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Mostrando postagens de 2018

João Russo, por Vivian Pizzinga

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João Russo era um dos pacientes que mais gostávamos na clínica, embora sua assiduidade ao tratamento sempre tivesse sido aquém em relação àquilo que os supervisores consideravam terapeuticamente indicado, no caso dele. Russo tinha cerca de cinquenta anos. Ou um pouco mais. Um olho cego, um sorriso grátis, uma fala suave, muita vontade de gentileza, excesso de tristeza encarcerada. Quando conversava conosco, confesso: era difícil de entender, parecia que sua língua estava pela metade, danificada. Ou mesmo perambulando, troncha, pelo cerne da boca, e dando encontrões desavisados com o palato e talvez os dentes, que guardaram entre eles, algum dia, uma faca que nunca cravou o coração de ninguém. Russo já teve ódio. Já teve luta. Já teve, principalmente, muito, muito medo. Isso tudo era fácil de enxergar. Dentro dele, no entanto, o que o habitava agora era a loucura, forma possível de esquecimento, escolha de certo abandono de si e do mundo. Já isso era difícil de aceitar. João Russo não e…

A Casa Tomada, por Julio Cortázar

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Lembro-me bem da divisão da casa. A sala de jantar, uma peça com gobelinos, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá frente para Rodríguez Peña. Só um corredor, com sua maciça porta de carvalho, separava essa parte da ala dianteira, onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos de dormir e o living central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um saguão com azulejos de majólica, e a porta-persiana dava para o living. De maneira que se entrava pelo saguão, abria-se a porta-persiana e já se chegava ao living; tinha-se, dos lados, as portas dos nossos quartos e, à frente, o corredor que levava à parte mais afastada; seguindo pelo corredor, chegava-se à porta de carvalho e mais adiante se iniciava o outro lado da casa, ou então se podia virar à esquerda, justamente antes da porta, e seguir por um corredor mais estreito, que levava à cozinha e ao banheiro.
[...]
Recordarei sempre, com nitidez, porque foi simples e …

A Triesfera, de Guilherme Preger

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Quando recebi o bip do novum informando que a Tirania havia sido eleita, pensei: é preciso fugir. Mas não havia para onde. Logo depois do novum, recebi dois outros bips em sequência. Eram do contato afetivo. Eles vieram na cor vermelha, de urgência. As mensagens estavam escritas em nosso código de enlace. Tive que usar o decriptador secreto. Ele estava escondido num arquivo opaco de meu dispositivo virtual. A primeira mensagem, em código hexadecimal (1578ACB745), quando traduzida dizia: “Eureka”. A segunda dizia apenas um código numérico, que não entendi. Em seguida, mais um bip, que dizia: “SOS”. E então achei que deveria visitá-lo imediatamente. Foi isso que me fez pegar o trem de superfluidos e, em duas horas, após a imersão ctônica, sair precisamente em frente a sua porta. Que estava trancada. Apertei o bip de chegada e enviei várias mensagens. Mas não tive resposta. Foi quando me dei conta que o código numérico enviado era a chave da porta, o que se mostrou verdadeiro. A porta ab…

A MENSAGEM, por Guilherme Preger

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Parece que estou preso nessa gaiola que é uma caixa. Digo que parece, pois me disseram que estou livre e posso ir para onde quiser. E na verdade há passagens. Mas quando as atravesso é como se saísse de uma caixa e entrasse em outra. Há sempre paredes que são anteparos e há nesses anteparos belas projeções que observo com contento. Creio que são os programadores que fazem as projeções. Essas projeções também são chamadas de diagramas. Há janelas, muitas, que são como furos ou brechas. E as paisagens após as janelas são também bonitas e luminescentes. E há pequenos orifícios onde estão inseridos dispositivos. Nesses dispositivos chegam mensagens para mim. As mensagens me divertem. Também posso escrever mensagens com os dispositivos. Eles possuem interfaces apropriadas para a escrita. Disseram que posso escrever qualquer coisa nas mensagens e que há uma chance das mensagens serem recebidas por alguém (essas mensagens que recebo dos programadores chamam-se protocolos). Quanto mai…

O conto da Aia, por Margaret Atwood

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Fico sentada em meu quarto, junto da janela, esperando. Em meu colo há um punhado de estrelas amassadas. Esta poderia ser a última vez que tenho de esperar. Mas não sei o que estou esperando. O que você está esperando?, costumavam dizer. Isso significava apresse-se. Não se esperava nenhuma resposta. Pelo que você está esperando é uma pergunta diferente, e não tenho resposta para ela tampouco. Entretanto não é esperar, exatamente. É mais como um forma de suspensão. Sem suspense. Finalmente não há tempo. Estou em desgraça, o que é o oposto da graça. Deveria me sentir pior quanto a isso. Mas sinto-me serena, em paz, impregnada de indiferença. Não deixe que os bastardos esmaguem você. Repito isso para mim mesma, mas não me transmite nada. Seria a mesma coisa que você dizer: Que não haja ar; ou: Não seja. Suponho que você poderia dizer isso.
Não há ninguém no jardim.             Gostaria de saber se vai chover.
Lá fora, a luz está pouco a pouco se apagando. Já está avermelhada. Logo estará escuro.…

