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A Casa Tomada, por Julio Cortázar

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Lembro-me bem da divisão da casa. A sala de jantar, uma peça com gobelinos, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá frente para Rodríguez Peña. Só um corredor, com sua maciça porta de carvalho, separava essa parte da ala dianteira, onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos de dormir e o living central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um saguão com azulejos de majólica, e a porta-persiana dava para o living. De maneira que se entrava pelo saguão, abria-se a porta-persiana e já se chegava ao living; tinha-se, dos lados, as portas dos nossos quartos e, à frente, o corredor que levava à parte mais afastada; seguindo pelo corredor, chegava-se à porta de carvalho e mais adiante se iniciava o outro lado da casa, ou então se podia virar à esquerda, justamente antes da porta, e seguir por um corredor mais estreito, que levava à cozinha e ao banheiro.
[...]
Recordarei sempre, com nitidez, porque foi simples e …

A Triesfera, de Guilherme Preger

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Quando recebi o bip do novum informando que a Tirania havia sido eleita, pensei: é preciso fugir. Mas não havia para onde. Logo depois do novum, recebi dois outros bips em sequência. Eram do contato afetivo. Eles vieram na cor vermelha, de urgência. As mensagens estavam escritas em nosso código de enlace. Tive que usar o decriptador secreto. Ele estava escondido num arquivo opaco de meu dispositivo virtual. A primeira mensagem, em código hexadecimal (1578ACB745), quando traduzida dizia: “Eureka”. A segunda dizia apenas um código numérico, que não entendi. Em seguida, mais um bip, que dizia: “SOS”. E então achei que deveria visitá-lo imediatamente. Foi isso que me fez pegar o trem de superfluidos e, em duas horas, após a imersão ctônica, sair precisamente em frente a sua porta. Que estava trancada. Apertei o bip de chegada e enviei várias mensagens. Mas não tive resposta. Foi quando me dei conta que o código numérico enviado era a chave da porta, o que se mostrou verdadeiro. A porta ab…

A MENSAGEM, por Guilherme Preger

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Parece que estou preso nessa gaiola que é uma caixa. Digo que parece, pois me disseram que estou livre e posso ir para onde quiser. E na verdade há passagens. Mas quando as atravesso é como se saísse de uma caixa e entrasse em outra. Há sempre paredes que são anteparos e há nesses anteparos belas projeções que observo com contento. Creio que são os programadores que fazem as projeções. Essas projeções também são chamadas de diagramas. Há janelas, muitas, que são como furos ou brechas. E as paisagens após as janelas são também bonitas e luminescentes. E há pequenos orifícios onde estão inseridos dispositivos. Nesses dispositivos chegam mensagens para mim. As mensagens me divertem. Também posso escrever mensagens com os dispositivos. Eles possuem interfaces apropriadas para a escrita. Disseram que posso escrever qualquer coisa nas mensagens e que há uma chance das mensagens serem recebidas por alguém (essas mensagens que recebo dos programadores chamam-se protocolos). Quanto mai…

O conto da Aia, por Margaret Atwood

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Fico sentada em meu quarto, junto da janela, esperando. Em meu colo há um punhado de estrelas amassadas. Esta poderia ser a última vez que tenho de esperar. Mas não sei o que estou esperando. O que você está esperando?, costumavam dizer. Isso significava apresse-se. Não se esperava nenhuma resposta. Pelo que você está esperando é uma pergunta diferente, e não tenho resposta para ela tampouco. Entretanto não é esperar, exatamente. É mais como um forma de suspensão. Sem suspense. Finalmente não há tempo. Estou em desgraça, o que é o oposto da graça. Deveria me sentir pior quanto a isso. Mas sinto-me serena, em paz, impregnada de indiferença. Não deixe que os bastardos esmaguem você. Repito isso para mim mesma, mas não me transmite nada. Seria a mesma coisa que você dizer: Que não haja ar; ou: Não seja. Suponho que você poderia dizer isso.
Não há ninguém no jardim.             Gostaria de saber se vai chover.
Lá fora, a luz está pouco a pouco se apagando. Já está avermelhada. Logo estará escuro.…

Cinematógrafo e os cortes naturais (uma montagem ultra soviética), por Fernando Andrade

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É uma experiência tocar os dois seios, e quando os toco vejo que é uma experiência só minha. Que logo mais abaixo existe um buraco que não deve ser ocupado por mãos vazias e nem por músculos, talvez um tímido de óculos que ainda vejo na abertura, uma significação para entrada e saída sem alternância de fatores. E na imagem do cinematógrafo, os cortes naturais, onde uma ocupação que venha junto com uma montagem ultra - soviética. (Ela por baixo) Assim minha tia me ensinou a manejar os pais. A usá-los a meu bem querer. A ludibriá-los feito o diabo para que não me cancelem numa cancela ou no porão musical, onde toca a rádio FM (feminino | masculino) mais intolerável para uma menina cult. A palavra em si já é um palavrão, um espaço privativo de liberdade e de sexualidade, embora sirva bem à masturbação genital. Me deram um pinto mas não o uso. Me deram uma flor mas não a digo em público. Talvez numa junção de palavras me exercite pintando flores, sem tinta por favor! Pintar do verbo coloqui…

MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO -- PRÓLOGO, de Flávio Tavares

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Primeiras visões Os beijos que te dou tu não sabes de onde vêm. São teus, do teu corpo e da tua alma, do mais profundo de ti, sim, mas vêm daquele meu ego morto que só contigo renasceu. Pouco me ri e muito mais sofri neste tempo todo. São 30 anos que esperei para escrever e contar. Lutei com a necessidade de dizer e a absoluta impossibilidade de escrever. A cada dia, adiei o que iria escrever ontem. A ideia vinha à memória, mas, logo, logo, se esvaía naquele cansaço imenso que me fazia deixar tudo para amanhã e jamais recomeçar. Tornei-me um esquizofrênico da memória ou de mim mesmo: o que queria e desejava agora me impacientava em seguida e me cansava e aborrecia logo adiante. Tendo tudo para contar, sempre quis esquecer. Por que lembrar o major torturador, os interrogatórios dias e noites adentro? Por que trazer de volta aquele sabor metálico do choque elétrico na gengiva, que me ficou na boca meses a fio? Por que lembrar a prisão em Brasília ou no Rio de Janeiro ou nos quartéis de Ju…

O Espeleólogo, por Paula Giannini

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Quando crescesse queria ser espeleólogo, como o avô, um rapaz de apenas 38 anos. Jovem demais para ser avô. Velho demais para ser considerado um jovem. Sempre suado, visivelmente exausto, mas disposto a contar seu dia ao neto, com um estudado sorriso e pormenores dignos da mais emocionante aventura. Assim havia sido a sua jornada de trabalho, escavara em busca de tesouros e embrenhara-se em obscuras cavernas. Sempre iluminando os buracos com a inseparável lanterninha de cabeça, igual à que dera ao menino quando este completara dez anos. - Agora você já é quase um homem. E descansava sua carrocinha de espeleologista na porta da pequena casa. Para o avô um lugar provisório, de onde assim que a vida permitisse, tiraria sua família. Para o garoto, um castelo, com seu portal adornado com imagens aladas e figuras de longas orelhas esculpidas em pedra. Coisa para gente muito rica. Coisa para os heróis. E o avô-herói retirava maravilhas do carrinho. Latinhas, anéis, medalhas com fotos d…