segunda-feira, 27 de março de 2017

Sapiens, deYuval Noah Harari

Lendas, mitos, deuses e religiões apareceram pela primeira vez com a Revolução Cognitiva. Antes disso, muitas espécies animais e humanas foram capazes de dizer: “Cuidado! Um leão!”. Graças à Revolução Cognitiva, o Homo Sapiens adquiriu a capacidade de dizer: “O leão é o espírito guardião da nossa tribo”. Essa capacidade de falar sobre ficções é a característica mais singular da linguagem dos sapiens.

É relativamente fácil concordar que só o Homo Sapiens pode falar sobre coisas que não existem de fato e acreditar em meia dúzia de coisas impossíveis antes do café da manhã. Você nunca convencerá um macaco a lhe dar uma banana prometendo a ele bananas ilimitadas após a morte no céu dos macacos. Mas isso é tão importante? Afinal, a ficção pode ser perigosamente enganosa ou confusa. As pessoas que vão à floresta à procura de fadas e unicórnios parecem ter uma chance menor de sobrevivência do que as que vão à procura de cogumelos e cervos. E, se você passa horas rezando para espíritos guardiães inexistentes, não está perdendo um tempo precioso, tempo que seria mais bem utilizado procurando comida, guerreando e copulando?

Mas a ficção nos permitiu não só imaginar coisas como também fazer isso coletivamente. Podemos tecer mitos partilhados tais como a histórica bíblica da criação, os mitos do Tempo do Sonho dos aborínes australianos e os mitos nacionalistas dos Estados modernos. Tais mitos dão aos sapiens a capacidade sem precedentes de cooperar de modo versátil em grande número. Formigas e abelhas também podem trabalhar juntas em grande número, mas elas o fazem de maneira um tanto rígida e apenas com parentes próximos. Lobos e chipanzés operam de forma muito mais versátil do que formigas, mas só o fazem com um pequeno número de outros indivíduos que eles conhecem intimamente. Os sapiens podem cooperar de maneiras extremamente flexíveis com um número incontável de estranhos. É por isso que os sapiens governam o mundo, ao passo que as formigas comem nossos restos e os chipanzés estão trancados em zoológicos e laboratórios de pesquisa.

