O conto da Aia, por Margaret Atwood

Fico sentada em meu quarto, junto da janela, esperando. Em meu colo há um punhado de estrelas amassadas.
Esta poderia ser a última vez que tenho de esperar. Mas não sei o que estou esperando. O que você está esperando?, costumavam dizer. Isso significava apresse-se. Não se esperava nenhuma resposta. Pelo que você está esperando é uma pergunta diferente, e não tenho resposta para ela tampouco.
Entretanto não é esperar, exatamente. É mais como um forma de suspensão. Sem suspense. Finalmente não há tempo.
Estou em desgraça, o que é o oposto da graça. Deveria me sentir pior quanto a isso.
Mas sinto-me serena, em paz, impregnada de indiferença. Não deixe que os bastardos esmaguem você. Repito isso para mim mesma, mas não me transmite nada. Seria a mesma coisa que você dizer: Que não haja ar; ou: Não seja.
Suponho que você poderia dizer isso.

Não há ninguém no jardim.
            Gostaria de saber se vai chover.

Lá fora, a luz está pouco a pouco se apagando. Já está avermelhada. Logo estará escuro. Agora, neste instante, já está mais escudo. Não demorou muito.
Há uma variedade de coisas que eu poderia fazer. Poderia atear fogo na casa, por exemplo. Poderia empilhar algumas de minhas roupas e os lençóis, e acender meu único fósforo escondido. Se o fogo não pegasse, estaria acabado. Mas se pegasse, haveria pelo menos um acontecimento, um sinal de algum tipo para marcar minha saída. Algumas chamas, que seriam facilmente apagadas. Enquanto isso eu poderia produzir nuvens de fumaça e morrer sufocada.
            Poderia rasgar os lençóis de minha cama em tiras e torcê-los numa corda ordinária e amarrar uma ponta na perna de minha cama e tentar quebrar a janela. Que é inquebrável.
            (...)
            Em vez disso, poderia fazer um laço ao redor do pescoço com os lençóis da cama, pendurar-me no armário, arremessar meu peso para a frente, sufocar até morrer.
            Poderia me esconder atrás da porta, esperar até ela vir, mancando pelo corredor, trazendo qualquer que seja a sentença, penitência, punição, saltar em cima dela, derrubá-la, chutá-la com violência e precisão na cabeça. Para acabar com seu sofrimento e o meu também. Acabar com nosso sofrimento.
            Isso pouparia tempo.
            Eu poderia caminhar em passo comedido, descer as escadas e sair pela porta da frente e seguir pela rua, tentando parecer que sei para onde estou indo, e ver até onde conseguiria chegar. Vermelho é tão visível.
            Considero todas essas possibilidades ociosamente. Cada uma delas parece ter a mesma medida que todas as outras. Nem uma parece preferível. A fadiga está aqui, em meu corpo, em minhas pernas e olhos. Isso é o que derruba você no final. Fé é apenas uma palavra bordada. 

(Mote lido por José Fontenele para o encontro de 27/11/2018)





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