Minha Mãe, por Victor Giudice

"─ Uma vez você me disse que tia Adelaide e você eram duas bobas. Só você é que foi boba. Que é que pensa que ganhou, se trancando num quarto, com os olhos fechados para a vida? Se lembra quando você mandava eu rezar e dizia que rezava a noite inteira? Eu nunca rezei nem uma ave-maria sequer. Agora eu sei que é tudo mentira da grossa, já sei da missa a metade, que a única verdade é o prazer. Mamãe, eu sou uma pecadora, está ouvindo? Sua filha é uma pecadora.
Nenhuma resposta. No final do corredor, tia Adelaide arregalava os olhos para mim, com as mãos postas, como se implorasse o silêncio de Deus. Quanto mais ela suplicava, mais eu gritava. Mas não obtive resposta. De repente, eu encontrei a força que havia buscado por toda a vida e agarrei a maçaneta da porta de minha mãe com as duas mãos. A garganta de tia Adelaide desprendeu um não lancinante de tragédia grega e ela tentou me impedir com os mesmos dedos que se entrelaçavam aos meus. Não conseguiu. Quando a maçaneta girou, ela cambaleou e sumiu nos fundos da casa. Depois, com um mínimo de esforço, a porta rangeu discretamente e se abriu. Não vou tentar descrever as acrobacias de meu coração porque seria perda de tempo. O importante foi a visão inicial, ou seja, nada. Vi tudo e não vi nada. Os sentidos me revelaram suas singularidades. As imagens devem ser examinadas parcialmente até que se possa liberar a visão sobre o todo. No primeiro dia de aula, vi tanta coisa na escola que ao voltar não consegui contar nada a tia Adelaide. Hoje foi assim. Quando entrei no quarto de minha mãe as revelações foram tantas que a princípio não me foi possível registrar uma só. Depois minha atenção se voltou para duas almofadas de seda vermelha sobre a cama. Estão desbotadas e puídas, mas ainda se nota a perfeição do trabalho. Em cada uma delas minha mãe bordou três rosas em ponto cheio, com linha mercerizada, em tonalidades que vão do branco ao lilás. Entre os objetos amontoados sobre a penteadeira, destaquei uma caixa de madeira revestida de malacacheta, com incrustações de pequenas contas verdes nas arestas da tampa. Algumas já se desprenderam. Dentro, descobri uma confusão de dedais enferrujados, um ovo de madeira para cerzir meias, agulhas de crochê de diferentes tamanhos e três tesourinhas Vitry, uma em perfeito estado. As paredes estão forradas com um papel listrado, cujas cores não se distinguem mais. A madeira da porta do banheiro deve ter sido laqueada de azul. Ainda se percebe a tinta nos pontos que não descascaram. Mas o que mais me impressionou foi uma camada de poeira muito fina que cobre todos os objetos, insuficiente para corromper a alma das coisas e que, ao contrário, confere-lhes uma dignidade secular. Entendo agora a respeitável função da poeira. De alguma forma ela se liga à ausência, um fenômeno absolutamente venerável. Há ausências grandiosas, outra noção que aprendi hoje. Na hora, um calafrio me percorreu o corpo. Eu tinha nas mãos um carretel vazio, quando me dei conta de que o quarto estava tão vazio quanto o carretel. Mas não virei o rosto, para não deixar que meus olhos materializassem a ausência. Era preciso senti-la. A grandeza da ausência de minha mãe foi o fato mais comovente de minha existência. Nenhum outro será parecido. Minha mãe, cuja voz eu ouvira pela manhã, durante a discussão com tia Adelaide, se fora. Não houve necessidade de explicações. Minha mãe não estava nem estaria jamais naquele quarto onde ficara toda a vida, e muito menos em outro lugar qualquer. Simplesmente havia partido, como partem os dias e os anos. Dali em diante, sua ausência definitiva se tornaria viva. E presente. Próxima à penteadeira vislumbrei a máquina Singer, antiquíssima, onde ela bordava. No tampo, debaixo da agulha, dois bastidores prendiam uma colcha inacabada. Eram as mãos de branquíssima que os guiavam através dos caminhos de carbono que tia Adelaide e eu copiávamos. Recolhi o linho derramado em pregas sobre o tapete e o estendi sobre a cama. Pela última vez, não vi o tecido, mas sim flores e folhagens inexplicáveis, entrelaçadas em ramos ondulantes que não brotavam de planta alguma. Súbito me lembrei de que as melodias de Francisco também não brotavam de parte alguma e, no entanto, eram belas. O prazer é belo mas não é tudo. Naquele instante a ausência de minha mãe era tudo. Senti uma infinita pena por não poder dizer a ela que eu ainda não sabia da missa a metade."
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(mote para o encontro de 22/11/2016, lido por André Salviano) 


Trecho do conto “Minha mãe” (p. 39-41), de Victor Giudice, publicado no livro Salvador janta no Lamas (José Olympio, 1989), premiado em 1989 como O melhor da ficção pela APCA. Victor Giudice foi um grande contista além de crítico, músico e professor. Nascido em 1934 e falecido em 1997, surge no boom do conto brasileiro nos anos 70 com Necrológio (Edições O Cruzeiro, 1972), “O arquivo” conto que faz parte desse livro foi publicado em 8 países: Estados Unidos, México, Argentina, Nicarágua, Colômbia, Bulgária, Polônia, Alemanha e Tchecoslováquia, e incluído na coletânea Os cem melhores contos do brasileiro do século (Objetiva, 2001), organizado pelo Ítalo Moriconi. Seu último livro de contos O Museu Darbot e Outros Mistérios (Leviatã, 1994) ganhou o Prêmio Jabuti de 1995 na categoria contos. Além dos contos publicou dois romances: Bolero (Rocco, 1985) e O sétimo punhal (José Olympio, 1995), e deixou o inacabado Do catálogo de flores, falecendo antes de completar a obra. Para saber mais sobre o autor e sua obra é só acessar a página. 


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