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Mostrando postagens de Julho, 2018

Sobre as mulheres de escritores por Charles Kiefer.

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Para escrever, preciso isolar-me, recolher-me, concentrar-me somente no que estou escrevendo. Ou faço assim, ou a inspiração não vem. Aliás, sempre que ela me visita, encontra-me trabalhando. Tenho as aulas, as viagens, as palestras, as feiras de livros. E não adianta. Até consigo escrever um conto ou outro em fins de semana, mas para escrever novelas e romances eu preciso de tempo ocioso, preciso não fazer nada, vagabundear, alterar os horários de dormir e levantar, almoçar e jantar. Preciso, enfim, do que chamo de caos criativo. Mas os conhecidos e os desconhecidos são implacáveis, querem leituras, orelhas, apresentações. Felizmente, a Marta, minha esposa, nos últimos tempos, tem assumido o papel de cão de guarda. Sem a sua proteção, eu não conseguiria escrever nada. Isso me fez pensar no esquecido papel das mulheres de escritores. Sem elas, muitas obras clássicas da literatura mundial não teriam sido escritas. Sem Mafalda, Erico Verissimo, certamente, teria produzido uma bibliogra…

Xica Delícia, de Bruno Flores

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Xica Delícia

O povo de Manacapuru jamais se esqueceria do dia em que Francisca da Silva, a Xica Delícia, seria eleita vereadora. O sucedido daria o que falar nos periódicos regionais, atraindo visitantes de povoados vizinhos, ansiosos por conhecer a rapariga vereadora. Mas os falatórios de momento resistiriam ao passar das vazantes e ganhariam espaço na memória coletiva. Anos depois, não haveria quem passasse pela praça principal de Manacapuru e não fosse tomado por uma insólita curiosidade pelo busto de mármore que ali reinava: uma índia sexagenária, de cabelos esvoaçantes e decote expondo sua volumosa natureza. Xica Delícia, a rainha do Solimões. Chegara sozinha em Manacapuru, aos catorze anos, após sua tribo Ianomâmi ser devastada por grileiros no Médio Rio Negro. Vagava pelo cais do porto entre bares e camelôs, e logo ficou conhecida por sua inigualável ternura. Alugava na época um quartinho na pensão da dona Inês, que fazia vista grossa para o vaivém de estivadores e viajantes com q…

Desamparo, de Fred di Giacomo (mote)

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Naqueles tempos, as coisas mudavam depressa que em um único dia havia ocorrido um casamento, um velório e a chegada de Maria Chica que já despertava intensas paixões en Nosso Senhor dos Passos. Bastou João Capa Negra - cavanhaque e peito largo, aos dezessete anos - pousar os olhos na recém-chegada Maria Chica do Carmo para saber que, assim como todos os homens da família, seria profundamente infeliz no amor. A súbita morte de Frutuosa Bugreiro encheu de esperanças o coração recém-descoberto de João Antonio Capa Negra, ao ponto de fazer com que não consumasse sua noite de núpcias com Lia, afim de guardar sua virgindade para a viuvinha que falava a língua dos pássaros, atirava como homem e calculava perfeitamente, mesmo sem saber ler e escrever. Mas os versos românticos de Alexandre Ferreira, ainda que copiados de Manoel Maria du Bocage, pareciam imbatíveis. A batalha estava ganha antes mesmo de Frutuoso Bugreiro espumar e uivar até seu coração felpudo parasse de bater. Maria Chica preci…

