quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Diálogo, por Caio Fernando Abreu

(mote para o encontro de 06/12/2016)


Diálogo

A: Você é meu companheiro.
B: Hein?
A: Você é meu companheiro, eu disse
B: O quê?
A: Eu disse que você é meu companheiro.
B: O que é que você quer dizer com isso?
A: Eu quero dizer que você é meu companheiro, Só isso.
B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.
A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico.
B: Não é disso que estou falando.
A: Você está falando do quê, então?
B: Estou falando disso que você falou agora.
A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.
B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.
A: Você também sente?
B: O quê?
A: Que você é meu companheiro?
B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.
A: Atrás do companheiro?
B: È.
A: Não.
B: Você não sente?
A: Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não?
B: Não. Não é isso. Não é assim.
A: Você não quer que seja isso assim?
B: Não é que eu não queira: é que não é.
A: Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro.
B: Agora não?
A: Agora sim. Você quer?
B: O quê?
A: Ser meu companheiro.
B: Ser teu companheiro?
A: È.
B: Companheiro?
A: Sim.
B: Eu não sei. Por favor não me confunda. No começo era claro. Tem alguma coisa atrás, você não vê?
A: eu vejo. Eu quero.
B: O quê?
A: Que você seja meu companheiro.
B: Hein?
A: Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.
B: O quê?
A: Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.
B: Você disse?
A: Eu disse?
B: Não, não foi assim: eu disse.
A: O quê?
B: Você é meu companheiro.
A: Hein?
(ad infinitum)

(lido por Vinicius Varela)


terça-feira, 29 de novembro de 2016

Colo de Mãe, por Beatriz Moreira Lima

Quando puseram o bebê em seus braços, sentiu um misto de alívio e pânico. Finalmente, aquela criatura tinha saído de dentro dela; aquele alienígena que se instalara, contra a sua vontade, no seu ventre, fora expulso. Foram horas de um sofrimento excruciante, mas valera a pena. Só que agora o ser sanguinolento estava sobre seu peito e a plateia parecia esperar uma demonstração de amor materno. O tal amor incondicional. Não sentiu nada, apenas um pouco de repulsa por causa do sangue que ainda envolvia o recém-nascido. Chorou. Primeiro, timidamente; depois, aos soluços. A enfermeira tirou o bebê de seu colo, com ar de reprovação. Aleluia! Agora precisava planejar a sua fuga. 
Lucienny fugiu de madrugada. Sua mãe dormia em uma cadeira ao lado de sua cama, na enfermaria da maternidade. Nos outros leitos, três mulheres também dormiam, enquanto uma quarta gemia sem parar. Encontrou com facilidade suas roupas na sacola pendurada ao pé da cama. Foi um pouco mais difícil pegar o dinheiro da mãe. A coroa dormia agarrada com a bolsa. Mania de pobre... Por sorte, tinha o sono pesado e, com cuidado, conseguiu abrir um pouco o fecho éclair e enfiar a mão para puxar a carteira. Não havia grandes coisas, como era de se esperar, mas dava pra partida. 
No corredor, apesar da hora, o trânsito era intenso. Assim mesmo, não chamou a atenção de ninguém. Estavam todos muito absortos em seus afazeres e problemas. Na rua, ainda escura, o movimento já era grande. Pessoas, que mais pareciam zumbis, se deslocavam para o trabalho. Era preciso garantir o sustento da família, pensou. Apressou o passo e entrou no primeiro ônibus. Sentou-se no banco atrás do motorista e caiu dormindo. 
Quando acordou, no ponto final, o sol já ardia forte na manhã de dezembro. Demorou um pouco para se localizar no tempo e no espaço. Precisava desvencilhar-se da senhora que a acordara e que parecia pretender acompanhá-la. Estava bem, garantiu-lhe. Ótima! 
Sentiu o cheiro do mar. Estava entre as praias de Copacabana e Ipanema. Caminhou para o Arpoador. Sentia-se leve, quase ausente. Atravessou a faixa de areia e foi molhar os pés na água. Uma onda mais forte molhou seu vestido curto. Percebeu o sangue que escorria por entre suas pernas. Lembrou-se do bebê. Seu filho. Não parecia real. Não era mãe de ninguém. Mãe, era aquela que tinha ficado dormindo ao lado de seu leito no hospital. Imaginou o seu despertar. O desespero ao constatar a ausência da filha. 
De repente, uma fisgada no baixo ventre. O sangue manchava a areia. O sol batia forte na sua cabeça, de onde os pensamentos pareciam escapar, levados pelas ondas. Quando percebeu que estava tonta, que suas pernas fraquejavam, não teve tempo de sentar-se. Apenas caiu. Viu as nuvens no céu azul, sentiu a água do mar no seu corpo, teve saudades de sua mãe. Encolheu-se e abraçou as pernas. Dormiu, na esperança de acordar no seu colo.


