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Mostrando postagens de Maio, 2017

A alma encantadora das ruas, João do Rio

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Neste elogio talvez fútil, considerei a rua um ser vivo, tão poderoso que consegue modificar o homem insensivelmente e fazê-lo o seu perpétuo escravo delirante, e mostrei mesmo que a rua é o motivo emocional da arte urbana mais forte e mais intenso. A rua tem ainda um valor de sangue e de sofrimento: criou um símbolo universal. Há ainda uma rua, construída na imaginação e na dor, rua abjeta e má, detestável e detestada, cuja travessia se faz contra a nossa vontade, cujo trânsito é um doloroso arrastar pelo enxurro de uma cidade e de um povo. Todos acotovelam-se e vociferam aí, todos, vindos da rua da Alegria ou da rua da Paz, atravessando as betesgas (viela, rua estreita) do Saco do Alferes ou descendo de automóvel dos bairros civilizados, encontram-se aí e aí se arrastam, em lamentações, em soluços, em ódio à Vida e ao Mundo. No traçado das cidades ela não se ostenta com as suas imprecações e os seus rancores. É uma rua esconsa e negra, perdida na treva, com palácios de dor e choupan…

A República de Platão, Livro III

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Palavras iguais a estas e outras do mesmo tipo, pediremos licença a Homero e aos demais poetas para que não se ofendam se as eliminarmos. Não que a maioria não as considere poéticas e suaves, porém, quanto mais poéticas, menos devem chegar aos ouvidos de crianças e de homens que devem ser livres e recear a escravidão bem mais que a morte.
 Adimanto — Estás com razao.
 Sócrates — Devemos também rejeitar todos os nomes odiosos e medonhos a respeito destes lugares: “Cocito”, “Estígio”, ‘habitantes do inferno”, “espectros’ e outros da mesma espécie que causam arrepios a quem os ouve. Talvez sejam úteis para outras finalidades, mas nós tememos que os nossos guardiões, por causa de tais arrepios, fiquem com febre e enfraquecidos além da conta.
 Adimanto — E esse temor é legítimo.
 Sócrates — Em conseqüência, os nomes devem ser dos?
 Adimanto — Certamente que sim.
 Sócrates — E teremos um modelo contrário a este, nas conversações ou nas poesias?
 Adimanto — Com certeza.
 Sócrates — Portanto,…

Os Ratos, de Cesar Cardoso

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Ontem ela acordou, tomou seu banho e o café da manhã, como sempre fazia. Mas, ao se levantar da mesa, foi direto para o quarto e de lá começou a esbravejar com os ratos que andavam pelo teto, entravam em seu armário, roíam suas roupas, os retratos da família e alcançavam até a fiação. Durante todo o dia ela gritou até ficar rouca, mas os ratos riam e riam, pois sabiam que ela já estava morta e que eles nem existiam.
(conto do livro Urubus em círculos cada vez mais próximos, editora oito e meio, 2017)
Mote para o encontro do dia 16/05/2017

O Corpo imóvel, de Lilian Piraine Laranja

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Despertou de um sonho de delírios, cujos eventos eram grotescos e encadeados em uma ordem irreal. Ao abrir os olhos, o ambiente demasiadamente branco ofuscou sua visão. Vultos se moviam, e nada compreendeu de suas vozes distantes. Escutava somente murmúrios ao invés de frases. Seu corpo estava inerte e podia sentir o peso da própria imobilidade. Aceitou aquela condição por instantes, sem qualquer queixa. Até mesmo falar lhe exigiria esforço, e o sono ainda rondava sua lucidez. Já se esquecera do sonho. Estava sobre uma cama e lhe tiravam a camisola. Viu traços de sangue nos panos que a descobriam, vermelho escuro e seco. Especulou sobre a origem daquelas manchas. O corte que iniciara os procedimentos, seguindo protocolos aprimorados ao longo de séculos - sem dúvida, a opção mais segura. Ou teria sido um acidente, uma hemorragia imprevista, um procedimento mal executado? Aqueles vestígios a lembraram de que não havia cura possível sem algum tipo de intervenção. Não tinha conheciment…