terça-feira, 18 de julho de 2017

O homem perante a natureza, de Blaise Pascal


A primeira coisa que se oferece ao homem ao contemplar-se a si próprio, é seu corpo, isto é, certa parcela de matéria que lhe é peculiar. Mas, para compreender o que ela representa a fixá-la dentro de seus justos limites, precisa compará-la a tudo o que se encontra acima ou abaixo dela. Não se atenha, pois, a olhar para os objetos que o cercam, simplesmente, mas contemple a natureza inteira na sua alta e plena majestosidade. Considere esta brilhante luz colocada acima dele como uma lâmpada eterna para iluminar o universo, e que a Terra lhe apareça como um ponto na órbita ampla deste astro e maravilhe-se de ver que essa amplitude não passa de um ponto insignificante na rota dos outros astros que se espalham pelo firmamento. E se nossa vista aí se detém, que nossa imaginação não pare; mais rapidamente se cansará ela de conceber, que a natureza de revelar . Todo esse mundo visível é apenas um traço perceptível na amplidão da natureza, que nem sequer nos é dado a conhecer de um modo vago. Por mais que ampliemos as nossas concepções e as projetemos além de espaços imagináveis, concebemos tão somente átomos em comparação com a realidade das coisas.

Esta é uma esfera cujo centro se encontra em toda parte e cuja circunferência não se acha em alguma. E o fato de nossa imaginação perder-se neste pensamento constitui, em suma, a maior manifestação da onipotência de Deus.

Que o homem, voltado para si próprio, considere o que ele é diante do que existe; que se encare como um ser extraviado neste pequeno setor da natureza, e que da pequena cela onde se acha preso, do universo, aprenda a avaliar em seu valor exato a terra, os reinos, as cidades e ele próprio. Que é um homem diante do infinito?


(Mote lido por Gabriel Cerqueira para o encontro de 11/07/2017)

Blaise Pascal foi um teólogo, filósofo, matemático, físico, inventor e escritor francês. Nasceu em 19 de junho de 1623 em Clermont-Ferrand. Sua curiosidade na infância revelou ser um estado latente de genialidade, pois conseguiu reproduzir proposições matemáticas de Euclides de Alexandria aos 12 anos de idade mesmo sem nunca ter estudado tal ciência. Ao longo de sua brilhante carreira desenvolveu a geometria do acaso, o Triângulo de Pascal, o Tratado do Equilíbrio dos Líquidos, inventou a primeira calculadora mecânica - a Pascalina -, escreveu diversas obras teológicas, entre outras contribuições científicas e filosóficas. Faleceu vítima de câncer no estômago em 19 de agosto de 1662, aos 39 anos, em Paris.

 

terça-feira, 11 de julho de 2017

Reforma Trabalhista, de Guilherme Preger

(Senado Federal, 11 de julho de 2017)