Mote lido por Guilherme Preger para o encontro do dia 04 de abril de 2017




sábado, 25 de março de 2017

Claus, por Gabriel Cerqueira



– Viajo a outro planeta quando me sinto enclausurado – disse João, um cara de 21 anos, a Paulo, seu psicólogo.
– Interessante. E ele se parece com a Terra?
– Em algumas coisas, sim. Outras, não. Vou te contar como é - João se ajeitou na poltrona e continuou:
– Os habitantes são parecidos conosco, talvez até sejam humanos, e há cidades, áreas rurais... Numa das cidades há uma calçada da fama parecida com a de Hollywood, só que lá as estrelas são de verdade. Da última vez em que a visitei ela estava interditada porque duas estrelas se tornaram supernovas e a mais antiga virou um buraco negro. Tinha gente que tirava fotos de longe, mesmo correndo o risco de se queimarem ou serem sugadas. Mas valia a pena, era bonito.
– O que mais há lá? – perguntou Paulo enquanto fazia suas anotações.
– Há um reality show em que os participantes precisam levar um anel até um vulcão e jogá-lo na lava enquanto outro time precisa impedi-los. Não parece ser uma produção original.
– Não mesmo. Devem ter comprado os direitos de exibição de um programa neozelandês.
– Nas festas de fim de ano todo mundo fica com a cabeça nas nuvens porque as nuvens descem do céu para comprarem presentes.
– E você conhece alguém desse planeta?
– Eu tenho um amigo chamado Claus. Ele tem a mesma idade que eu e é míope; 4,5 graus de ignorância bondosa em cada olho, o que faz com ele tenha dificuldade para enxergar segundas intenções, pretensões maldosas, esse tipo de coisa. Ele mora em uma casa torta (o que deixa o vizinho preocupado…) com jardim de rosas verdes com caules vermelhos. Ele tem um peixe dourado.
– Qual é o nome do peixe?
– Senhor, Desculpe-me, Mas Eu Esqueci o Seu Nome.
– Meu nome é Paulo.
– Esse é o nome.
– O peixe também se chama Paulo?
– Não, o nome dele é Senhor, Desculpe-me, Mas Eu Esqueci o Seu Nome. Assim o Claus nunca esquece o nome do peixe.
– Ah… Entendi.
– O coitado está passando por uma crise de identidade. Ele assistiu a um programa de culinária japonesa e está apavorado, pois pensava que a vida dos peixes terminava na panela, mas viu que não é bem assim.
– É um perigo. Gosta de comida japonesa?
– Sim, mas me tornei vegetariano em solidariedade ao Senhor, Desculpe-me, Mas Eu Esqueci o Seu Nome.
– É Paulo.
– Falei do peixe – João limpou a garganta, continuando – Claus também gosta de gatos, mas não dos de cara achatada. Ele costuma deixar salmão em um pratinho na porta de entrada.
– E o que o Senhor, Desculpe-me, Mas Eu Esqueci o Seu Nome acha disso?
– Meu nome é João.
– O peixe...
– Ah, ele não sabe. Se descobrir ele infarta.
– Seria um problemão.
– E como! O Claus gosta de bengalas e guarda-chuvas. Sabia que todo guarda-chuva nasce como um guarda-chuvinha para drinks? E as bengalas nascem como palitos de pirulito?
– Tinha minhas suspeitas.
– Da frente da casa do Claus dá para ver o Monte Fuji. É uma tradição matinal pedir a ele que não fuja.
– Essa foi horrível!
– Bastante. Ah, a Paranoia gosta do Claus desde o jardim de infância.
– Quem é ela?
– Uma garota muito bonita. Só que ele vive fugindo dela. Disse que sente coisas estranhas quando ela se aproxima, como angústia, sensação de que algo vai dar errado, enjoo, ansiedade.
– A Paranoia gosta de você também? Como amigo, é claro.
– Isso é você quem tem que me dizer, Paulo.



(Conto lido no encontro de 21/03/2017) 

Gabriel Cerqueira não faz a menor ideia de quem ele é.


