07/11/2017)


César Manzolillo nasceu no Rio de Janeiro, licenciado em Letras (Português-Literaturas), mestre e doutor em Língua Portuguesa pela UFRJ, com pós-doutorado pela USP. Professor de Língua Portuguesa, lecionou e ofereceu cursos na Faculdade de Letras da UFRJ, no Instituto de Letras das UERJ, no Instituto de Letras da UFF, na Faculdade de Formação de Professores da UERJ, na UNESA, no SinproRio e no Colégio de Aplicação da UERJ. Diretor da montagem da peça "Senhora dos afogados", de Nelson Rodrigues, apresentada durante o mês de julho de 2008 na Sede da Cia. de Teatro Contemporâneo (Botafogo, Rio de Janeiro). Revisor de textos. Após participação em algumas coletâneas, lança "A angústia e outros presságios funestos", seu primeiro livro de contos.





segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Cultura: uma visão antropológica, de Sidney W. Mintz

Talvez nenhum dos escritos de Boas tenha revelado de maneira mais marcante o seu ponto de vista como a carta que escreveu a um parente durante a sua primeira visita aos esquimós, ao iniciar a sua carreira de antropólogo. Era dezembro de 1883. Boas, seu criado Wilhelm e o esquimó que os acompanhava, de nome “Sigma”, tinham viajado sob condições altamente adversas para o extremo noroeste do Estreito de Cumberland. Caminhando por 36 horas, na maior parte desse tempo perdidos, vagando pelo gelo a 45ºC negativos,suas provações só tiveram fim quando foram convidados a entrar em um iglu esquimó, onde puderam se aquecer, comer e dormir. “Não é realmente um belo costume”, observou Boas, “que estes ‘selvagens’ sofram todo tipo de privações em comum, mas nos momentos de alegria, quando alguém traz um butim da caçada, eles se juntem para comer e beber? Eu muitas vezes me pergunto quais as vantagens que a nossa ‘boa sociedade’ possui sobre a desses ‘selvagens’. Quanto mais observo seus costumes, mais me convenço de que não temos por que nos considerarmos superiores. Onde, em nossa sociedade, encontraríamos tamanha hospitalidade? Aqui, sem a menor queixa, eles estão dispostos a fazer todos os trabalhos que lhes são exigidos. Nós não temos o direito de criticá-los por sua forma de vida e suas superstições, que podem nos parecer ridículas. Nós, pessoas ‘altamente educadas’, somos piores, relativamente falando. O medo das tradições e velhos costumes está profundamente arraigado na humanidade, e do mesmo modo que regula a vida aqui, impede o progresso para nós. Acredito que todos os indivíduos e todos os povos se veem diante do conflito de abandonar a tradição e seguir o caminho da verdade. Os esquimós estão sentados ao meu redor, as bocas cheias de fígado de foca cru (a gota de sangue no verso do papel mostra que eu também participei). Como ser pensante, o resultado mais importante desta viagem para mim está no fortalecimento do meu ponto de vista de que o conceito de um indivíduo ‘cultivado’ é meramente relativo, e que o valor de uma pessoa deve ser julgado pelo seu Herzenbildung. Esta qualidade está presente ou ausente aqui entre os esquimós, tanto quanto entre nós.”


Mote vencedor do encontro de 03/10/2017 lido por Gabriel Cerqueira. Você pode ler o artigo completo aqui

Sidney Wilfred Mintz (1922-2015) foi um antropólogo norte-americano. Povos do Caribe e a Antropologia da Alimentação foram suas especialidades, mas também realizou estudos no Irã e em Hong Kong. Formado pela Universidade de Columbia e professor da mesma, Mintz também lecionou na Universidade de Munique, na Universidade Chinesa de Hong Kong, Johns Hopkins University, entre outras.



Franz Uri Boas (1858-1942) foi um antropólogo alemão radicado nos EUA. Professor renomado na Universidade de Columbia e estudioso do povo inuit, Boas é considerado como um dos fundadores da Antropologia Moderna.



