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Mostrando postagens de Agosto, 2018

Os exorcismos, por João do rio (Mote)

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Há sempre de um lado os espíritos bons, os anjos que se demonstram pela teurgia¹, e os espíritos maus, as larvas e os demônios, isto é, de um lado as teofanias², de outro as fúrias. Ultimamente, porém, casos incríveis, lendas antiquíssimas deram para reaparecer. Os agentes do Diabo, as sereias, os faunos, os gigantes, os tritões surgem de novo. O João Catraieiro, ali do Cais dos Mineiros, já viu passeando na água uma dama de vermelho com homens de barbas verdes que riam e assobiavam... Por que havemos de banir fatos? Eu, e dou-lhe como testemunha o dr. Rafael Pinheiro e outras pessoas conhecidas, já tive uma doente que frei Piazza pôs boa. A mulher delirava, tinha ataques formidáveis, eu tratava-a segundo Charcot. Uma vez ela disse: eu tenho o Diabo no corpo. Pois vá ao Castelo! Foi e ficou boa. Era um médico que me dizia o assombro. Nesse mesmo dia subi ao Castelo. Pelas pedras do morro iam homens carregando baldes d'água; mulherios estendiam roupas na relva; embaixo, a cidade nu…

Ecos da noite, por Vagalume (Mote)

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"Aí chegamos às 3 horas e 45 minutos e vimos junto à baiana do mingau, que fica ao lado do escritório do Jardim Botânico, um grupo que discutia calorosamente sobre o policiamento da cidade, que felizmente melhora dia a dia a olhos vistos.
neste grupo tornavam-se salientes uma rapariga nova, vestida de preto, que tem o hábito bom ou mal de passear de madrugada, terminando o seu passeio no Boqueirão, não para tomar banhos de mar; um português ajanotado, vulgarmente conhecido por Maduro, que é habitué de mingau, onde discute com quem naquele ponto faz paragem, e uma adorável rapariga, que dá sorte em toda parte, na rua da Assembleia, onde reside, nos Democráticos, quando há bailes e em todos os pontos de boêmia.
O Chagas, guarda-livros barato, durante a madrugada de hoje esteve mesmo a pedir uma camisola de força, pintou o sete e o diabo a quatro e por um triz a guarda civil fê-lo puxar a rica marcha para o xadrex mais próximo. Achamos que o Chagas há muito devia estar recolhido no…

Viradinho a paulista nas ilhas do canal, de João Mattos

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VIRADINHO A PAULISTA NAS ILHAS DO CANAL
Pra começo de conversa, ler mais um pouco sobre a vida de Victor Hugo. Depois de temperar estes bifinhos e adiantar a salada, procuro na enciclopédia. Imagino sua mulher, Adèle Foucher, dando instruções à nova cozinheira. Como preparar bem o coq au vin - o velho Hugo devia ser muito exigente. Coq au vin ou boeuf bourguignon? Coq au vin é mais apropriado para um marido narcisista como ele, a imagem de um galo velho cai bem para aquele sátiro sempre em busca de novas aventuras de alcova. Sim, filho, quiser é com S. Todas as formas do verbo querer são com S. E não enrola muito nesse dever, o ônibus pra escola não espera. Talvez ela se atrapalhasse um pouco no trato das filhas, Léopoldine pensando em frisar os cabelos, Adèle querendo um vestido de mousseline. Que confusão, a mãe se chama Adèle, a filha é Adèle também, como é que uma escritora pode lidar com isso? A diarista vem amanhã, vou ver se aproveito este solzinho fraco para secar os lençóis p…

O Caderno Vermelho, por Leo Almeida

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Quando mamãe morreu, enterramos papai. Em seu luto, definhou por um mês sem sair de casa. Foi sua primeira morte. Foram trinta e três anos de vida em comum, entre o casamento e o noivado. Não nos surpreendeu a sua reação à perda, pois não esperávamos outra atitude de quem, por anos, foi muito distante e frio e agora, depois de testemunhar, impotente, o corpo de minha mãe ser lentamente devorado pelo câncer, percebeu-se só. Mas o que realmente o levou à derrocada foi a descoberta dos tais diários e do caderno vermelho. Cuidadosamente guardados entre as coisas de costura de minha mãe, os livros e cadernos foram encontrados por meu pai quando selecionava objetos para jogar no lixo e para doar. Primeiro, chamou-lhe a atenção a quantidade de textos escritos na letrinha miúda que ele reconheceu ser daquela que, sob sua ótica, despendia todo o seu tempo no cuidado da casa, no trato com a família, na preocupação com a comida, com a roupa passada, com os deveres de casa dos filhos, com a febre…

A Paixão segundo H.H., por Guilherme Preger

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A PAIXÃO SEGUNDO H.H.
Papi foi aquele que me ensinou a comer. A comer os homens, a devorá-los. Da ponta do dedo mindinho à corcova da glande. Com a minha boca grande e dentada. Com a minha boca de pelos. Hoje eu sei escrever. E que se fodam aqueles que pedem reverências ao dicionário. A minha escrita úmida é gloriosa. Com minha boca dentada eu devoro homens. Com meu pau-estilete eu sangro as páginas com as lacerações de minha escrita. Eu digo que as páginas são minhas meninas virgens. Eu digo que gosto de borrá-las como um homem maduro borra o ventre de uma menina virgem com a graxa de sua porra. A tinta na página é uma porra. Negra. Nessa porra eu me lambuzo e não tomo banho. Todo dia quando acordo só saio do quarto se já tiver escrito ao menos duas laudas. E eu faço. E saio lacerada porque a escrita para mim só a ferro quente. Então eu saio do quarto para a luz da Casa do Sol. A luz entra oblíqua por seus janelões coloniais. Então eu me visto de coquete antiga. Daquelas que …