Cinematógrafo e os cortes naturais (uma montagem ultra soviética), por Fernando Andrade

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É uma experiência tocar os dois seios, e quando os toco vejo que é uma experiência só minha. Que logo mais abaixo existe um buraco que não deve ser ocupado por mãos vazias e nem por músculos, talvez um tímido de óculos que ainda vejo na abertura, uma significação para entrada e saída sem alternância de fatores. E na imagem do cinematógrafo, os cortes naturais, onde uma ocupação que venha junto com uma montagem ultra - soviética. (Ela por baixo) Assim minha tia me ensinou a manejar os pais. A usá-los a meu bem querer. A ludibriá-los feito o diabo para que não me cancelem numa cancela ou no porão musical, onde toca a rádio FM (feminino | masculino) mais intolerável para uma menina cult. A palavra em si já é um palavrão, um espaço privativo de liberdade e de sexualidade, embora sirva bem à masturbação genital. Me deram um pinto mas não o uso. Me deram uma flor mas não a digo em público. Talvez numa junção de palavras me exercite pintando flores, sem tinta por favor! Pintar do verbo coloqui…

MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO -- PRÓLOGO, de Flávio Tavares

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Primeiras visões Os beijos que te dou tu não sabes de onde vêm. São teus, do teu corpo e da tua alma, do mais profundo de ti, sim, mas vêm daquele meu ego morto que só contigo renasceu. Pouco me ri e muito mais sofri neste tempo todo. São 30 anos que esperei para escrever e contar. Lutei com a necessidade de dizer e a absoluta impossibilidade de escrever. A cada dia, adiei o que iria escrever ontem. A ideia vinha à memória, mas, logo, logo, se esvaía naquele cansaço imenso que me fazia deixar tudo para amanhã e jamais recomeçar. Tornei-me um esquizofrênico da memória ou de mim mesmo: o que queria e desejava agora me impacientava em seguida e me cansava e aborrecia logo adiante. Tendo tudo para contar, sempre quis esquecer. Por que lembrar o major torturador, os interrogatórios dias e noites adentro? Por que trazer de volta aquele sabor metálico do choque elétrico na gengiva, que me ficou na boca meses a fio? Por que lembrar a prisão em Brasília ou no Rio de Janeiro ou nos quartéis de Ju…

O Espeleólogo, por Paula Giannini

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Quando crescesse queria ser espeleólogo, como o avô, um rapaz de apenas 38 anos. Jovem demais para ser avô. Velho demais para ser considerado um jovem. Sempre suado, visivelmente exausto, mas disposto a contar seu dia ao neto, com um estudado sorriso e pormenores dignos da mais emocionante aventura. Assim havia sido a sua jornada de trabalho, escavara em busca de tesouros e embrenhara-se em obscuras cavernas. Sempre iluminando os buracos com a inseparável lanterninha de cabeça, igual à que dera ao menino quando este completara dez anos. - Agora você já é quase um homem. E descansava sua carrocinha de espeleologista na porta da pequena casa. Para o avô um lugar provisório, de onde assim que a vida permitisse, tiraria sua família. Para o garoto, um castelo, com seu portal adornado com imagens aladas e figuras de longas orelhas esculpidas em pedra. Coisa para gente muito rica. Coisa para os heróis. E o avô-herói retirava maravilhas do carrinho. Latinhas, anéis, medalhas com fotos d…

Juiz de Fora, por Guilherme Preger

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13:00. Faltam 13 minutos para eu sair deste quarto de pensão. A minha Missão estará cumprida se eu sair exatamente às 13:13.
Esses maçons imbecis acham que o PT roubou o número 13 deles. Eles não sabem que esses petistas são estúpidos. Os petistas acreditam nos juízes e no judiciário. Eu acredito no Senhor e em minhas mãos guiadas por Ele. A faca do Senhor está amolada na fé luminosa.
Dizem as Escrituras que eram 12 os apóstolos mais um: Satã, que vivia sempre junto a Judas. Então Judas trouxe o 13º apóstolo. Mas há também quem diga que o 13º apóstolo era Jesus. E Satã é quem guiava Jesus e seus 12 apóstolos.
A Maçonaria é satânica. Todos sabem disso. Os estúpidos petistas acham que as elites brasileiras têm raiva deles por causa do bem que eles fizeram aos pobres. Mentira. As elites têm raiva dos petistas porque eles roubaram o número 13.
A guerra que existe no Brasil é cósmica. Não tem nada a ver com esses néscios seguidores do José Dirceu. É uma guerra de mundos. É uma guerra entre…

