terça-feira, 30 de maio de 2017

A alma encantadora das ruas, João do Rio


Neste elogio talvez fútil, considerei a rua um ser vivo, tão poderoso que consegue modificar o homem insensivelmente e fazê-lo o seu perpétuo escravo delirante, e mostrei mesmo que a rua é o motivo emocional da arte urbana mais forte e mais intenso. A rua tem ainda um valor de sangue e de sofrimento: criou um símbolo universal. Há ainda uma rua, construída na imaginação e na dor, rua abjeta e má, detestável e detestada, cuja travessia se faz contra a nossa vontade, cujo trânsito é um doloroso arrastar pelo enxurro de uma cidade e de um povo. Todos acotovelam-se e vociferam aí, todos, vindos da rua da Alegria ou da rua da Paz, atravessando as betesgas (viela, rua estreita) do Saco do Alferes ou descendo de automóvel dos bairros civilizados, encontram-se aí e aí se arrastam, em lamentações, em soluços, em ódio à Vida e ao Mundo. No traçado das cidades ela não se ostenta com as suas imprecações e os seus rancores. É uma rua esconsa e negra, perdida na treva, com palácios de dor e choupanas de pranto, cuja existência se conhece não por um letreiro à esquina, mas por uma vaga apreensão, um irredutível sentimento de angústia, cuja travessia não se pode jamais evitar. Correi os mapas de Atenas, de Roma, de Nínive ou de Babilônia, o mapa das cidades mortas. Termas, canais, fontes, jardins suspensos, lugares onde se fez negócio, onde se amou, lugares onde se se cultuaram os deuses — tudo desapareceu. Olhai o mapa das cidades modernas. De século em século a transformação é quase radical. As ruas são perecíveis como os homens. A outra, porém, essa horrível rua de todos conhecida e odiada, pela qual diariamente passamos, essa é eterna como o medo, a infâmia, a inveja. Quando Jerusalém fulgia no seu máximo esplendor, já ela lá existia. Enquanto em Atenas artistas e guerreiros recebiam ovações, enquanto em Roma a multidão aplaudia os gladiadores triunfais e os césares devassos, na rua aflitiva cuspinhava o opróbrio e chorava a inocência. Cartago tinha uma rua assim, e ainda hoje Paris, New York, Berlim a têm, cortando a sua alegria, empanando o seu brilho, enegrecendo todos os triunfos e todas as belezas. Qual de vós não quebrou, inesperadamente, o ângulo em arestas dessa rua? Se chorastes, se sofrestes a calúnia, se vos sentistes ferido pela maledicência, podereis ter a certeza de que entrastes na obscura via! Ah! Não procureis evitá-la! Jamais o conseguireis. Quanto mais se procura dela sair mais dentro dela se sofre. E não espereis nunca que o mundo melhore enquanto ela existir.
Não é uma rua onde sofrem apenas alguns entes, é a rua interminável, que atravessa cidades, países, continentes, vai de pólo a pólo; em que se alanceiam todos os ideais, em que se insultam todas as verdades, onde sofreu Epaminondas e pela qual Jesus passou. Talvez que extinto o mundo, apagados todos os astros, feito o universo treva, talvez ela ainda exista, e os seus soluços sinistramente ecoem na total ruína, rua das lágrimas, rua do desespero — interminável rua da Amargura...
In: RIO, João do. A alma encantadora das ruas. São Paulo: Companhia de Bolso, 2008, p.51-52.

(Mote lido por Carmen Belmont para o encontro de 13.06.17)
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Paulo Barreto (João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto; pseudônimo literário: João do Rio), jornalista, cronista, contista e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 5 de agosto de 1881, e faleceu na mesma cidade em 23 de junho de 1921. Eleito em 7 de maio de 1910 para a Cadeira n. 26 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Guimarães Passos, foi recebido em 12 de agosto de 1910, pelo acadêmico Coelho Neto.


