Mais uma chance - Beatriz Moreira Lima



Mais uma chance


Era aniversário de sua mulher. A casa da sogra estava cheia. Família dela, dele e também os amigos mais próximos de ambos, muitos deles com os respectivos filhos. A feijoada estava sendo servida ao som do conjunto de chorinho de seu cunhado: eles insistiram que comeriam apenas quando todos os demais estivessem servidos. O clima de alegria era insuportável. Quanto mais gente, mais música, mais comida, mais alegria, mais abraço e confraternização, mais sozinho ele se sentia.

Estava completamente sozinho. Na verdade, era sozinho. Ele e todo mundo que estava ali. Só que os outros se iludiam; ele, não mais. Sua mulher é sua companheira, diriam. Aliás, ela mesma diria. Vou ficar ao seu lado para sempre. Pode contar comigo pro que der e vier. Alguns fingiriam entender, quando obviamente não entenderiam nada. Impossível entender a vida do outro. Mas, tua família te apoia, argumentariam. Apoio. Ok. Minha família me apoia. Legal. 

- Felipe!... Vem, amor, vem fazer o seu prato... – sua mulher se pendurou em seu pescoço, deu-lhe um beijinho e seguiu em direção à cozinha, onde sua mãe a chamava. Não tinha o menor apetite, mas era melhor comer para não dar motivo para questionamentos. Seu filho já estava servido e comia sentado num dos melhores lugares da sala, com fones nos ouvidos. Em condições normais, ele o repreenderia. Hoje, não. Foda-se. Melhor que fosse se acostumando. 

Sua filha, linda!, passada a fase em que quase os levara à loucura, anunciando ser uma trans não binária, estava muito feliz com a namoradinha nova, simplesmente lésbica ou bissexual, o que já era bastante, mesmo para a família moderninha de sua mulher. Na verdade, até hoje ele não tinha entendido direito toda essa questão, mas apreciara a mudança de trans não binária para trans fluida, mesmo porque ultimamente estacionara um pouco de volta no feminino, ainda que lésbico, e tirara a atadura dos seios. Seus pais, feliz ou infelizmente, não saberia precisar, já não estavam vivos. Se estivessem, seria um deus nos acuda, com certeza... 

Tinha saudades de sua mãe. Talvez fosse ela a única pessoa que realmente estaria com ele, agora, e poderia fazê-lo sentir-se menos só. Sofreria mais que ele, contudo, e isso não lhe faria bem algum. Nenhuma mãe merece ver um filho morrer. Porque foi isso que o médico lhe disse ontem: que morreria. Sua doença não tinha cura ou tratamento, dispunham apenas de paliativos. Era mera questão de tempo. 

Então, como é que poderia não estar sozinho? Alguém morreria com ele? Sua mulher? Seus filhos? Seus amigos? Não. Ele morreria sozinho. Eles o apoiariam, sofreriam e até diriam entendê-lo. Mas ele morreria sozinho. 

O médico dissera que ele devia se preparar e preparar sua família. Ofereceu o telefone de um psiquiatra, psicanalista, psicólogo, tanto faz... Não iria mesmo... Não queria contar para ninguém. Não queria ser confortado. Tentariam dividir sua dor, mas ela apenas se multiplicaria. Melhor continuar bem sozinho. Ainda tinha esperança de esquecer, ou, quem sabe, acordar.
Serviu o feijão sobre o arroz, com a farofa e a couve ao lado. Escolheu um bom pedaço de paio e outro de carne seca. Pra finalizar, espalhou uns torresmos por cima do feijão e salpicou o molho de pimenta. Ah!, e um pedaço de laranja, que não pode faltar...

Sentou-se no lugar do filho, que tinha ido pegar o repeteco. Ao menos comeria uma bela refeição sem culpa, pensou, enquanto aceitava um copo de cerveja que o garçom lhe oferecia. Tomou um gole e, quando foi dar a primeira garfada, percebeu que o conteúdo do seu prato, tão cuidadosamente preparado, fora magicamente transformado em uma única e solitária folha de alface. De repente, começou a soar um alarme forte, a música parou e todos correram em direção à saída. Sua mulher veio ao seu encontro, gritando, Felipe! Felipe!

- Acorda, amor, você vai se atrasar para a consulta...


Conto escrito para o encontro de 21/ 07/ 2015




Beatriz Moreira Lima nasceu em 1970, é funcionária pública, mas sempre gostou de escrever. Teve um filho em 1998, publicou um livro em 2008 (“Tempos Férteis”, editora 7 Letras) e até 2018 pretende plantar uma árvore para completar a sua minibiografia. Enquanto isso, frequenta o Clube da Leitura.

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