terça-feira, 25 de abril de 2017

O Banho, de Raduan Nassar

O BANHO

Debaixo do chuveiro eu deixava suas mãos escorregarem pelo meu corpo, e suas mãos eram inesgotáveis, e corriam perscrutadoras com muita espuma, e elas iam e vinham incansavelmente, e nossos corpos molhados vez e outra se colavam pr’elas me alcançarem as costas num abraço, e eu achava gostoso todo esse movimento dúbio e sinuoso, me provocando súbitos e recônditos solavancos, e vendo que aquelas mãos já me devassavam as regiões mais obscuras — vasculhando inclusive os fiapos que acompanham a emenda mal cosida das virilhas (sopesando sorrateiras a trouxa ensaboada do meu sexo) — eu disse “me lave a cabeça, eu tenho pressa disso”, e então, me tirando do foco da ducha, suas mãos logo penetraram pelos meus cabelos, friccionando com firmeza os dedos, riscando meu couro com as unhas, me raspando a nuca dum jeito que me deixava maluco na medula, mas eu não dizia nada e só ficava sentindo a espuma crescendo fofa lá no alto até que desabasse com espalhafato pela cara, me alfinetando os olhos na descida, me fazendo esfregá-los doidamente com o nó dos dedos, ainda que eu soubesse que eles, ardendo, anunciavam francamente o meu asseio, e não demorou ela me puxou de novo sob a ducha, e seus dedos começaram a tramar a coisa mais gostosa do mundo nos meus cabelos co’a chuva quente que caía em cima, e era então um plaft plaft de espuma grossa e atropelada, se espatifando na cerâmica co’a água que corria ruidosa para o ralo, e ela ria e ria, e eu ali, todo quieto e largado aos seus cuidados, eu sequer mexia um dedo pra que ela cumprisse sozinha esse trabalho, e eu já estava bem enxaguado quando ela, resvalando dos limites da tarefa, deslizou a boca molhada pela minha pele d’água, mas eu, tomando-lhe os freios, fiz de conta que nada perturbava o ritual, e assim que ela fechou o registro me deixei conduzir calado do box para o piso, e, ligado numa ligeira corrente de arrepios, fiquei aguardando até que ela me jogou uma ampla toalha sobre a cabeça, cuidando logo de me enxugar os cabelos, em movimentos tão ágeis e precisos que me agitavam a memória, e com os olhos escondidos vi por instantes, embora pequenos e descalços, seus pés crescerem metidos em chinelões, e senti também suas mãos afiladas se transformarem de repente em mãos rústicas e pesadas, e eram mãos minuciosas que me entravam com os dedos pelas orelhas, me cumulando de afagos, me fazendo cócegas, me fazendo rir baixinho sob a toalha, e era extremamente bom ela se ocupando do meu corpo e me conduzindo enrolado lá pro quarto e me penteando diante do espelho e me passando um pito de cenho fingido e me fazendo pequenas recomendações e me fazendo vestir calça e camisa e me fazendo deitar as costas ali na cama, debruçando-se em seguida pra me fechar os botões, e me fazendo estender meus pesados sapatos no seu regaço pra que ela, dobrando-se cheia de aplicação, pudesse dar o laço, eu só sei que me entregava inteiramente em suas mãos pra que fosse completo o uso que ela fizesse do meu corpo.

Um copo de cólera: Raduan Nassar, São Paulo, Cia das Letras, 1992. p. 21-24.

Raduan Nassar (Pindorama, 27 de novembro de 1935) é um escritor brasileiro galardoado com o Prémio Camões em 2016.
Na adolescência foi para São Paulo com a família onde cursou direito e filosofia na Universidade de São Paulo (USP). Estreou na literatura no ano de 1975, com o romance Lavoura Arcaica. Em 1978 foi publicada a novela Um Copo de Cólera, que fora escrita em 1970. Em 1997 foi publicada a obra Menina a caminho, reunindo seus contos dos anos 1960 e 1970.
Com apenas três livros publicados é considerado pela crítica como um grande escritor e comparado a nomes consagrados da literatura brasileira, como Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Tudo isso graças à extraordinária qualidade de sua linguagem e força poética da sua prosa. Cultuado por um pequeno círculo de leitores, Raduan tornou-se mais conhecido pelo público em geral com as versões cinematográficas de Um copo de cólera e Lavoura Arcaica.
Após a sua estreia na literatura, deixou de escrever em 1984, e mudou-se para seu sítio em sua cidade natal. Atualmente mora na cidade de Buri, no interior de São Paulo. Em 2010, anunciou a doação de uma fazenda de 643 hectares em Buri para a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A fazenda Lagoa do Sino tornou-se sede do quarto campus da UFSCar, inaugurada em março de 2014.
Fonte: Wikipédia


Mote lido por André Salviano para o encontro do dia 2 de maio de 2017



O Deus da Carnificina, de Yasmina Rezza






ANNETTE                    Vocês têm outros filhos?