Obras: As religiões do Rio, reportagens (1905); Chic-chic, teatro (1906); A última noite, teatro (1907); O momento literário, inquérito (1907); A alma encantadora das ruas, crônicas (1908); Cinematógrafo, crônicas (1909); Dentro da noite, contos (1910); Vida vertiginosa, crônicas (1911); Os dias passam, crônicas (1912); A bela madame Vargas, teatro (1912); A profissão de Jacques Pedreira, novela (1913); Eva, teatro (1915); Crônicas e frases de Godofredo de Alencar (1916); No tempo de Wenceslau, crônicas (1916); A correspondência de uma estação de cura, romance (1918); Na conferência da paz, inquérito (1919); A mulher e os espelhos, contos (1919).
Fonte: Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A República de Platão, Livro III

Palavras iguais a estas e outras do mesmo tipo, pediremos licença a Homero e aos demais poetas para que não se ofendam se as eliminarmos. Não que a maioria não as considere poéticas e suaves, porém, quanto mais poéticas, menos devem chegar aos ouvidos de crianças e de homens que devem ser livres e recear a escravidão bem mais que a morte.
 Adimanto — Estás com razao.
 Sócrates — Devemos também rejeitar todos os nomes odiosos e medonhos a respeito destes lugares: “Cocito”, “Estígio”, ‘habitantes do inferno”, “espectros’ e outros da mesma espécie que causam arrepios a quem os ouve. Talvez sejam úteis para outras finalidades, mas nós tememos que os nossos guardiões, por causa de tais arrepios, fiquem com febre e enfraquecidos além da conta.
 Adimanto — E esse temor é legítimo.
 Sócrates — Em conseqüência, os nomes devem ser dos?
 Adimanto — Certamente que sim.
 Sócrates — E teremos um modelo contrário a este, nas conversações ou nas poesias?
 Adimanto — Com certeza.
 Sócrates — Portanto, eliminaremos também lamentações e lástimas de homens famosos?
 Adimanto — Evidentemente que sim, como no caso anterior.
 Sócrates — Analisa se agiremos com acerto em eliminá-las ou não. Nós declaramos que um homem probo não julga terrível o falecimento de outro homem probo de quem é amigo.
 Adimanto — De fato, declaramos.
 Sócrates — Portanto, não lamentaria como se Lhe houvesse acontecido uma desgraça?
 Adimanto — Certamente que não.
 Sócrates — Mas afirmaremos também que um homem assim se basta a si mesmo para ser feliz e que, ao contrário dos outros, necessita bem pouco de outras pessoas.
Adimanto — É verdade.
Sócrates — Então, é para ele menos terrível perder um filho, ou um irmão, ou dinheiro, ou quaisquer outros bens desta espécie.
Adimanto — Sim, menos que qualquer outro.
 Sócrates — Portanto, irá lamentar-se menos, e suportará com mais serenidade uma dessas desventuras, ao ser por ela atingido.
 Adimanto — Com muito mais, de fato.
 Sócrates — Logo, teremos razão em arrancar as lamentações aos homens famosos, deixá-las às mulheres, e mesmo assim apenas àquelas que forem desprovidas de mérito, e aos homens covardes, para que não suportem um procedimento semelhante aqueles que estão destinados à defesa do país. Adimanto — Sim, teremos razão

Tradução de Robert Baccou

https://saudeglobaldotorg1.files.wordpress.com/2013/08/te1-platc3a3o-a-republica.pdf



(mote lido por Guilherme Preger para o encontro de 30/05/2017)


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Os Ratos, de Cesar Cardoso

Ontem ela acordou, tomou seu banho e o café da manhã, como sempre fazia. Mas, ao se levantar da mesa, foi direto para o quarto e de lá começou a esbravejar com os ratos que andavam pelo teto, entravam em seu armário, roíam suas roupas, os retratos da família e alcançavam até a fiação.
Durante todo o dia ela gritou até ficar rouca, mas os ratos riam e riam, pois sabiam que ela já estava morta e que eles nem existiam.