Beije-me antes de partir, por Gabriel Cerqueira


Em um bar barato em Lincoln Park, Chicago, numa noite chuvosa de quarta-feira.

A conversa foi interrompida pela chegada de um homem sorridente e olhar gentil. Era Johnnie, um produtor musical que havia ganhado certa fama por causa de algumas boas apostas em cantores de rua. Nos conhecemos ainda na universidade. Não éramos próximos, transamos algumas vezes, mas pela boca dos outros ele conheceu até meu passado pelas noites de Detroit. At Detroit they don’t have any mercy. They just want your pussy. Na última vez em que nos vimos ele disse que arranjaria algum modo de ganhar dinheiro e voltaria para me buscar. Não acreditei em nenhuma palavra dele. Só que Johnnie voltou, o motivo ninguém sabe. Bebo um gole de cerveja e dou um trago no cigarro.
Motivos à parte, Johnnie está em cima de mim na minha cama. Como as intenções sobre meu corpo sempre são de segunda nunca neguei uma boa foda. Ele começou por cima, beijando meu pescoço e seios, demorou-se nos mamilos rijos, me lambeu até quase eu gozar e então entrar em mim.
A fumaça de dois cigarros preencheu o ar do quarto escuro. Deitei sobre o peito de Johnnie e ficamos calados, apreciando o gosto do tabaco e o silêncio da noite.
– Quero saber se quer ir comigo – ele disse calmo e de repente.
– Não pensei que fosse cumprir sua promessa de príncipe num cavalo branco.
Peter, um amigo que tínhamos em comum, deve ter contado que pretendo sair de Chicago. Não tenho nada aqui além de um emprego miserável em uma loja de departamentos. Minha família já se foi, os amigos vêm e vão. Johnnie disse que poderia me arrumar um trabalho decente na Califórnia com um de seus amigos e que, se quisesse, poderia morar com ele. Será que estava apaixonado por mim desde a faculdade? Como esse não era o primeiro acordo que fiz por sexo, resolvi aceitar a proposta.
Já coloquei quase tudo o que tenho em caixas – minha vida inteira coube em cinco delas – e faltam apenas algumas roupas, sapatos e o diploma da Detroit Mercy University pendurado na parede. Pego e olho meu nome escrito com uma caligrafia desenhada. Nada do que fiz por ele valeu a pena. O sonho universitário é gerado num útero de esperança com um bom discurso institucional, só para depois te parirem na sarjeta.
Duas semanas depois já estávamos em São Francisco. Por enquanto estou morando com Johnnie para poupar alguns trocados. Arranjei um estágio em uma agência de advocacia pela primeira vez. Tudo está indo muito bem, inclusive as coisas com Johnnie. Acho que me apaixonei pelo sujeito, algo inédito para uma criatura destrutiva como eu.
Sempre busquei meu fim. Nunca amei ninguém e as transas sempre tinham outro objetivo além do prazer. A bebida e as drogas se tornaram um alento contra o vazio crescente em meu peito. Outro dia numa conversa um amigo disse que nunca pensou em se matar e me assustei; e existia essa alternativa, simplesmente nem pensar em tirar a própria vida? Mas quando estava com Johnnie a existência que me era pesada soava branda.
Sexta-feira à noite e saímos para comemorar o bom andamento de nossa nova vida. Estamos em um pub e Johnnie me apresenta alguns de seus amigos, inclusive Keith Mars,  sucesso recente que lançou o nome da sua gravadora nos holofotes da indústria musical californiana; “Era só questão de tempo para se tornar um sucesso nacional”, Johnnie disse enquanto entramos em uma sala privada.
Há diversos rastros de estrela cadente em cima da mesa nos aguardando. Aspiro duas delas quase que de uma vez e meu corpo relaxa e dispara. Pego Johnnie honey, meu Johnnie, e danço com ele pelo cômodo banhado em uma luz azul. Agarro o desgraçado e o beijo, aperto seu corpo contra o meu, forte, intenso. Bebo vodka com uma bala, a consciência resiste quase se partindo.
Não sei quanto tempo se passou desde que estamos aqui, nem quanto cheirei ou bebi, e a euforia está diminuindo. Está indo embora rápido demais e ela não se torna apatia. Sinto meu corpo formigando e começo a suar frio, perco o equilíbrio. Sinto nojo de mim mesma, olho ao redor e vejo a estupidez de toda aquela decadência. Sinto vontade de beber veneno ou pular de um prédio. Começo a tremer e desabo no chão. Johnnie vem ao meu encontro, alarmado.
– Merda, Steve! – ele grita – Você matou a puta!
E Johnnie caminha em direção à porta com Keith a tiracolo.
Oh, Johnnie honey, meu coração está batendo mais rápido, mas não é por amor.
Alguém me ampara enquanto diz com a voz vacilante “Puta merda, eu só trouxe as coisas!”. Reviro os olhos e a língua embola na boca. Mesmo com meu corpo colapsando minha mente está serena. Tudo está distante, alheio e opaco. Convulsiono, me debato. Coração e cabeça parecem que vão explodir. O azul escurece cada vez mais, o som fica abafado, parece que o tato está parando de funcionar, até que...