Portas da Cidade, por Camilla Agostini

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Muitos morros no Rio de Janeiro viraram cidade. Modos de vida rurais emaranhados numa confusão de vielas, escadas, becos, fiações irregulares, uma arquitetura caótica onde um dia antes foi mata. A vegetação nas proximidades serve de refúgio para criminosos e sem-tetos. Há locais em rochedos e ranchos improvisados que servem de abrigos temporários para figuras como Tião Espiga, ilustre desconhecido da história de Copacabana, um catador de papelão da década de 1950. Lembrado por vizinhos, passava os dias com seus trapos a juntar papelão pelas ruas desse bairro badalado da zona sul. Era como aquelas criaturas monocromáticas que vagam silenciosamente pelo cotidiano, no vai e vem das calçadas da cidade. No fim da tarde, se recolhia em um abrigo rochoso, fazia um fogo e aquecia algum alimento; era também ali onde dormia. Conta a lembrança de uma vizinha, que seu pai a ameaçava, dizendo que chamaria Tião Espiga com seu saco para leva-la embora quando fazia muita bagunça. Tião Espiga era a enc…

A cidade em fuga, por Ana Teresa Jardim (mote)

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A minha história começa em Ipanema, que você conhece. Mas qual? O bairro boêmio dos anos pós-guerra, o paraíso dos hippies? A Ipanema que te peco para lembrar já tinha visto passar metade dos anos 50. Mas na minha percepção as épocas sempre trazem rastros indeléveis das anteriores. Tal vez eu me sinta assim por sempre ter convivido com pessoas de épocas separadas da minha por lapsos muito grandes de tempo. De modo que a atualidade nunca chegava completamente, ou o pelo menos chegava mais devagar. Estava sendo criada, naquele momento, a batida jazzística que misturava o samba ao som e à calma das marés, e a bossa nova era tocada em apartamentos térreos nos prédios de três andares em Ipanema. Brisas noturnas sopravam suavemente da praia ali tão perto, onde se podia caminhar descalços o mundo de Julia e Max tinha o chão atapetado, cigarreiras, tafetá em pó compacto. A pequena cobertura na rua Joaquim Nabuco tinha no chão da sala um tapete cor de coral, que neutralizava com sua tonalidade q…

Lero lero que eu também quero, por Fernando Andrade

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Me dá, disse o garoto de rua. Vai trabalhar vagabundo.  Vai chover canivete, diz o coro.  Estou com fome, me dá! merda. Eu já falei, que para comer o pão o diabo precisar amassar ou deformar. Caralho para com estas imagens idiotas. Estou pedindo um regalo e que passa pelo gargalo. Galopa, cavalo, a quem se mostra os dentes, à cavalo, não se dá por contente. Porra, não tô aguentando mais esta diatribe verborrágica poética. Vai tomar no rabo da sua lagartixa. Se regenere meu jovem, vai para a igreja de São Judas, tá deu?  Eu vou te enfiar a faca, seu poeta de merda, me passa a grana do dia. Eu preciso ir me já. Ficaria aqui por alguns segundos? tomar conta de abacaxis, pera, aí,  tenho algo a lhe contar. O Juvenal tem uma carrocinha comunista. Vende churros e precisa que alguém tome conta. Está disposto a esta enxurrada de tempo is money. Não tenho dialética para engorduramentos, sou mais esta sua barraca legalminosa. ( tradução - leguminosa) Colega se eu te deixar aqui você vai contra…

Espiral, de Geovani Martins

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Começou muito cedo. Eu não entendia. Quando passei a voltar sozinho da escola, percebi esses movimentos. Primeiro com os moleques do colégio particular que ficava na esquina da rua da minha escola, eles tremiam quando meu bonde passava. Era estranho, até engraçado, porque meus amigos e eu, na nossa escola, não metíamos medo em ninguém. Muito pelo contrário, vivíamos fugindo dos moleques maiores, mais fortes, mais corajosos e violentos. Andando pelas ruas da Gávea, com meu uniforme escolar, me sentia um desses moleques que me intimidavam na sala de aula. Principalmente quando passava na frente do colégio particular, ou quando uma velha segurava a bolsa e atravessava a rua pra não topar comigo. Tinha vezes, naquela época, que eu gostava dessa sensação. Mas, como já disse, eu não entendia nada do que estava acontecendo. As pessoas costumam dizer que morar numa favela de Zona Sul é privilégio, se comparamos a outras favelas na Zona Norte, Oeste, Baixada. De certa forma, entendo esse pens…