(conto do livro Urubus em círculos cada vez mais próximos, editora oito e meio, 2017)

Mote para o encontro do dia 16/05/2017


sexta-feira, 5 de maio de 2017

O Corpo imóvel, de Lilian Piraine Laranja

Despertou de um sonho de delírios, cujos eventos eram grotescos e encadeados em uma ordem irreal. Ao abrir os olhos, o ambiente demasiadamente branco ofuscou sua visão. Vultos se moviam, e nada compreendeu de suas vozes distantes. Escutava somente murmúrios ao invés de frases. Seu corpo estava inerte e podia sentir o peso da própria imobilidade. Aceitou aquela condição por instantes, sem qualquer queixa. Até mesmo falar lhe exigiria esforço, e o sono ainda rondava sua lucidez.
Já se esquecera do sonho. Estava sobre uma cama e lhe tiravam a camisola. Viu traços de sangue nos panos que a descobriam, vermelho escuro e seco. Especulou sobre a origem daquelas manchas. O corte que iniciara os procedimentos, seguindo protocolos aprimorados ao longo de séculos - sem dúvida, a opção mais segura. Ou teria sido um acidente, uma hemorragia imprevista, um procedimento mal executado? Aqueles vestígios a lembraram de que não havia cura possível sem algum tipo de intervenção. Não tinha conhecimento do que havia sido feito, das reais intervenções a que seu organismo fora submetido e como entenderia aqueles sinais fisiológicos.
Estava completamente nua e podia enxergar melhor, mas não encarava as pessoas que a rodeavam, não queria ver seus rostos. Sentiu uma espuma gelada em sua perna direita, a sensação desceu aos pés, que foram massageados e limpos, e depois subiu em círculos até suas coxas. Olhou as mãos que moviam a esponja e viu que eram pequenas e rápidas, cobertas por luvas brancas. Fechou os olhos porque começava a sentir uma dor aguda no abdômen. Mãos fortes a seguraram no torso e também nas pernas, deslocando seu corpo para a direita. Limparam suas costas e depois a moveram para a esquerda. Temeu a higiene no lado esquerdo onde havia sofrido a incisão.
A movimentação a cansou, ainda que fosse um procedimento feito de forma burocrática - um rito em que os tempos estavam inconscientemente marcados e se repetiam a cada paciente. Rápidos, contínuos, gelados. A ideia dessa rotina de movimentos em corpos doentes a preveniu de sentir qualquer pudor - compreendeu então que o pudor é de natureza circunstancial. O seu corpo era apenas mais um corpo. Mãos estranhas a reviraram e ensaboaram, como se fosse uma boneca, uma reprodução de ser humano, feita de uma matéria inerte. Era o que havia se tornado enquanto sofria a intervenção e sua consciência estava posta em suspenso: um corpo despertencido de si, sem vontade própria, munido apenas de suas atividades biológicas mais básicas, entregue aos profissionais. Confiara que lhe fariam o melhor, e sentiu medo de sua própria inclinação para confiar. Pareceu-lhe um mistério toda a esperança investida em uma agressão consentida e estudada, que podia dar errado.

Passaram um lenço úmido em seu rosto com delicadeza. Aquele gesto foi como um carinho, como uma mensagem de que seu corpo não era um boneco. Nem para eles. Olhou para quem estava umedecendo seu rosto e viu que era um rapaz. Falava com ela, pode entender que lhe perguntava como se sentia. Era um sinal de que expressava vida em seus olhos, o que a deixou feliz. Não conseguiu responder, ainda não estava pronta. No fundo do quarto, uma moça arrumava os lençóis e preparava uma camisola limpa. Pentearam seus cabelos, eram fios curtos e finos, ficaram arrumados para o lado de que gostava, o que a deixou encabulada e agradecida. Mas não quis pedir um espelho.

(Conto vencedor do encontro de 02/05/2017)

 Lilian Piraine Laranja nasceu em Porto Alegre, em 1982. Ama literatura e tem contos publicados em duas antologias de oficinas literárias (2005 e 2012).