Enredado, por João Mattos


José Lúcio, mineiro de Seritinga, é um homem disciplinado. Sempre agradece aos pais, Leodegário e Esmeralda, por ter sido encaminhado a um colégio salesiano da cidade vizinha, onde aprendeu a ser metódico e temente a Deus. O temor a Deus, a própria crença em Deus, tudo se esvaiu no agnosticismo da cidade grande, mas a organização e o interesse pelo estudo passaram a ser algo intrínseco a ele.
José Lúcio, mineiro de Seritinga, é um homem apaixonado pela matemática. Os postulados de Euclides, as integrais de linha e o teorema de Fermat iluminaram sua juventude de menino interiorano. O sonho de cursar engenharia não se concretizou, mas o diploma de economia supriu, em parte, seu interesse pelas formulações abstratas.
José Lúcio, mineiro de Seritinga, é um homem que gosta de ler. Nos últimos dez anos se dedicou a fundo à literatura, e elegeu três grandes mestres: Guimarães Rosa, Joyce e Proust. Fez pesquisas, leu quase tudo o que se escreveu sobre seus eleitos, memorizou passagens, tornou-se, enfim, um perito. Agora já chega, os três lhe bastam.
José Lúcio, mineiro de Seritinga, é um homem dedicado à família. É verdade que o casamento se desfez na voragem da vida moderna, mas ele continuou bastante apegado aos dois filhos. Agora, ambos já na universidade, não o procuram tanto.
José Lúcio, mineiro de Seritinga, viu-se aos cinquenta anos sem objetivos na vida. O trabalho já não o interessa tanto, a obra de seus ídolos literários está bem fichada, não vê novidades em livros de divulgação de matemática, os filhos seguem sozinhos seu caminho. Então José Lúcio, um homem tradicionalmente pacato e caseiro, passou a viajar todas as noites graças à internet, passeando pelas bonitezas do mundo.
Um dia, por sugestão de um sobrinho, José Lúcio entrou numa rede social. E começou a reencontrar velhos conhecidos. Passada a novidade, dispôs-se a procurar novos amigos ao redor do mundo.
Érica, por exemplo. Uma gaúcha de Erechim, professora de 35 anos, que está passando um ano em Oxford, Reino Unido, em meio a um doutorado em literatura inglesa. Um dia, conversando sobre o nacionalismo irlandês em James Joyce, Érica teclou: "Mas que homem interessante você é!!!" – assim mesmo, com três pontos de exclamação.
Algo aconteceu nesse instante na vida de José Lúcio, mineiro de Seritinga. Deu-se conta de que há muito tempo ninguém achava nada interessante nele. Então pensou que Érica, gaúcha de Erechim, também era uma mulher muito interessante. Mais que isso: apaixonante. Ela ecoou, do lado de lá: que homem apaixonante!!!
A internet é muito amigável, permite a dois amantes trocar sussurros de amor, comentar lindos poemas, enviar e receber lindas fotos, vídeos sensuais. No entanto, se facilita tantas trocas que têm a ver com a visão e com a audição, parece não se dar conta de que existem três outros sentidos fundamentais para a interação humana: o olfato, o paladar, o tato. Vai daí que José Lúcio, um desconfiado mineiro dos Campos Altos da Mantiqueira, começou a comparar o apaixonamento atual com o que teve trinta anos antes, um caso de amor iniciado na pracinha de Seritinga, e que teve como grandes alavancas o perfume Cashemere Bouquet usado pela namorada, a maciez de sua pele e o aroma de bolo de fubá que a futura sogra fazia.
Então, numa confusão de sentimentos totalmente estranha ao racionalismo que pauta sua vida, José Lúcio imagina que nada disso existe, tudo é um grande ardil, que um grupo de malandros, capitaneado por Zuckerberg, está urdindo uma trama diabólica, da qual estarão todos gargalhando pelas próximas semanas.
Tentando abandonar hipótese tão conspiratória, José Lúcio, o desconfiado mineiro de Seritinga, quer assegurar-se de seu amor: estará Érica jogando o jogo pra valer? Será que, passado seu período na Inglaterra, não volta para as terras gaúchas e reencontra um antigo amor? Ou, pior ainda, será que não existe um amor atual, real, palpável, que deixou apenas fisicamente, por motivo da temporada na Europa?
Sem uma âncora real a que possa se apegar, José Lúcio se desespera. Tenta rastrear os passos da amada numa cidade que não conhece. Procura, pelos mapas da rede, os caminhos que talvez ela esteja trilhando. Mas não sabe se, neste momento, ela assiste a uma aula em seu College, estuda na Biblioteca Bodleian, está indo a um concerto no Sheldonian ou aproveita o início do verão para remar com os colegas no Tâmisa.
No final do mês, sabe que ela vai passar sua semana de folga com duas amigas italianas, num cottage da Cornualha, totalmente desconectada.
Na volta a Oxford, espera-se que toda a World Wide Web, com seus braços de aranha, ampare o amor de Érica, gaúcha de Erechim, e de José Lúcio, mineiro de Seritinga.
João Bastos de Mattos
Rio Pequeno, 09.07.2018


(Conto vencedor do encontro de 10/07/2018 sobre conto de Suelen Carvalho)


João Bastos de Mattos, nascido de Capivari-SP no inverno de 1952, é engenheiro eletrônico formado pelo ITA, mas tem dificuldades para trocar uma simples lâmpada. Trabalhou por mais de 30 anos na Petrobrás. É escritor diletante, tendo vencido por duas vezes o Concurso de Contos Petros.



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