segunda-feira, 13 de março de 2017

O Pucaro Búlgaro, de Campos de Carvalhos

Mote: Trecho de “O púlcaro búlgaro” de Campos de Carvalho


13 de novembro
Fui ao psicanalista e ele me fez deitar num divã, sem o paletó, a gravata e os sapatos.
- Está se sentindo confortável?
- Muito. E o senhor?
- Desaperte o cinto.
- Quer dizer que já subimos?
- Limite-se a responder. Feche os olhos, procure concentrar-se. Fazia um calor dos diabos, e de repente me veio uma vontade louca de urinar.
- Já pensou alguma vez em matar seu pai?
- Muitas. Mas, se o sr. me permite, eu gostaria de urinar.
- Tem irmãos ou irmãs?
- Que eu saiba, não. Assim de momento é meio difícil...
- Gatos? Cachorros?
- Se o sr. não me deixar ir urinar, não respondo, nem respondo pelas consequências. E depois que eu voltei do banheiro:
- Quantos dedos o sr. tem nas mãos? Não, não pode abrir os olhos.
- Dez, até chegar aqui pelo menos.
- Responda depressa: se ponho vinte e duas melancias nas suas mãos e depois tiro cinco e acrescento três, com quantos dedos o senhor fica?
- Vinte. Contando os dos pés, naturalmente.
- Em que ano estamos?
- Mil novecentos e sessenta e três.
- Século?
- Vinte.
- Antes de Cristo ou depois de Cristo?
- Que Cristo?
- Não faça perguntas, já disse. O mar é vermelho ou é amarelo?
- Depende. No mapa lá de casa, tanto o mar Vermelho quanto o Amarelo são azuis. Da minha janela às vezes ele é cor de abóbora.
- Qual o oceano que dá para a sua janela?
- O Atlântico, isto é pacífico.
- O Atlântico ou o Pacífico?
- Assim o sr. me confunde. Nem eu vim aqui para me submeter a prova de geografia. O homem foi até a janela e cerrou calmamente as cortinas.
- Agora vai dizer em voz alta, e sem pensar, tudo que lhe vier à cabeça. Relaxe-se o mais possível e nada de escrúpulo.
- Escrúpulo. Cabeça. O oceano é azul. Que calor está fazendo. A morte de Danton. As metamorfoses de Ovídio. O senhor é uma besta. Com quantos paus se faz uma canoa? Vinte e um, vinte e dois, vinte e três, vinte e quatro. As laranjas da Califórnia são deliciosas. Umbigo. Rapadura. Otorrinolaringologista. É a tua, mulher nua, vou pra Lua, jumento, pára-vento, dez por cento, Catão, catatau, catapulta que o pariu, catástrofe, caralho, os medos, os vegas, as vegaminas, as sulfas e as para-sulfas, diametilaminatetrassulfonatosótico, porra de merda, argentino, argentário, argentículo, testículo, laparotomia, BorisKarloff, Irmãos Karamazov, Irmãos Marx, Marx, Engels, Lenin, Lenita, onomatopéia, onomatopaico, onanista, ovos de Páscoa, jerimum, malacacheta, salsaparilha, Rzhwpstkj, Celeste Império, semicúpio, Salazar, sai azar, seis e vinte da manhã, Dadá, Dedé, Dodô, Dudu, holofote, oliveira, olá Olavo, Alá, ali, alô sua besta já não basta?...
- Basta.
O sábio agora me olhava atentamente, o lápis suspenso no ar, o bloco de papel com rascunhos sobre o joelho. Sua máscara traia uma grande
inquietação, como se temesse alguma coisa ou já começasse a pôr em dúvida a minha sanidade. Até que, simulando uma calma absoluta, arriscou com o armais natural deste mundo:

- O senhor já foi à Bulgária?

(Mote lido por José Fontenelle para o encontro de 21/03)


domingo, 12 de março de 2017

Pai, de Renato Dias

Pai
Todo mundo tem pai. Ninguém escolhe o pai que tem, mas todo mundo que nasce ganha um pai. Até aqueles que não vieram devido à gestação interrompida, até mesmo aqueles que morreram pouco após o parto, todos eles também têm um pai.
Os pais, de maneira demelhante, não escolhem os filhos que têm. Por outro lado, cada pai tem a vantagem considerável de poder escolher tê-los ou não tê-los, quando quiser, se é que quererá. “Filhos... filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos, como sabê-lo?” Sim, de fato há pais que se tornam pais por acidente, o que torna relativa essa dita escolha de ser pai. É verdade. Mas vamos pôr de lado essas complicações, o importante a ser dito é que no fim das contas ninguém escolhe muita coisa. Todos sabemos disso. E os filhos, em particular, não escolhem os pais que têm. Especialmente os filhos, principalmente quando crianças, esses sim, não escolhem nada mesmo.
Alguns dizem que as escolhas são feitas por Deus mas, como bem observa Saramago, isso não diz muito. Deus não tem o costume de falar conosco nem de nos deixar a par do que pensa, de modo que dizer que a escolha é dele é exatamente o mesmo que não dizer coisíssima nenhuma.
Mas de volta aos fatos. O fato é que temos um pai e queremos saber quem ele é. Em particular, temos grande interesse em saber em que ele trabalha, esse pai. Veja o caso exemplar da menina do conto de Eduardo Villela. Sabemos que, na verdade, essa menina é ele, Eduardo Villela, que também quer saber o que faz o próprio pai. Sabemos que, na verdade, a menina do conto de Eduardo Villela somos todos nós, todos queremos saber o que faz papai.
Há pessoas que não conheceram os próprios pais. Ou porque estes morreram cedo, ou porque estes os bandonaram antes mesmo de vê-los nascer. Mas é fato que a presença do pai ronda por aí. Até entre os que nem o conheceram. No caso destes, podem apenas imaginar ou ouvir o que se fala sobre ele.
A título de curiosidade, há o caso excepcional de Jesus Cristo. Este pensava ser filho de José, que trabalhava como carpinteiro. Foi um engano que, por sorte, veio a ser mais ou menos esclarecido. Acabou que Jesus era filho de três: Pai, Filho e Espirito Santo. Na verdade, não exatamente três. Eram três que eram de fato apenas um, mas para entrar nos meandros seria preciso um conto mais longo, certamente maior que duas páginas.
Voltemos então a nossa realidade. Se formos acreditar no que dizem muitos por aí, somos nós, todos nós, homens e mulheres e demais gêneros, todos filhos de Deus. Essa figura Deus é o Supremo Pai de todos os seres. Percebam o problema que temos nas mãos. O desejo primário de descobrir em que trabalha essa arquetípica figura. Somos todos filhos de Deus. Logo d’Ele. Aquele que não sabemos bem se nos abandonou ou não, aquele que não sabemos bem se morreu ou não. O que sabemos com certeza é que esse Pai Nosso não é de falar muito. É um típico pai. E nós, pobres crianças.


