O passado é lugar estrangeiro, por Suelen Carvalho

Ainda estava escuro, mas ela se levantou sem acender as luzes. Qualquer clareza provinha dos poucos flashes dos carros que passavam na rua e movimentavam de sombras o teto. Começou a fazer as malas que não eram dela. Ela não iria embora, mas muitas coisas precisavam ganhar outro lugar.Tudo estava revirado ali. Enquanto dobrava camisas de botão e calças, chorava em silêncio. A respiração estava rápida. Uma decisão foi tomada. Um corte dilacerante de luto, de perda completa, de fim. 
Cada peça de roupa, cada pequena coisa, era um momento gravado no tempo.Tentava arrumar tudo de olhos fechados. Abria-os de vez em quando, no tormento de pressentir que, mesmo encondendo os objetos, tirando-os da vista, a história da sua vida sempre os mostraria como fantasmas de um sonho falso. 
A luz da manhã começou a entrar pela janela e as sombras dos móveis davam passos lentos, crescendo na direção dela. Diana fechou as cortinas para que continuasse no escuro completo. Mesmo assim, por pequenas picadas de blackout um pouco danificado, pontos de claridade faziam a cortina um pequeno céu estrelado na parede. Apesar de estar assombrada com os últimos acontecimentos e com as descobertas que fez, ela achou a imagem bonita e se admirou por um instante do quão dissolvente pode ser a luz. 
Ela se movia na esperança de que se a dor se perdesse no breu e a deixasse em paz. Repassava cada minuto dos dias vividos com ele. Tinha, no rosto, expressão de quem faz contas mentais. A cabeça não parava de recordar e o corpo de viver, de novo, tudo. A vida se repetia.
Houve uma pista nos dias das bodas de prata dos pais dele. Começamos a namorar há dois meses. Ele sobe para o quarto, liga o computador e se tranca. Com a casa cheia, depois dos discursos, ninguém percebe a ausência dele.  Eu, sim, estranho. 
Bato na porta, chamo com carinho, pergunto o que está acontecendo. Ele diz que vai abrir. Quando entro, o computador mostra um último segundo de luz. O quarto escuro. Ele pega a minha mão e voltamos para a festa. 
- O que tu estavas fazendo? - pergunto enquanto descemos as escadas.
- Tinha que responder uns e-mails. Tenho uma audiência importante segunda-feira - responde.
- Não dava para esperar  acabar? - desconfianças murmuram no meu ouvido. Prefiro não ouvir.
Ele não responde. Já estamos de novo entre os convidados. 


Editora patuá, 2018

(Mote vencedor para o encontro de 10/07/2018)




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