VERÔNICA                  O Bruno tem uma irmã de nove anos, a Camila. Que está zangada com o pai dela porque ele se livrou do hamster ontem à noite

ANNETTE                             Se livrou do hamster?

MICHEL                       Me livrei. Hamsters fazem um barulho medonho à noite. São seres que dormem de dia. O Bruno não aguentava mais, estava ficando maluco com o barulho que o hamster fazia. Para dizer a verdade, há muito tempo que eu tinha vontade de me livrar dele, aí eu pensei: não, agora chega, então eu o peguei e coloquei na rua. Eu achava que esses animais gostavam das sarjetas, dos esgotos, nada disso, ele ficou petrificado na calçada. Na verdade, não são nem animais domésticos, nem animais selvagens, não sei qual é o meio natural deles. Se forem largados numa clareira, eles também ficam tristes. Não sei onde podem ser colocados.

ANNETTE                             Deixou o pobrezinho lá fora?

VERÔNICA                  Deixou e disse para a Camila que ele tinha fugido. Mas ela não acreditou.

ALAIN                                   E de manhã o hamster tinha desaparecido?

MICHEL                                 Desapareceu.

VERÔNICA                           E você, é de que área?

ANNETTE                             Sou conselheira em gestão de patrimônio.

VERÔNICA                  Seria pedir demais… me desculpem por ser tão direta, que o Ferdinando se desculpasse com o Bruno?

ALAIN                                   Seria bom que eles se falassem.

ANNETTE                    Ele tem que se desculpar, Alain. Tem que dizer para ele que sente muito.

ALAIN                          Sim, sim, Com certeza.

VERÔNICA                           Mas ele sente muito?

ALAIN                          Ele se dá conta do que fez. Não tinha noção do tamanho do estrago. Ele só tem onze anos.


VERÔNICA                           Com onze anos, ele já não é nenhum bebê.

Tradução: Eloisa Araújo RIbeiro

(mote vencedor lido por Danielle para o encontro de 02/05/2017)


sábado, 8 de abril de 2017

Caderno de um ausente, de João Carrascoza (vídeo)


“A tua história, Bia, é o bem mais precioso que tens, ainda que não venha a ser grandiosa, é a tua história que te dará a medida de estar no mundo, ela é que exorbita ou reduz o teu valor perante ti mesma e perante a misteriosa avaliação dos outros ___ não há como te esterilizar do passado (que veio de mim e de tua mãe e já se aderiu ao teu espírito feito solda), qualquer história, enquanto se desdobra, é um reino de possibilidades, uma história, quando a escrevemos, delineia aquilo que poderia ser, nunca o que foi nem o que é, porque a memória (o passado) só se revigora se a formulamos de novo (no presente), retocando a luz de sua trama com o grafite das trevas, a tua história, Bia, há de ser mais uma cicatriz que se somará a outras nas páginas de rosto da nossa família, e eu te louvo, filha, por aqui estar, fio de água, no broto de tua nascente, pra cumprir o teu curso, e eu te peço perdão, outra vez, por não poder te poupar das chagas que te esperam lá na frente, nem ter o unguento que a amenizará a ausência, seja a minha, seja a de quem um dia te abandonar, eu não posso te dizer o contrário, que é possível a gente se curar dos outros – eu, nem de mim, até hoje, me curei – e é justo, embora seja precoce pra teu entendimento, deixar claro, que é um erro qualquer tentativa de esconder a verdade, ninguém sabe, filha, se o que bebe é água ou vinho, se só um deles provou, e, mesmo assim, há quem soube (e continuará sabendo) transformar um em outro, há quem consiga andar displicente sobre ondas em fúria, há quem consiga serenar a plateia com relatos desesperados;”
Caderno de um ausente: João Carrascoza, São Paulo, Cosac Naify, 2014. p. 53-54

João Anzanello Carrascoza (Cravinhos, interior de São Paulo, 1962) é um escritor e professor universitário brasileiro.
Estreou-se com o livro Hotel Solidão (1994). Publicou vários livros de contos, como Duas tardes (2002), Espinhos e alfinetes (2010), Amores mínimos (2011), O volume do silêncio (2006, prêmio Jabuti) e Aquela água toda (2012, prêmio APCA).
Em seu primeiro romance, Aos 7 e aos 40 (Cosac Naify, 2013), Carrascoza escreveu que “o presente é feito de todas as ausências”. Em Caderno de um ausente (Cosac Naify, 2014), essa ideia se materializa de forma contundente, alçada por um lirismo poucas vezes visto na literatura brasileira.
Fonte: Wikipédia


Mote lido por André Salviano para o encontro do dia 18 de abril de 2017