"Renato Dias é um imigrante recifense no Rio de Janeiro. Formado em engenharia de computação por acidente, optou pela carreira acadêmica em matemática na busca de uma saída rentável para o encontro com coisas belas. Tem como projeto para a terceira idade tornar-se oficialmente escritor, após várias décadas de escrita clandestina."

Conto escrito para o encontro do dia 07/03/2017 para o mote da Profissão de Papai, de Eduardo Villela


quarta-feira, 8 de março de 2017

A Velha, por Claudio PS

A Velha

Na mesa respingada de vinho barato ela escrevia suas memórias antes de morrer. Por que todo mundo vai morrer um dia, ela dizia. Quem sabe assim ela exorcizava seus demônios?
Ela se casou uma vez, o marido não era mau ou ausente, mas no sentido “bíblico” pouco presente. Dizia ter necessidade. Mais do que simplesmente vontade. Transar, trepar, foder, fazer sexo. Escolha o termo que lhe seja mais agradável.
Dizia que quando lhe doíam as pontas dos dedos sabia estar grávida. E abortava. E abortou dezenas de vezes. Não havia anticoncepcional. Ele surgiu nos anos sessenta. As clínicas tratavam muito bem. Eu suponho.
E a necessidade fez com que trepasse mais de quinhentas vezes, e abortasse umas dez.
Condenem-me, ela dizia, se puderem largar as pedras de suas mãos. Não sejam hipócritas. Reconheçam que foram iguais ou piores do que os adolescentes de American Pie. Ou gostariam de ter sido. Não, não exagere, você vai dizer. Aquilo é filme. Mas, bem, ninguém é santo.
Voltando às memórias lembrou que transou ou trepou ou fez sexo umas setecentas vezes. Mas você disse quinhentas. Desculpe, ela corrigiu e não me lembrei de corrigir antes. Talvez para mostrar que às vezes esquecemos que somos humanos.
Por que a memória trai. Nos faz lembrar mais do que queríamos esquecer, do que gostaríamos de lembrar.
Para lembrar de coisas boas usávamos diários. Descarregar as lembranças que incomodam.
Muito antes de começar a escrever suas memórias, ela contava seu passado. Minha mãe na cozinha, e eu e ela nas poltronas da sala. Suas desavenças. Amores e desilusões. De como achou engraçado dois cães machos fazendo sexo oral um no outro numa chácara em Petrópolis. Meu irmão ficou horrorizado. Afinal, eram as crianças ouvindo barbaridades de uma velha.
“Sexo faz parte da vida, e muitos humanos são parecidos com os cães”, dizia ela. Eu devia ter uns onze, doze anos. Sou mais velho que meu irmão dois anos. Ele não sabia dessas coisas. Eu já sabia.
Houve dias que ela era muito chata. Repetia histórias. Reclamava da vida. Da vizinha também velha e fofoqueira. “Mas esta que não para de falar também é fofoqueira...”, eu pensava.
Muitos anos atrás ela me deixou o manuscrito. Num caderno de capa dura.
Na dedicatória ela dizia: “Me casei, me separei, tive uma filha, cuido de um neto. Nunca abandone sua mãe, por mais despudorada ou louca ela seja”.
Como a minha família não tinha contato com familiares dela, eu não soube quando ela morreu.
Em uma das mudanças que fiz perdi o manuscrito. Fiquei triste, mas, paciência. As pessoas são como são. Qualidades e defeitos. Vicissitudes e hábitos, alguns saudáveis, outros doentios. Alguém pode ter se apoderado dele, também. Duas perdas.
Um dia sonhei ter morrido.
Na recepção uma moça vestida de vermelho, com olhos estranhamente brilhantes me avisava: “A velha está aqui há um tempão te esperando. Mas passe na triagem primeiro.”
Claudio PS
(Conto escrito para o encontro do dia 07/02/2017)

