Encantos, de Gabriel Cerqueira

A infinitude do salão proporcionada pelos amplos espelhos adornados com madeira de jacarandá encantava Martim. A luz amarelada dos lustres derramava-se como ouro intangível em damas e cavalheiros. As joias das mulheres reluziam como estrelas em suas orelhas, colos e pulsos. O ar etéreo estava inebriado pela fumaça de cachimbos e charutos, o aroma do café, chocolate, doces de ovos, numa volúpia que parecia ser abençoada pelos céus.
Martim entrou na Confeitaria Colombo meio acanhado. Aproveitando a hora preguiçosa entre o almoço e o chá da tarde na confeitaria, sentou a uma mesa no centro do salão; era a primeira vez que transpassava o balcão na entrada. Mesmo de família lá dos cafundós do Engenho de Dentro, Martim era chegado ao requinte da boemia dourada dos grandes salões, restaurantes, livrarias. Muitas das vezes ele sacrificava uma boa refeição ao poupar dinheiro para comprar o terno da moda.
O garçom anotou o pedido de Martim, trazendo logo em seguida torradas tostadas na manteiga e geleia de amora. As altas aspirações de Martim conviviam com a contraparte bruta que lhe servia de peso de balança para manter o equilíbrio. Ele era um jovem simples e ignorante que se revestia de adornos intelectuais para manter as aparências, desde que soasse respeitável perante os mais ignorantes que ele. Para isso, Martim escrevia.
Terminou de comer as torradas e chamou o garçom, pediu um mil-folhas de creme e café puro. Enquanto comia, Martim observava o seu redor e escrevia num pequeno caderno. Sua curiosidade recaiu em um grupo que estava numa mesa perto da parede, bem em frente a um dos espelhos. Cinco homens participavam da conversa. Um deles, o único negro no salão, parecia comandar a conversa. Suas palavras eram firmes e as ideias afiadas como um machado. Martim reconheceu Euclides da Cunha, que estava ao lado do negro, e Olavo Bilac, ao ver o semblante do poeta refletido no espelho. A Confeitaria Colombo era um dos pontos nevrálgicos da capital, era ali que diversos intelectuais incumbidos de criar a cultura brasileira alheia a Portugal se reuniam.
Martim terminava de comer o doce quando ouviu Olavo dizer que Rui Barbosa se reuniria a eles no dia seguinte para o chá da tarde. O jovem tremeu. O senador da república era alguém que lhe inspirava admiração, modelo de criatura humana para Martim. Ele se levantou, pagou a conta e foi para casa, ansioso pelo dia porvindouro.
No dia seguinte o sino da igreja anunciava 17h no Largo de São Francisco. Martim caminhava o mais rápido que podia pela Rua do Ouvidor, que estava abarrotada de gente. Atrasara-se, como sempre fazia, e se amaldiçoava por isso. Quando parte da calçada ficou livre, desafogando o intenso trânsito de pedestres, uma mulher negra saiu do armazém do Paula. Ela carregava um pesado saco de juta cheio de tecidos numa mão, e na outra levava o bebê adormecido. A mulher caminhava devagar e estava bem na frente de Martim. Ele a amaldiçoou mentalmente, atentou até mesmo contra o passado da cor da mulher.
Em meio ao caos dos transeuntes e da ira interna de Martim, a mulher beijou o bebê levemente e continuou seu caminhar lento e vacilante. Martim viu e ficou em choque. Para ele aquele havia sido um momento de pura ternura. O ato singelo foi tão sutil que duvidava que os lábios da mulher tinham tocado a fronte da criança, que permaneceu adormecida. Fora um ato gratuito de amor. Martim sentia vergonha de si mesmo. Percebeu os olhares maldosos e zombeteiros que seguiam a negra, o deboche de alguns adolescentes para com a mulher, a desconfiança dos comerciantes pelos quais ela passava. Era um hipócrita por admirar um abolicionista e perpetuar o pensamento racista e escravocrata.
Martim chegou na Confeitaria Colombo. O que antes lhe deslumbrava agora parecia inócuo. O jovem estava desnudo de alma, sem a capa de soberba que carregava sobre os ombros. Rui Barbosa estava cercado por jornalistas e personalidades ilustres, entre eles o Assis; finalmente reconhecera o homem negro que vira no dia anterior. Martim também viu Bento, um vizinho lá do Engenho de Dentro, com sua característica carranca a um canto do salão; ele se identificou com o aspecto miserável de Bento. Como a confeitaria estava cheia, Martim bebeu um café no balcão e observou Rui de longe.
A luz dourada se espalhava pela calçada escura e sem movimento. Martim saiu da confeitaria enquanto ela ainda estava agitada. Ele caminhou a esmo pelas ruas desertas do centro do Rio de Janeiro, percebendo a cidade de modo mais real. Sentou na calçada da Rua Gonçalves Dias, pois assim de sentia mais vivo, sua existência tendo sido relegada à sarjeta.
– No mesmo chão em que está sentado pisam os ricos, pobres, putas ou santas — disse uma voz vacilante na escuridão.
Era um homem bêbado que estava sentado no batente de uma porta, longe da luz do poste da rua. Martim não se assustou, apenas acolheu a presença do homem, que continuou dizendo:
– Fugiu dos salões, hein? — Martim não sabia se o homem falava com ele ou com alguém imaginário — Também os abandonei, porque não é lá onde acontece a vida. Tudo que resta neles é o simulacro… Le petit dandy disse que a rua tem a alma encantadora… E hei de concordar com ele — e o homem calou-se.
Martim ouviu gargalhadas perto de onde estava. Ele se levantou e caminhou alguns metros até a cave de Vasco Guimarães, que estava repleta de gente festejando. Pequenos núcleos de conversa orbitavam uma roda maior com dois violeiros e um percursionista, de pandeiro na mão. Um dos violeiros — chamavam-no de Noel –, combinava o ritmo com seus companheiros. A bebida era barata, o ambiente era quente, repleto de harmonia prodigiosa, fumavam cigarros, uma mulher de olhos castanhos, encantadora aos olhos de Martim, cantarolava um samba. Noel e seus companheiros começaram a tocar, a clientela cantou em uníssono e Martim se sentiu vivo.
(Conto vencedor do encontro de 03/04/2018)
Gabriel Cerqueira é recôndito das aspirações altas e nobres e lúcidas.


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