A República de Platão, Livro III

Palavras iguais a estas e outras do mesmo tipo, pediremos licença a Homero e aos demais poetas para que não se ofendam se as eliminarmos. Não que a maioria não as considere poéticas e suaves, porém, quanto mais poéticas, menos devem chegar aos ouvidos de crianças e de homens que devem ser livres e recear a escravidão bem mais que a morte.
 Adimanto — Estás com razao.
 Sócrates — Devemos também rejeitar todos os nomes odiosos e medonhos a respeito destes lugares: “Cocito”, “Estígio”, ‘habitantes do inferno”, “espectros’ e outros da mesma espécie que causam arrepios a quem os ouve. Talvez sejam úteis para outras finalidades, mas nós tememos que os nossos guardiões, por causa de tais arrepios, fiquem com febre e enfraquecidos além da conta.
 Adimanto — E esse temor é legítimo.
 Sócrates — Em conseqüência, os nomes devem ser dos?
 Adimanto — Certamente que sim.
 Sócrates — E teremos um modelo contrário a este, nas conversações ou nas poesias?
 Adimanto — Com certeza.
 Sócrates — Portanto, eliminaremos também lamentações e lástimas de homens famosos?
 Adimanto — Evidentemente que sim, como no caso anterior.
 Sócrates — Analisa se agiremos com acerto em eliminá-las ou não. Nós declaramos que um homem probo não julga terrível o falecimento de outro homem probo de quem é amigo.
 Adimanto — De fato, declaramos.
 Sócrates — Portanto, não lamentaria como se Lhe houvesse acontecido uma desgraça?
 Adimanto — Certamente que não.
 Sócrates — Mas afirmaremos também que um homem assim se basta a si mesmo para ser feliz e que, ao contrário dos outros, necessita bem pouco de outras pessoas.
Adimanto — É verdade.
Sócrates — Então, é para ele menos terrível perder um filho, ou um irmão, ou dinheiro, ou quaisquer outros bens desta espécie.
Adimanto — Sim, menos que qualquer outro.
 Sócrates — Portanto, irá lamentar-se menos, e suportará com mais serenidade uma dessas desventuras, ao ser por ela atingido.
 Adimanto — Com muito mais, de fato.
 Sócrates — Logo, teremos razão em arrancar as lamentações aos homens famosos, deixá-las às mulheres, e mesmo assim apenas àquelas que forem desprovidas de mérito, e aos homens covardes, para que não suportem um procedimento semelhante aqueles que estão destinados à defesa do país. Adimanto — Sim, teremos razão

Tradução de Robert Baccou

https://saudeglobaldotorg1.files.wordpress.com/2013/08/te1-platc3a3o-a-republica.pdf



(mote lido por Guilherme Preger para o encontro de 30/05/2017)


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O livro do desassossego, de Fernando Pessoa

O Caderno Vermelho, por Leo Almeida

Diatribe, por Vivian Pizzinga