Conto vencedor do encontro de 22/11/2016

Beatriz Moreira Lima nasceu em 1970, é funcionária pública, mas sempre gostou de escrever. Teve um filho em 1998, publicou um livro em 2008 (“Tempos Férteis”, editora 7 Letras) e até 2018 pretende plantar uma árvore para completar a sua minibiografia. Enquanto isso, frequenta o Clube da Leitura


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Minha Mãe, por Victor Giudice

"─ Uma vez você me disse que tia Adelaide e você eram duas bobas. Só você é que foi boba. Que é que pensa que ganhou, se trancando num quarto, com os olhos fechados para a vida? Se lembra quando você mandava eu rezar e dizia que rezava a noite inteira? Eu nunca rezei nem uma ave-maria sequer. Agora eu sei que é tudo mentira da grossa, já sei da missa a metade, que a única verdade é o prazer. Mamãe, eu sou uma pecadora, está ouvindo? Sua filha é uma pecadora.
Nenhuma resposta. No final do corredor, tia Adelaide arregalava os olhos para mim, com as mãos postas, como se implorasse o silêncio de Deus. Quanto mais ela suplicava, mais eu gritava. Mas não obtive resposta. De repente, eu encontrei a força que havia buscado por toda a vida e agarrei a maçaneta da porta de minha mãe com as duas mãos. A garganta de tia Adelaide desprendeu um não lancinante de tragédia grega e ela tentou me impedir com os mesmos dedos que se entrelaçavam aos meus. Não conseguiu. Quando a maçaneta girou, ela cambaleou e sumiu nos fundos da casa. Depois, com um mínimo de esforço, a porta rangeu discretamente e se abriu. Não vou tentar descrever as acrobacias de meu coração porque seria perda de tempo. O importante foi a visão inicial, ou seja, nada. Vi tudo e não vi nada. Os sentidos me revelaram suas singularidades. As imagens devem ser examinadas parcialmente até que se possa liberar a visão sobre o todo. No primeiro dia de aula, vi tanta coisa na escola que ao voltar não consegui contar nada a tia Adelaide. Hoje foi assim. Quando entrei no quarto de minha mãe as revelações foram tantas que a princípio não me foi possível registrar uma só. Depois minha atenção se voltou para duas almofadas de seda vermelha sobre a cama. Estão desbotadas e puídas, mas ainda se nota a perfeição do trabalho. Em cada uma delas minha mãe bordou três rosas em ponto cheio, com linha mercerizada, em tonalidades que vão do branco ao lilás. Entre os objetos amontoados sobre a penteadeira, destaquei uma caixa de madeira revestida de malacacheta, com incrustações de pequenas contas verdes nas arestas da tampa. Algumas já se desprenderam. Dentro, descobri uma confusão de dedais enferrujados, um ovo de madeira para cerzir meias, agulhas de crochê de diferentes tamanhos e três tesourinhas Vitry, uma em perfeito estado. As paredes estão forradas com um papel listrado, cujas cores não se distinguem mais. A madeira da porta do banheiro deve ter sido laqueada de azul. Ainda se percebe a tinta nos pontos que não descascaram. Mas o que mais me impressionou foi uma camada de poeira muito fina que cobre todos os objetos, insuficiente para corromper a alma das coisas e que, ao contrário, confere-lhes uma dignidade secular. Entendo agora a respeitável função da poeira. De alguma forma ela se liga à ausência, um fenômeno absolutamente venerável. Há ausências grandiosas, outra noção que aprendi hoje. Na hora, um calafrio me percorreu o corpo. Eu tinha nas mãos um carretel vazio, quando me dei conta de que o quarto estava tão vazio quanto o carretel. Mas não virei o rosto, para não deixar que meus olhos materializassem a ausência. Era preciso senti-la. A grandeza da ausência de minha mãe foi o fato mais comovente de minha existência. Nenhum outro será parecido. Minha mãe, cuja voz eu ouvira pela manhã, durante a discussão com tia Adelaide, se fora. Não houve necessidade de explicações. Minha mãe não estava nem estaria jamais naquele quarto onde ficara toda a vida, e muito menos em outro lugar qualquer. Simplesmente havia partido, como partem os dias e os anos. Dali em diante, sua ausência definitiva se tornaria viva. E presente. Próxima à penteadeira vislumbrei a máquina Singer, antiquíssima, onde ela bordava. No tampo, debaixo da agulha, dois bastidores prendiam uma colcha inacabada. Eram as mãos de branquíssima que os guiavam através dos caminhos de carbono que tia Adelaide e eu copiávamos. Recolhi o linho derramado em pregas sobre o tapete e o estendi sobre a cama. Pela última vez, não vi o tecido, mas sim flores e folhagens inexplicáveis, entrelaçadas em ramos ondulantes que não brotavam de planta alguma. Súbito me lembrei de que as melodias de Francisco também não brotavam de parte alguma e, no entanto, eram belas. O prazer é belo mas não é tudo. Naquele instante a ausência de minha mãe era tudo. Senti uma infinita pena por não poder dizer a ela que eu ainda não sabia da missa a metade."
|
(mote para o encontro de 22/11/2016, lido por André Salviano) 


