sábado, 8 de abril de 2017

Caderno de um ausente, de João Carrascoza (vídeo)


“A tua história, Bia, é o bem mais precioso que tens, ainda que não venha a ser grandiosa, é a tua história que te dará a medida de estar no mundo, ela é que exorbita ou reduz o teu valor perante ti mesma e perante a misteriosa avaliação dos outros ___ não há como te esterilizar do passado (que veio de mim e de tua mãe e já se aderiu ao teu espírito feito solda), qualquer história, enquanto se desdobra, é um reino de possibilidades, uma história, quando a escrevemos, delineia aquilo que poderia ser, nunca o que foi nem o que é, porque a memória (o passado) só se revigora se a formulamos de novo (no presente), retocando a luz de sua trama com o grafite das trevas, a tua história, Bia, há de ser mais uma cicatriz que se somará a outras nas páginas de rosto da nossa família, e eu te louvo, filha, por aqui estar, fio de água, no broto de tua nascente, pra cumprir o teu curso, e eu te peço perdão, outra vez, por não poder te poupar das chagas que te esperam lá na frente, nem ter o unguento que a amenizará a ausência, seja a minha, seja a de quem um dia te abandonar, eu não posso te dizer o contrário, que é possível a gente se curar dos outros – eu, nem de mim, até hoje, me curei – e é justo, embora seja precoce pra teu entendimento, deixar claro, que é um erro qualquer tentativa de esconder a verdade, ninguém sabe, filha, se o que bebe é água ou vinho, se só um deles provou, e, mesmo assim, há quem soube (e continuará sabendo) transformar um em outro, há quem consiga andar displicente sobre ondas em fúria, há quem consiga serenar a plateia com relatos desesperados;”
Caderno de um ausente: João Carrascoza, São Paulo, Cosac Naify, 2014. p. 53-54

João Anzanello Carrascoza (Cravinhos, interior de São Paulo, 1962) é um escritor e professor universitário brasileiro.
Estreou-se com o livro Hotel Solidão (1994). Publicou vários livros de contos, como Duas tardes (2002), Espinhos e alfinetes (2010), Amores mínimos (2011), O volume do silêncio (2006, prêmio Jabuti) e Aquela água toda (2012, prêmio APCA).
Em seu primeiro romance, Aos 7 e aos 40 (Cosac Naify, 2013), Carrascoza escreveu que “o presente é feito de todas as ausências”. Em Caderno de um ausente (Cosac Naify, 2014), essa ideia se materializa de forma contundente, alçada por um lirismo poucas vezes visto na literatura brasileira.
Fonte: Wikipédia


Mote lido por André Salviano para o encontro do dia 18 de abril de 2017


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