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O Haiti Aqui, por Guilherme Preger

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Quando chegou de ônibus a Brasília ele se lembrou daquela canção que o Djavan cantava. O céu azul e o laço do infinito sobre o traço do arquiteto.
Djavan, cantor preto. Ele gostava dele desde que chegou ao Brasil. Mas diziam que ele apoiava o Coiso. Eu prefiro acreditar que não, pensou. Djavan está sendo ambíguo. É uma tática que nós homens pretos usamos para nos defender. E mesmo seu pensamento soava com certo sotaque.
Por que ele tinha vindo ao Brasil? Sim, havia nisso uma fantasia. Os hatianos imaginavam o Brasil como uma terra da alegria. Torciam para a seleção brasileira em copas do mundo.
Quando chegou ao Brasil a primeira coisa que fez, ainda no aeroporto, foi comprar uma camisa oficial da seleção brasileira. Queria sair na rua a utilizando. Mas logo viu que isso seria impossível. Reparou imediatamente no mal estar que causava. Estão tendo preconceitos porque um homem preto está usando a camisa brasileira, a “amarelinha”? Como isso era possível no país de Pelé? No iníci…

O óbvio Ululante, por Nelson Rodrigues

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Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me: ‘O
que é que você leu?’. Respondi: ‘Dostoiévski’. Ele queria me atirar na
cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: ‘Que mais?’. E eu:
‘Dostoiévski’. Teimou: ‘Só?’. Repeti: ‘Dostoiévski’. O sujeito,
aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o
que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoiévski.
Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema não sei de quem. O
mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um
tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante,
mais novo, mais abismal do que a releitura. (Divaguei demais e
desculpem). De Dostoievski passo à minha infância. Há bastante de
Dostoievski, bastante de Dickens, na rua Alegre, em Aldeia Campista.
Não será a pura semelhança episódica. Não. É uma semelhança, digamos
assim, de atmosfera. Sinto que parte da minha infância está inserida,
difusa, volatizada, em certas páginas ou de Dickens ou Dost…

No Tempo das catástrofes, por Isabelle Stengers

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A alegria, escreveu Espinosa, é o que traduz um aumento da potência de agir, ou seja, também de pensar e de imaginar, e ela tem algo a ver com um saber, mas um saber que não é de ordem teórica, pois não designa a princípio um objeto, mas o próprio modo de existência daquele que se torna capaz de sentir alegria. A alegria, poderíamos dizer, é a assinatura do acontecimento por excelência, a produção-descoberta de um novo grau de liberdade, conferindo à vida uma dimensão complementar, modificando assim as relações entre as dimensões já habitadas. Alegria do primeiro passo, mesmo inquieto. E a alegria, por outro lado, tem uma potência epidêmica. É o que mostram tantos anônimos que, como eu, sentiram essa alegria em maio de 1968, antes de os responsáveis, porta-vozes de imperativos abstratos, se apoderarem do acontecimento. A alegria é transmitida de alguém que sabe a alguém que é ignorante, mas de um modo em si mesmo ´produtor da igualdade, alegria de pensar e de imaginar juntos, com os o…

Aula Online

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novamente. Glúteos bem apontados para a direção do teto. Pernas esticadas. Relaxem nessa posição. Pensem no que vocês desejam alcançar de positivo. Não fechem os olhos, se mantenham acesos. 
Agora pé direito novamente para frente. Ele deve ficar apontado frontalmente. Perna esquerda para trás com o pé levemente torcido. Agora flexionem o joelho direito num ângulo de 90 graus. Braços para cima, corpo empinado. Posição do Guerreiro um. Agora abram os braços bem esticados. Os olhos devem mirar o indicador da mão esquerda. Da mão esquerda não, da mão direita. Guerreiro dois. Estiquem bem a perna esquerda. Voltem agora o corpo frontalmente para a direita para a posição de Guerreiro 1. Agora coloquem ambas as mãos no chão e joguem a perna direita para trás em paralelo com a perna esquerda. Posição da prancha. Retenham o corpo imóvel por 30 segundos. Cuidado com a região dorsal. Não encurvem a coluna. Pensem em algo positivo para vocês atingirem. Agora relaxem na posição do Cachorro. Glúteos …

Curriculum Vitae, por Felipe Souza

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Felipe Souza - Curriculum VItae
- O que as pessoas que se reportam diretamente a você diriam sobre você?- Provavelmente nada muito bom. Sou um sujeito muito inseguro. Fico realmente bem desconfortável quando as pessoas se aproximam pra falar comigo, ainda mais quando eu nunca vi aquela pessoa na vida, ainda mais quando são aquelas malditas pessoas cheias de segurança e que falam comigo me olhando fixamente nos olhos, parecendo que querem estabelecer algum tipo de contato diretamente com minha alma. Isso realmente me desconcerta! Não sei onde enfiar as mãos, onde enfiar a cara, como disfarçar a ridícula mancha rosada que começa a se formar em cada bochecha, a represa que começa a transbordar de cada poro de minhas mãos e axilas. Está vendo, senhora, nem agora estou conseguindo. Ainda bem que você às vezes para de olhar pra mim e começa a anotar coisas aí em seu caderninho, senão esta entrevista seria bem difícil, realmente bastante insuportável pra mim.
Mote lido por José Petrola, para o…

Uma luta, por Ana Claudia Calomeni

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A luta humana, se resumida, não passa da luta do ser contra ele mesmo. As forças negativas, nestes tempos mais acirradas, empurram as positivas pro meio da escuridão. O ser mais racional vai me chamar de maniqueísta, vai dizer que simplifico as coisas. E eu vou ter que concordar. Sim, eu simplifico as coisas. E, sim, é uma construção maniqueísta de mundo. Quem não está sujeito a maniqueísmos que atire a primeira pedra. Quem nunca dividiu seus dias em bons e ruins? Como foi o seu dia hoje? Péssimo, respondo, é a minha rápida análise sobre um dia de extensas 24 horas em que mil coisas acontecem (talvez eu deva me exercitar pras sutilezas). Quem nunca sentiu vir lá do fundo da alma aquela pontada diante de um desejo prestes a se realizar e uma voz: isso não vai dar certo. É disso que falo. Há sempre um outro em mim que torce contra, que puxa tapete. Reconhecêlo é fundament…

Confinados, por Guilherme Preger

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Confinados

    Pá-pá-pá-pá-pá-pá-pá.    Contei sete estocadas e logo depois veio o grunhido e a prostração. Tão previsível. Nem senti a bolsa de látex no interior de minha vagina se encher de esperma. Seria tão bom que fosse como antigamente, sem caminsinha, e sentir o líquido quente se espalhar no meu interior. Será que depois da pandemia todos se beijariam apenas com máscaras de látex, assim como se transa? Acho pior beijar de látex do que trepar de camisinha.     Então eu tinha cumprido o desejo. No caso, o dele. Eu mesmo havia contado a ele que na noite anterior tinha ouvido o casal de vizinhos abaixo trepando enquanto ele roncava ao meu lado. Como você sabe que estavam trepando, ele se mostrou imediatamente curioso. Pelas estocadas e pelos gemidos, respondi. Poxa, você nem me acordou: ele ficou chateado. Eu queria ouvir a foda também, disse então, fazendo aquele gesto obsceno com as mãos, uma socando a outra, como um murro, uma "paulada". E me perguntou: você se masturbo…