Trecho do conto “Minha mãe” (p. 39-41), de Victor Giudice, publicado no livro Salvador janta no Lamas (José Olympio, 1989), premiado em 1989 como O melhor da ficção pela APCA. Victor Giudice foi um grande contista além de crítico, músico e professor. Nascido em 1934 e falecido em 1997, surge no boom do conto brasileiro nos anos 70 com Necrológio (Edições O Cruzeiro, 1972), “O arquivo” conto que faz parte desse livro foi publicado em 8 países: Estados Unidos, México, Argentina, Nicarágua, Colômbia, Bulgária, Polônia, Alemanha e Tchecoslováquia, e incluído na coletânea Os cem melhores contos do brasileiro do século (Objetiva, 2001), organizado pelo Ítalo Moriconi. Seu último livro de contos O Museu Darbot e Outros Mistérios (Leviatã, 1994) ganhou o Prêmio Jabuti de 1995 na categoria contos. Além dos contos publicou dois romances: Bolero (Rocco, 1985) e O sétimo punhal (José Olympio, 1995), e deixou o inacabado Do catálogo de flores, falecendo antes de completar a obra. Para saber mais sobre o autor e sua obra é só acessar a página. 


terça-feira, 1 de novembro de 2016

O triunfo da cor

O triunfo da cor, por Carmen Belmont

Ele era magro e tinha uma cabeleira ruiva, o que lhe valia mil apelidos na escola. Cabeça de fósforo. Cenourinha. Labareda. Curupira. Diabo-da-tasmânia. Salsicha. Como ninguém jamais levantou o assunto bullying, ficou apenas o registro na memória de algumas brincadeiras bobas de criança, sem maiores traumas. A juba vermelha só chegou a incomodar um pouco porque não podia participar de nenhuma bagunça sem ser pego, pois era sempre o primeiro de quem os inspetores e professores se lembravam. Quem mandou ter uma característica tão facilmente identificável como aquela? Se bem que era calmo – apesar da inquietude interna que o fazia tamborilar em qualquer coisa, de paredes a cadernos – e não costumava se meter em encrencas. Pelo menos não em encrencas desse tipo.