Acreditou que sabia escrever bem depois de tirar 10 em redação aos 14 anos. Deu no que deu. Informata, enxadrista e pessoa que escreve.




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Diálogo, por Guilherme Preger

Diálogo

(cena com dois interlocutores: D e E durante o bloco Escravos da Mauá no domingo antes do carnaval).

D- O que você quer dizer com “Feijoada é de esquerda”? Eu adoro feijoada, quer dizer que eu sou de esquerda?
E- Depende da maneira como você come, não da feijoada. Esquerda e direita são posições, não são essências.
D- Explica melhor isso, eu detesto esse pedantismo da “esquerda filosófica” que acha que todo mundo de direita é imbecil. 
E- Bem, eu acho que quem luta para ter menos direitos só pode ser imbecil. Mas deixa isso para lá,  pois nosso assunto é a feijoada. A feijoada, como coisa-em-si, não é de esquerda. É verdade que era comida de escravos, era a alimentação básica dos negros escravizados: feijão preto, farinha de mandioca, laranjas e bananas, além de carnes secas e toucinhos...
D- Só o fato de ser comida de escravos faz ser de esquerda a feijoada? Não havia escravos de direita? Não havia negros que venderam outros negros aos brancos? Esses também eram de esquerda? Eu nunca acreditei na superioridade moral do pessoal de esquerda. Foi a esquerda que criou os gulags, os paredões e a corrupção…
E- Desculpa, companheiro, mas você me cortou. Eu ia dizendo que a feijoada por si só não é de esquerda, mas que depende da maneira como você a come...
D- Não sou seu companheiro. Não sou gulaguista, dilmista, petralha nem corrupto...
E- Corrupção, meu amigo, é de direita...
D- Ah, assim é fácil. Se corrupção é de direita, eu sou de esquerda.
E- Com certeza. Porque corrupção é privatização do público “às escuras”.
D- Não entendi. O que tem isso a ver com os conceitos de direita e esquerda?
E- Esquerda e direita são conceitos surgidos antes da Revolução Francesa. Havia aqueles que sentavam à direita do soberano e gozavam do “Privatum Legis”, ou privilégio, que era um regime legal diferenciado para nobres e para o clero. E havia o resto que gozava do regime geral. Era a esquerda. Assim, a luta da esquerda é a luta contra os privilégios. Mais tarde, essa passou a ser a luta pela democracia...
D- Ah, está bom. Cuba é a maior democracia do mundo...
E- E não é? Cuba tem a “batalha das ideias”, como dizia Fidel. Tudo é discutido lá. Você entra numa birosca e todo mundo está discutindo política.
D- E a família Castro continua no poder...
E- Por que o Povo quer. A revolução era do Povo, não era de Fidel.
D- Podia ter eleições ao menos para a gente saber...
E- E tem. Tem vários níveis de eleição. As eleições em Cuba para as Assembleias populares têm um dos maiores índices de comparecimento de todo o mundo ocidental.
D- Assim, a gente não chega a lugar algum. Vamos voltar para a feijoada. Por que a feijoada é de esquerda? Hoje eu comi feijoada e não estou me sentindo nadinha de esquerda.
E- Me diga, amigo, quando você comeu feijoada você sentiu o quê?
D- Cara, eu senti um prazer doido porque a feijoada estava ótima. O feijão, o paio, a couve, a laranjinha. E ainda tinha uma batida de limão para uma rebarba.
E- E nesse prazer todo que você sentiu, isso te fez pensar que é um prazer que te faz igual aos outros ou melhor do que os outros?
D- Nem melhor nem igual. Diferente.