Estamos aqui nesse dia histórico para votar a Reforma Trabalhista que fará com que nosso país entre afinal na modernização de sua economia. Essa reforma é essencial para garantir o emprego de milhares de brasileiros que, na situação atual, não têm condições de competir na economia digital com os robôs. Como se sabe, ano após ano, milhares de trabalhadores perdem seus empregos para algum robô. Para os empresários, adquirir um robô sai mais em conta do que contratar um trabalhador. Os robôs não precisam de salários, não têm hora de almoço, não precisam de plano de saúde nem previdenciário. As fêmeas-robô não engravidam, nem têm TPM. Sobretudo os robôs não entram em greve. Por isso, se nosso país não modernizar sua legislação trabalhista, como é que vai ser? Como nossos trabalhadores irão conseguir um emprego se o robô sai muito mais barato para o patrão?
Vocês de esquerda são contra essa reforma porque querem enganar o povo. Lembrem-se do século XIX: foi graças ao adiamento da abolição da escravatura que o país não quebrou sua economia e conseguiu preservar o trabalho de sua gente. Se a abolição tivesse acontecido uns cinquenta anos antes, os fazendeiros todos de café teriam substituídos seus trabalhadores por tratores e ceifadeiras mecânicas. É para impedir que nossos trabalhadores fiquem desempregados e desamparados que precisamos mudar nossa legislação. O que está sendo proposto torna a contratação de mão de obra humana muito vantajosa para o patrão, que vai pensar duas vezes antes de importar um caríssimo robô para substituí-lo. Por isso, essa reforma será uma conquista inédita da história trabalhista de nossa nação.
Agora, peço licença das ilustres Senadoras de nossa República, eu gostaria que liberassem a mesa para que eu possa iniciar essa sessão solene. O quê, as senhoras se recusam a sair? Com que direito? Isso aqui não é a casa da mãe Joana, isso aqui não é um bordel nem a casa de vossas senhorias. Isso aqui é o Parlamento supremo de nossa República. Queiram se levantar, madames. Como assim, não irão se levantar? Isso não é protesto, isso é uma avacalhação. As senhoras se acham donas desse Parlamento? Isso aqui é a casa do Povo. Eu quero saber se na casa de vossas senhorias, também teriam a coragem de ocupar a mesa de vossos maridos? Na minha tribo, nas mulheres que desobedecem seus digníssimos esposos nós sentamos a vara.
Se nós não votarmos a Reforma no dia de hoje, o Mercado não vai gostar. Depois o que nós vamos dizer ao Mercado? O Mercado que tanto nos tem apoiado e até já reduziu a inflação. O que o Mercado vai pensar de nós, caras senhoras? Que somos irresponsáveis. Caras Senadoras, eu peço a vossas senhorias mais responsabilidade, que deixem de lado suas susceptibilidades femininas e por apenas 5 minutos exerçam alguma racionalidade varonil. Se o Mercado se irritar conosco, todo o Povo vai pagar. E depois o Mercado dirá que nós senadores não cumprimos nosso dever.
Por gentileza, desliguem os microfones da mesa. Não estou conseguindo ouvir nosso nobre companheiro. Essas mulheres falam demais. Desliguem os microfones! Agora sim. Caro colega Senador, que muito prezo, qual a sua ideia? Que possamos realizar nossa votação em outro plenário? Mas Senador, data vênia, isso seria um grande vexame. Lá em nossa terra, nós não levamos desaforo para casa, não. Eu vou chamar a segurança, a polícia e o exército. Eu sou um grande admirador do sexo oposto, mas dentro do limite do tolerável. Estou de cinto, se for necessário, tiro meu cinto agora para mostrar quem é que manda nessa Casa.
Mas sou um homem comedido, moderado. Não irei perder a razão. Nunca mulher nenhuma me tirou do sério. Se os guardas, os seguranças não podem vir, quem perde é o país. Nós que fizemos tanto esforço para consertar a nação. Vossas senhorias estão se comportando antidemocraticamente. Foi por causa de um ser do segundo sexo, tal como as senhoras, que o país ficou do jeito que está. Nós tivemos toda paciência para explicar tudo direitinho, mas também precisa haver interesse para ouvir. Mas com essa histeria toda, ninguém consegue escutar. É o que eu sempre digo, mulher quer fofocar, mas não consegue discutir. Vou explicar mais uma vez: se não tiver reforma, todo patrão vai contratar um robô. Escutem o que estou dizendo. Mais dia menos dia, os robôs, depois de roubarem todos os empregos do país, vão também querer fazer política. Daqui a pouco vamos ter robôs participando de eleições, e ocupando essa Casa Sagrada da democracia. E aí como é que vai ser? Até as senhoras mesmo não conseguiram mais se eleger.
Ah, não vão sair mesmo? Então está bom. Está encerrada a sessão enquanto eu não conseguir sentar. Nem na ditadura nós vimos isso. Lamentável. O país está nas trevas. Nem os robôs conseguirão iluminá-lo. Apaguem as luzes do plenário, apaguem as luzes!

(As luzes são apagadas. Escuridão).


Guilherme Preger, guerrilheiro e engenheiro, autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014) é escritor de Literatura de Esquerda 



(Conto vencedor do encontro de 11/07/2017)


domingo, 2 de julho de 2017

La liberté est blanche, por Gabriel Cerqueira

Eva observava uma vitrine azul em um final de tarde nublado. Carros flutuantes passavam zumbindo baixinho pela rua e ventava de leve. Após alguns minutos ali, envolta pelo azul, ela entrou na loja e saiu com um pacote prateado. Eva era uma garota jovem e bela. Seus cabelos, que iam até os ombros, eram cinzentos como a cidade e o céu daquele dia. Os olhos azul-escuro pareciam poças do mar do norte. Pele branca e corpo esbelto, de curvas sutis.

