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Mostrando postagens de Outubro, 2019

O silêncio, por Amílcar Bettega

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Por uma espécie de abulia inata, ele foi renegando a palavra. Entregava-a aos outros em generosas porções de silêncio, nas quais eles, os outros, serviam-se com avidez e um instinto de se sobrevivência que, para ele, estava próximo do comportamento dos animais. Secretamente regozijava-se ao vê-los, os outros, embrutecidos e rasteiros, tão distantes do destino nobre que desde o início já sentia desenhado para ele. Mas não desconfiava que o regozijo, o qual – num esforço sincero para anular qualquer sentimento de superioridade - ele repudiava, podia ser uma forma de defesa e que na base de tudo estava a sua incapacidade para exercer a palavra, para se fazer ouvir. Ou melhor, para expressar o que queria que fosse ouvido. Não, não era uma incapacidade, ele pensou, já tarde demais. Mas mesmo que já fosse tarde ele continuou a pensar e convenceu-se de que uma sucessão de ausências concorrera para produzir aquele caráter particular que agora lhe pesava tanto. Ausência de coragem, de vitalid…

Dresden, por Camilla Agostini

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Conheci um sujeito das bandas de lá. Ele contava que quando criança esperavam os tios virem visitar. Era quando traziam presentes da Alemanha Ocidental. Ficara radiante, já adolescente, com a chegada do jeans em uma dessas visitas. Aos dezenove anos tentou fugir, atravessando a fronteira pela floresta. Como muitos alemães, guardava memórias antigas do tempo da guerra, mesmo aquelas herdadas ou as ouvidas quando esteve preso, por ousar ter outra escolha àquela que lhe oferecia o seu país. Contava que a primeira coisa que os russos faziam no tempo da guerra, ao invadirem uma cidade, era retirar o sino da igreja. Disse isso como se fosse evidente, acompanhado de um silêncio imperativo. O tempo, regulado pelas badaladas, não estaria mais nas mãos de Deus, era esse o recado? Contava também que os casais, quando os homens partiam para a guerra na Rússia, lavavam os pés um do outro, em um ritual de despedida e de afeto, pois não sabiam quando, ou mesmo se, iriam se reencontrar. Conheci também …