Enredado, por João Mattos

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José Lúcio, mineiro de Seritinga, é um homem disciplinado. Sempre agradece aos pais, Leodegário e Esmeralda, por ter sido encaminhado a um colégio salesiano da cidade vizinha, onde aprendeu a ser metódico e temente a Deus. O temor a Deus, a própria crença em Deus, tudo se esvaiu no agnosticismo da cidade grande, mas a organização e o interesse pelo estudo passaram a ser algo intrínseco a ele. José Lúcio, mineiro de Seritinga, é um homem apaixonado pela matemática. Os postulados de Euclides, as integrais de linha e o teorema de Fermat iluminaram sua juventude de menino interiorano. O sonho de cursar engenharia não se concretizou, mas o diploma de economia supriu, em parte, seu interesse pelas formulações abstratas. José Lúcio, mineiro de Seritinga, é um homem que gosta de ler. Nos últimos dez anos se dedicou a fundo à literatura, e elegeu três grandes mestres: Guimarães Rosa, Joyce e Proust. Fez pesquisas, leu quase tudo o que se escreveu sobre seus eleitos, memorizou passagens, tornou-s…

Buraco Negro, de Guilherme Preger

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Dizem que num buraco negro o tempo não passa. E eu imagino um relógio digital piscando esta mesma hora, este mesmo minuto, este agora: 23h 11’ 11’’. Não adianta se perguntar há quanto tempo estamos nessa pegada, juntos, enganchados, colados e suados. A hora é a mesma de sempre: 23h 11’ 11’’. Qual o calor que faz? Não sei. Chove ou é noite clara? Não sei. A lua é crescente, minguante ou é lua nova? Não sei. Eu sei apenas que a glande de meu pau descansa em algum canto da mucosa de sua vagina. Estamos imobilizados e nem sequer fazemos os movimentos típicos esperados de dois corpos que se encontraram com fome. Nós somos agora um buraco negro. Para além de nossa pele, das membranas que se uniram e que agora se acoplaram numa superfície contínua, há talvez um mundo. Minha memória diz: havia um mundo. Talvez diga: haverá um mundo. Esse mundo é para onde o suor de nossos corpos se esvai. Dizem que os buracos negros engolem toda matéria e toda luz, mas exalam uma fumacinha. Essa fumacinha …

O passado é lugar estrangeiro, por Suelen Carvalho

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Ainda estava escuro, mas ela se levantou sem acender as luzes. Qualquer clareza provinha dos poucos flashes dos carros que passavam na rua e movimentavam de sombras o teto. Começou a fazer as malas que não eram dela. Ela não iria embora, mas muitas coisas precisavam ganhar outro lugar.Tudo estava revirado ali. Enquanto dobrava camisas de botão e calças, chorava em silêncio. A respiração estava rápida. Uma decisão foi tomada. Um corte dilacerante de luto, de perda completa, de fim.  Cada peça de roupa, cada pequena coisa, era um momento gravado no tempo.Tentava arrumar tudo de olhos fechados. Abria-os de vez em quando, no tormento de pressentir que, mesmo encondendo os objetos, tirando-os da vista, a história da sua vida sempre os mostraria como fantasmas de um sonho falso.  A luz da manhã começou a entrar pela janela e as sombras dos móveis davam passos lentos, crescendo na direção dela. Diana fechou as cortinas para que continuasse no escuro completo. Mesmo assim, por pequenas picad…

Diatribe, por Vivian Pizzinga

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Meu nome é Charlotte. E também Douglas. Muitíssimo prazer. Charlotte Douglas nos dias pares, nos dias ímpares tudo muda de figura. Sou, então, Alexander. E também Maria. Meus cumprimentos, Alexander Maria nos dias ímpares. Tenho atributos ambíguos e capacidades múltiplas, e conforme a hora do dia sou também Renata. Renata Alexander Douglas, depois das seis da tarde, quando o metrô é um apinhado humano de humores, odores e o que mais couber no vagão. Dizem que não sou flor, que não sou flor que se cheire, que sou cheiro sem flor. Não gostam de mim porque sou Lilian quando em viagem a negócios. E também Débora. Lilian Débora com uniforme de executiva, mas de férias sou Paulo. E também Jaime. Paulo Jaime se o hotel é cinco estrelas, se a orla me apetece, se o chopp estremece na tulipa. Não gostam de mim porque exalo (é o que dizem) certo odor de paranoias antigas e coletivas, não sou flor que se queira. A azia não me pertence, mas querem imputá-la a mim, porque sou Lilian Jaime Charlotte…