(Conto mais votado no encontro de 03/10/2017)

Gabriel Cerqueira não faz a menor ideia de quem ele é.

 

terça-feira, 26 de setembro de 2017

A benção do malandro, de José Fontenele

A bênção do malandro
Quem nota o seu Cesinha desacompanhado na mesa da diretoria da Estudantina pode pensar que ele é apenas um homem idoso utilizando o privilégio de sua idade. Supor isso denuncia que a pessoa ou é novata naquela gafieira ou não conhece as malevolências amorosas do malandro. Chapéu Panamá de abas curtas, paletó sempre branco e engomado, camisa de algodão de listras branco-pretas do glorioso Botafogo, calças brancas de leve brim e sapato social como a luz da lua, seu Cesinha não risca o salão por impedimento de suas mulheres. Elas têm medo de ganhar outra concorrente. Digo mulheres porque o malandro é casado de forma civil com a mulata Dolores, mas também dedica atenção amorosa para a mãe dela, a Serafina. O segredo da relação dupla sempre foram as palavras e o gingado dentro e fora da gafieira.
Malandro altivo, o Cesinha, antes de ser respeitado, era um excelente dançarino e um convicto sedutor. Quando as madamas desciam para testar seus passos lá onde a dança de salão era aperfeiçoada, era o Cesinha que guiava os braços brancos e sedosos das grã-finas. Os invejoso diziam que ele era apenas um divertimento de senhoras ricas, algo como um mico de circo; aí ele se enfezava, jurava briga e gingava capoeira de meter medo em qualquer um. Quando saía soco e chute a dança acabava, as madamas iam embora e todo mundo perdia. Foi por isso que demorou um tempo até as grã-finas retornarem e o Cesinha ficar famoso por causa da viúva do coronel.
O nome dela era Claudete Moraes Pereira Barroso, esposa de um Coronel do Exército ainda vivo naquela época. A moça, sem aliança, aprendia os primeiros movimentos no salão e era só elogios aos passos e remelexos do Cesinha. E como diz o bloco, simpatia é quase amor. Por isso não deu outra. O sorrisão do mulato conquistou a grã-fina, o marido morreu de infarto ao saber que era traído e a dona Claudete passou a ser chamada de viúva do coronel. Aí então, quando diziam que cornice não mata, a gente contava a história da viúva do coronel e a fama do Cesinha corria as ruas. A viúva teve problemas com advogados e herança, e logo sumiu. O mulato? Explodiu na gafieira. Faziam fila para dançar com ele e os lábios do Cesinha trabalhavam mais que cuíca em época de carnaval. O malandro só fugia quando as amantes descobriam que eram traídas. Quando a poeira baixava ele aparecia mais cheiroso e simpático do que nunca, galanteando até modelo de vitrine de shopping e ia riscar o salão com outra dama, sem se estressar com mulher, porque estresse a gente sabe que mata tanto quanto cornice.
Então apareceu a Dolores, que no terreiro era filha de Iansã. Mulata três por quatro, cara fechada, brava, botava no chão qualquer um que se engraçasse com ela. Dolores não era uma mulher para ser conquistada, ela era a caçadora. Os mais velhos dizem que quando eles dançaram pela primeira vez, ela o derrubou para deixar claro que era ele quem deveria ter cuidado com ela, não o contrário. Para conquistá-lo a mulata fez guerra: rasgava roupa da mulher que dançava com o malandro, puxava cabelo, dava