A verdade é que ir à escola não lhe interessava muito, a não ser pela possibilidade de zoar com os amigos nos intervalos das aulas. Passava a maior parte do tempo calado e sonolento, ou batucando em tambores invisíveis ou moscando na última fila, ou então sonhando com seus mundos faz-de-conta invariavelmente cheios de jovens heróis lutadores, saídos de algum mangá japonês. Claro que isso não ajudava nos exames, então notas baixas e constantes comparecimentos dos pais à escola eram inevitáveis.

A sua falta de interesse parecia exasperar a todos, embora ele não fizesse ideia do porquê, pois vivia muito bem consigo mesmo, obrigado. Tanto conversaram e fuçaram o seu suposto “problema” que concluíram que ele tinha um tal de transtorno de deficit de atenção, que ele tratou logo de chamar de “meu DDA-zismo”, a fim de poder assumir de vez o personagem. Daí se sucedeu a peregrinação aos médicos e psicólogos e o calvário dos remédios que não adiantavam nada, só serviam para deixá-lo atordoado e preso a um corpo indolente, como se não fosse ele que estivesse ali.

Como não houve fórmula ou tratamento que resolvesse, o jeito foi ir em frente assim mesmo, de cara limpa, aos trancos. Ele adolescia normalmente em meio aos seus pares, que nem eram tão diferentes assim, já que cada um tinha a sua própria inadequação para lidar. Aprendeu a tocar bateria e a gostar de rock ‘n’ roll e de videogames. Arte, só se fosse música agitada ou cinema, não tinha paciência para livros ou pinturas. Filmes e videoclipes eram sempre bem-vindos, conteúdo digital da Internet também. O celular tornou-se um item tão indispensável quanto os poucos amigos inseparáveis.

Naquela tarde, a turma iria sair para visitar uma exposição de pinturas. Ele gostava de atividades externas, afinal eram bem mais divertidas do que as de sala de aula. Continuava sendo bom, apesar da lembrança nada agradável daquele passeio a um centro de recreação juvenil, uma espécie de sítio localizado nos arredores da cidade, onde ele tinha sofrido uma repentina crise de asma. Ainda bem que um dos pais acompanhantes era médico e o socorreu. No final, depois do susto, ficou tudo tranquilo. Bem, mas o que poderia acontecer agora? O lugar era na cidade mesmo, e, depois, já fazia tempo que as crises não apareciam, vai ver tinham sumido de vez.

A exposição trazia quadros de dois famosos museus europeus, apresentando artistas chamados de pós-impressionistas que, conforme a explicação dada aos estudantes, revolucionaram a forma de pintar por meio do triunfo da cor. Ele não entendeu bulhufas: ué, mas todo pintor não usa cores? Por que para aqueles ali as cores eram mais valorizadas do que para os outros? 

Desistiu de tentar acompanhar aquele blá-blá-blá sem sentido algum para ele e observou a primeira tela em frente da qual estavam reunidos, em um espaço isolado: flores meio amarelas em um vaso de cobre sobre um fundo azul. Era bonita, mas ele não ficou assim tão impressionado; até achou as plantas meio esquisitas, talvez porque parecessem vivas através da explosão de cores ou algo assim – pelo menos foi o que ouviu vagamente a professora dizer. 

O grupo se moveu adiante para um salão maior e com mais quadros. Ele os seguiu sem pressa, bem lá atrás. De repente, sem saber por que, deu vontade de ver novamente aquelas estranhas flores que pareciam ter pequenos tentáculos, por isso decidiu voltar.

Foi então que a viu. Ela estava lá sozinha, parada. Cabelos negros amarrados num rabo-de-cavalo, celular nas mãos sobre o peito, contemplando a pintura, como se estivesse em transe. Ele não se atreveu a chegar mais perto; apenas esperou.

Quando finalmente ela desviou o olhar e pousou os marejados olhos de um azul translúcido nos dele, aconteceu:

(Dois pontos)



(Conto vencedor lido em 01.11.16 (terça-feira) no Clube da Leitura, realizado na Casa Rio)

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Fascinada pelos ecos da linguagem escrita, Carmen Belmont lê e escreve desde que se entende por gente; tudo o mais é adendo. "A palavra/ alva/ alvará da imaginação". (Imagem: @cdbelmont in PicsArt)