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Mostrando postagens de Junho, 2019

Nenhum Olhar, José Luís Peixoto

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Na última noite do verão, como fazia sempre nas últimas noites de cada estação desde os dezoito anos,José foi à casa da prostituta cega. Prostituta, foi uma palavra que um viajante por ali deixou e que as pessoas que moravam na vila aproveitaram para baptizar a prostituta cega. Era uma palavra estranha e difícil, que se enrolava na boca, que os habitantes da vila só utilizavam quando se referiam à prostituta cega, mas era uma palavra muito adequada, porque não era a palavra puta. A prostituta cega não era puta, era uma mulher, triste por ser cega, que fazia favores por não poder fazer mais nada. A mãe dela tinha sido igual a ela, a avó dela tinha sido igual a ela, mas dizia-se que a bisavó tinha sido uma baronesa caprichosa que abandonara a filha entre umas balsas. Abandonara-a por ser menina. E ao vê-la, ainda suja do seu sangue; ao vê-la, desgostosa por não ser o menino que imaginara e a quem fornecera um enxoval completo comprado em Lisboa; ao vê-la, pela primeira vez, disse tem c…

Matilde, por João Mattos

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Agradecendo a Wanderson Alves pela cessão de uma de suas inspiradoras fotos
A casa parece chorar, manchas esverdeadas nos muros, rachaduras nas paredes, um cheiro de mofo por toda a parte. A empregada nova – a cada mês tem uma, impossível guardar o nome de ajudantes tão efêmeras – me conduz até o quarto. Sentada na cadeira de rodas, Matilde cantarola uma canção de sua terra: "Debaixo da oliveira / Não se pode namorar / A folha é miudinha / Deixa passar o luar". Quando me vê – sem me reconhecer absolutamente – pergunta se vou levá-la de volta a Miranda do Douro, onde seus pais a esperam, já não quer ficar presa no castelo da princesa. Olho ao redor, os aposentos da princesa – a princesa que Matilde foi um dia, uma lembrança que se apagou na bruma de sua memória: a romântica cama, com o dossel já meio rasgado e pilastras torneadas que já conheceram dias melhores, as cortinas de seda tisnadas pela maresia, as arandelas de cristal trincadas. Há quase cinco décadas eu costumava entr…

Tragam suas próprias bombas, por Guilherme Preger

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Havia escolhido o bairro de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, porque era um dos poucos onde ainda restavam muitas lan houses. Para o trabalho de LIS, lan house era fundamental. Gostava de uma que se chamava PIRATAS INSANOS, na Av Cesário de Melo. Diziam que a PIRATAS INSANOS pertencia à milícia, o que era um ponto a favor. Se a PF tentasse rastrear o acesso, iriam ter que enfrentar as milícias da região que dominavam todas as lojas de internet, assim como toda a rede de fibra óptica local. Além do mais, LIS gostava de se sentir “dentro da barriga do monstro”, no interior da fortaleza do inimigo, traficando informação. Tráfico, aliás, era uma palavra proibida naquele lugar. Milicianos costumavam “apagar” os traficantes locais bem como os usuários de qualquer droga, com exceção de cachaça, cerveja e rivotril. Foi direto em sua máquina preferida, em que havia colocado um adesivo do System of Down, e que sabia que era a mais potente, com melhor processador. Colocou seus fones de ouvido no vo…

Sonata em Auschwitz, por Luize Valente

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Eram trinta barracões que funcionavam como depósitos de tudo o que vinha nos trens e seria enviado para a Alemanha. Os nazistas puseram fogo neles quando abandonaram o campo, dias antes da libertação soviética. Diz-se que arderam por cinco dias. Uns poucos resistiram. Num deles, os russos encontraram oito toneladas de cabelo humano que seriam enviadas a fabricantes de tecidos, cordas, colchões e o que mais se fabricasse com os fios. As alemãs usavam perucas feitas de cabelos das tranças de adolescentes judias. Tudo que li revira minha mente e meu estômago. Adele viveu ali. Os nazistas explodiram os crematórios, mas o cheiro dos mortos consumiu as entranhas de Adele. Os mortos vivem em seus silêncios.
(Editora Record, 2017). 
(Mote para o encontro de 11/06/2019)