E- Hummm. Quero saber se esse sentimento de diferente, se ele foi uma forma de distinção. Se o prazer que você sentiu te faz apartar da comunidade, te deixar numa posição privilegiada, pois afinal era você que estava provando uma delícia e não outro...
D- Não é bem assim. Era um prazer que eu mereço. Eu achei que merecia sentir aquele prazer porque paguei a feijoada com meu dinheiro, dinheiro de meu trabalho.
E- Hummm, você trabalha? Então isso já é um caminho para ser de esquerda. Mas me diz então, você acha que outras pessoas não mereciam sentir o mesmo que você?
D- Eu não disse isso. Todo mundo merece sentir o prazer de comer uma boa feijoada. Basta ter dinheiro para comprar.
E- E se não tiver dinheiro?
D- Ué, então ajam como os antigos escravos: façam sua própria feijoada.
E- É um bom caminho. Mas e se não tiverem dinheiro nem para isso, para comprar os ingredientes? E se nem puderem plantar ou criar animais, porque os desalojaram das terras que hoje estão nas mãos dos latifundiários?  
D- Aí não tem jeito. Não tem almoço grátis.
E- É isso que estou dizendo. Se você come uma feijoada gostosa e chega à conclusão que todo mundo deveria comer feijoada se assim desejasse, então você é de esquerda. Se você come feijoada e se acha privilegiado, você é de direita.
D- Cara, não existe a possibilidade de todo mundo comer feijoada. Isso sim é burrice.
E- Eu sei que não tem, mas esse não é o ponto. Nem todo mundo precisa comer feijoada ao mesmo tempo. Há muita coisa boa para se comer. A questão é como fazer que todo mundo tenha acesso a coisas boas, que elas não sejam apenas privilégios de poucas. E é sempre possível compartilhar, para dividir melhor as coisas boas que existem.
D- Eu ainda acho que o dinheiro é a melhor maneira de dividir as coisas...
E- Pois é, podiam fazer mais dinheiro para todo mundo né? Para muita gente está faltando grana...
D- Mas aí ia ser uma inflação monumental...
E- Cqd- como queríamos demonstrar. Não tem terra para todo mundo, não tem feijoada, nem dinheiro. Se você está contente com essa situação, você é de direita. Se você quer mudar essa situação, você é de esquerda. Não depende do que você é, mas do que você faz, daquilo pelo que você luta, se é que luta...
D- Desisto. No momento, não quero lutar por coisa alguma. Estou de barriga cheia da feijoada boa que comi. Quero só curtir o carnaval: aí está vindo a Escravos da Mauá. Você vai me proibir de pular porque sou de direita? Vai me censurar? Vai me colocar no paredão?
E- Claro que não, rapaz. Seja nosso convidado, não só meu, mas de todo esse povo que está aqui na região portuária. Imagine que se para pular atrás do Escravos da Mauá fosse necessário pagar por um abadá, o que seria?
D- Aí não seria o Escravos da Mauá!
E- Isso! Assim como feijoada não é cassoulet. Aí vem o bloco!

la lalaiá lalaiá, lalaiá lalai, laiá

 (Conto vencedor de 2o lugar, baseado no mote Feijoada)

Guilherme Preger é escritor da esquerda filosófica, festiva e violenta







quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O Duelo, por Camilla Agostini

O duelo

Era daquelas cozinhas grandes de fazenda antiga, nunca esqueço. Tinha umas panelas de ferro penduradas em cima do fogão e uma brasinha sempre queimando. Num armário de canto ficavam guardados uns pratos finos da família, que só usavam na hora do jantar. No meio ficava um mesão de madeira muito pesado, daqueles difíceis de arrastar, com todo tipo de comida que era feita todo dia. Tigela com leite, batata descascada, um monte de farinha, uma galinha degolada, coisas assim.