rasteira e chegou até a morder o braço de uma madama que gingou com o Cesinha. Aí a diretoria se emputeceu. Falou para a Dolores esfriar a cabeça fora da Estudantina por uns dias. E foi nesses dias que ela foi vista no terreiro com velas e flores amarelas, espadas de Iansã, que são iguais às espadas de São Jorge, mas com as bordas amarelas, e melão – oferendas para sua mãe Iansã. O Cesinha, por outro lado, não acredita nesse feitiço. Afirma que foi procurar a Dolores porque queria se desculpar. “Se desculpar com o quê homem?” Perguntavam. Mas ele nunca respondia.
Dois meses depois do pedido de desculpas, a Dolores apareceu meio barriguda, com as carnes mais robustas e o gingado lento. O casório foi no civil, mas a amarração legítima foi no terreiro. Sem dinheiro, porque o Cesinha só fazia bico, eles foram morar na casa de Serafina, mãe da mulata, que também era tão viúva quanto a viúva do coronel. E a gente sabia que ia dar coisa ruim, porque a dona Serafina tem as carnes vistosas para uma mulher de cinquenta anos. Panela velha é que faz comida boa, não é? Por isso o Cesinha, quando não tinha seus bicos, ia comer na panela da sogra. Logo aconteceu o pior: o malandro foi pego com a boca na botija da Serafina. Dolores bateu na cara dele, xingou, quebrou panela e prato, rodou a baiana pra todo mundo ouvir e botou o nome dele na macumba. Só desfez a mandinga por pedido do mulato, que não conseguia nem dançar, tão sorumbático estava. O pessoal do terreiro também ajudou, falou que não pegava bem pra filha de Iansã castigar marido e mãe ao mesmo tempo porque podia dar desgraça braba. Então passaram a morar juntos e o Cesinha teve três filhos com a Dolores, todos homens, e uma filha com a Serafina. Hoje ainda vivem no mesmo teto, porque o mulato só recebe o aposento e os filhos herdaram a malandragem e a cadência do pai.
Vivem felizes. Nunca ninguém viu o seu Cesinha emburrecido com nada.
Então quem vê o mulato no canto todo arrumado no brim e no sorriso, nem desconfia. Acha que ele é um velho daqueles bem velhos que só falta morrer igual velho. Mas quem conhece a história do seu Cesinha, como eu, pede permissão pra diretoria, sobe os degraus com reverência e vai pedir bênção.

Ficar de bem com a malandragem só traz coisa boa.

Conto vencedor do encontro de 19/09/2017

José Fontenele é Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Trabalha em uma Agência Literária. Escreve resenhas para os sites Ambrosia (ambrosia.com.br) e Vortex Cultural (http://vortexcultural.com.br), contos e atualmente trabalha no segundo romance.




sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Amor a quem?, de Bertold Brecht

Dizia-se da atriz Z. que ela tinha se suicidado devido a um amor infeliz. O sr. Keuner disse: “Ela se suicidou por amor a si mesma. De todo modo, ela não pode ter amado X. Senão ela não lhe teria feito isso. Amor é o desejo de dar algo, não de receber. Amor é a arte de produzir algo com as capacidades do outro. Isto requer atenção e afeição do outro. Isto sempre se pode obter. O desejo exagerado de ser amado tem pouco a ver com amor genuíno. O amor a si tem sempre algo suicida”

Conto vencedor lido por Walter Macedo para o encontro de 03/10/2017


Retirado de Histórias do Sr. Keuner, Editora 34