A volta para casa foi como tantas outras. Os olhares dos homens se punham sobre ela sem cerimônia alguma. Enxergavam através de seus casacos, calça, calcinha, apalpavam-na, despiam-na; alguns até imaginavam penetrá-la, reduzindo-a a um depósito descartável de esperma. Pareciam selvagens com suas expressões febris e doentias. Um homem assobiou, outro disse coisas obscenas. Eva tremeu e fingiu que nada estava acontecendo. 

Ao chegar em casa ela suspirou de alívio. Subiu as escadas e entrou no quarto, trancando a porta. Colocou o pacote prateado em cima da cama e o abriu.

Eva pegou o Esty como se fosse um tesouro. O Esty era composto por uma máscara transparente e dezenas de nanotransmissores; após adequar a máscara no rosto o usuário posicionava os nanotransmissores em locais específicos de seu corpo - assim, parte da atividade cerebral do usuário poderia ser comandada pelo software de Esty para obedecer padrões de sua rotina e deixar o usuário livre para fazer o que quisesse em seu âmago. O livre arbítrio do usuário ainda existia, ele ainda tomava parte das decisões, mas seria o software que executaria as funções.

Para Eva, uma pessoa que não via sentido em existir, Esty seria a última alternativa para continuar vivendo; remédios e terapia não surtiram efeito em Eva, e seus pais haviam instalado nela nanorobôs de verificação de atividade vital após a tentativa de suicídio da filha; ao menor sinal de que estava morrendo sedativos e medicamentos mantenedores de vida eram liberado no organismo de Eva.

- Felicidade - disse ela após realizar a instalação de Esty em seu corpo.

A máscara modelou o rosto de Eva e ela realmente parecia estar feliz.

- Alta autoestima. Bom humor - ela continuou com a configuração - Gentileza. Paz. Paciência. Amor. Atenção. Precaução. Autopreservação. Bondade. Humildade. Medo…
Não se reconheceu ao olhar no espelho. No reflexo ela via uma mulher cheia de vida, por dentro, sentia-se morta.

A manhã seguinte foi leve. A vontade era de ficar na cama, mas Esty seguiu o comando de autopreservação. Eva levantou, tomou banho e fez o desjejum. Se arrumou e foi para a universidade. Sorria, cumprimentava os vizinhos, até mesmo andava sem querer. Foi então que viu Adam na entrada da universidade. Ele era famoso por suas conquistas amorosas e por “desconhecer” a palavra “não”. Há alguns meses agarrara Eva, querendo beijá-la, e levou uma unhada em seu rosto; espalhou o boato de que o ferimento era resultado do sexo selvagem que teve com Eva. A reputação da garota ficara manchada por esse estigma em todos os seus círculos sociais.

E lá estava Adam sorrindo e acenando para Eva. Ela tremeu e se desesperou quando se viu acenando de volta para ele. Andava na direção dele. Adam parecia não acreditar no que via e sorriu maliciosamente.

Não, por favor não. Um erro não”, ela pensava. Esty, que era para ser a salvação, havia se tornado condenação. Ela queria chorar mas o corpo não a obedecia, as lágrimas não caíam e a boca não gritava. Eva estava a um passo de Adam quando seu rosto ficou inteiramente vermelho - sinal de erro fatal em Esty e artifício utilizado para não comprometer a identidade do usuário em uma situação crítica. O sistema não suportara a contrariedade da garota e teve parte de seus arquivos corrompidos.

Foi então que Eva pegou uma caneta que estava em seu bolso e a fincou na lateral do pescoço de Adam. Ele urrou de dor e caiu ao chão. As pessoas que olhavam a cena estavam horrorizadas. Eva pulou em cima de Adam, retirou a caneta e tornou a apunhalá-lo na garganta por diversas vezes. O rosto dela ficou totalmente branco e ela parou. Olhou o corpo morto e o sangue que a encharcava. Eva gritou, um grito seco proveniente do fundo da alma, aterrorizada. Tentou se limpar, mas o sangue se espalhava ainda mais. Ela se debateu no chão e depois ficou estirada ao lado do cadáver em completo estado de choque.

Já na ambulância e amparada por uma enfermeira Eva sentia profunda vergonha, mas nenhuma vergonha poderia ultrapassar seu triunfo, nada poderia lhe tirar a vitória de ter matado o desgraçado.

Não havia mais Esty na cidade após o incidente aparecer no noticiário. Não houvera recall, apenas milhares de pessoas queriam que seus dispositivos dessem erro.

(Conto vencedor do encontro de 27/06/2017)

Gabriel Cerqueira não faz a menor ideia de quem ele é.