Eu costumava chegar de mansinho, gostava de espiar a cozinheira grandona mexendo nas panelas, sempre a espreita pelo feijão preto que, requentado, ficava ainda melhor. Espichava o olho sempre para as três coisas mais importantes da cozinha: a panela de feijão, a cozinheira e umas cumbucas empilhadas numa prateleira. Era tudo muito simples: distrair a velha, pegar uma cumbuca e correr com o feijão.

Pensa que era fácil? Ela não parava quieta. Às vezes, fazendo meu plantão de espia do lado de fora, me distraía, roubando uns biscoitos que ficavam esfriando num alambrado, ao lado do forno de barro. Quando ela dava falta dos biscoitos praguejava e eu, ali escondido, ria baixinho.

De uma feita, me lembrei de um truque que havia de espantar a velha da cozinha, pra bem longe da panela. Sem ela ver, coloquei misturado no fumo, que ela pitava num cachimbo, um pouco de pólvora e fiquei ali, de olho vivo, na espia. Não demorou e a vi chegar com um tição de fogo na mão, cachimbo na boca e... buuummmmm! O estouro foi tão alto e a correria tanta que nem ouviram as minhas gargalhadas. Toda suja de carvão e com palpitações do susto, fez chamar toda a gente da casa para acudir. A cozinha ficou um rebuliço só e o feijão ainda mais longe da minha barriga magrela. Mas valeu o susto, foi de rir até faltar o ar.

Numa outra manhã, o feijão já estava curtindo há uns três dias, o que me fazia salivar e saltitar os olhos na direção da panela. Arranjei então um vento daqueles tremendos. Fiz até revirar um redemoinho para distrair a velha, que ficou olhando pela janela. Era a minha deixa. Mas pensa que era fácil enganar aquela velha gorducha? Nada. Eu já estava com a mão na cumbuca e quem quase me pegou no laço foi ela, quando tirou um rosário que ficava pendurado num preguinho na parede da cozinha e jogou no redemoinho para me prender. Foi por pouco. Tive que, rapidinho, dispersar.

Já com o estômago revirado nas costas e os olhos secos, fixos de agonia para aquele panelão, resolvi por uma missão de noitinha, que afastaria aquela lá do santo recinto, ao menos por alguns instantes na manhã seguinte. O resultado da minha, modéstia a parte, excelente ideia, foi ter dado um nó de tripa na crista do burrico do pai Joaquim. O bichano amanheceu que parecia um trelelê doido e pai Joaquim se achegou à porta da cozinha, pedindo uma tesoura grande, para cortar os nós. Mas a danada parecia que tinha uns cinco olhos. Com dois tratava do burrico, com dois ficava espiando tudo em volta, já sabendo que eu estava por perto, e mais um outro deixava bem atento só para a panela do feijão.
Nada feito, e eu já injuriado ouvia roncar meu estômago por causa daquela velha sovina. Agachei quietinho atrás do forno de barro dos biscoitos, que ficava do lado de fora, me contentando em comer aquela maçaroca branca e seca sem gosto de coisa nenhuma. A danada ia e vinha, batia ovos no muque, arrancava tripa de porco e, de uma feita, quase chegou em mim uma panelada de água suja que ela despachou janela à fora. Eu lá, agachadinho, comendo a maçaroca e sonhando com o pretinho do feijão!..
De tanto vai e vem, de repente, notei um silêncio. Fiquei quieto para ouvir melhor. Nada mesmo. Espiei pela fresta da janela. Lá estava ela, parecia que derretia de calor, cochilando numa cadeira.



Quando acordou aquela senhora que, de tantos afazeres, se orgulhava da organização da sua cozinha, estranhou um pedaço de pano vermelho no chão. Com cara de interrogação abaixou os quartos e viu que era uma touca. Chegou-se à porta e com a mão de zanga na cintura viu pelo chão do terreiro as pegadas de um pé só, rumo à capoeira, e, aqui e ali, o feijão que ia se esparramando junto. Voltando para a lida, ela então bufou – Danado de perneta!

Conto vencedor do encontro de 21/02/2017

Camilla Agostini é arqueóloga e professora na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.