Segunda-feira - Ana Claudia Calomeni



Segunda-feira

Ouço o despertador gritando no quarto dos meninos. Acordo, olho o relógio. Seis da manhã. Tão cedo ainda e o pensamento já tenta macular o que ainda resta do final de semana enfiando-se em minha tímida vigília com contas pra pagar, horários pra cumprir, trabalho chato pra fazer. Apesar das cortinas fechadas, da cama sinto que o dia ainda não nasceu completamente. Ele também tem preguiça. Afundo meu corpo no colchão quente, agradecendo por estar assim tão cansada. Adormeço de novo e sonho com um bebê que requer cuidados.

Seis e 35. Agora é o meu despertador que reclama, estridente. Ouço barulho no quarto dos meninos, vou até lá, bom dia rapazes!, ofereço suco, pão, vitamina. Me arrasto até a cozinha e por um instante estranho a bagunça e a quantidade de pratos e copos sujos dentro da pia. Acho uma sacanagem o domingo invadir assim a segunda-feira sem que a gente possa fazer nada pra trazer o final de semana de volta. Sinto uma dor no estômago, é a segunda-feira invadindo a vida. Abro a geladeira, um vento gelado alcança minhas narinas e se espalha pelas bochechas até chegar nas orelhas. O gato eriça os pelos, reclamando do frio. Estremeço com ele e lhe sirvo um pouco de leite gelado. Ele aproxima o focinho do pires, mas recua assustado e balança nervoso a cabeça de um lado pro outro pra livrar seus imensos bigodes finos do frio do leite. Olha pra mim, esfrega o corpo em minhas pernas, ronrona e volta pro pires, abatido pela fome. Aperto o botão de on do liquidificador e me assusto com o barulho do aparelho. O gato interrompe por um instante seu café da manhã, pousa os olhos em mim, mas logo os desvia, fixando-os em algo que não consigo enxergar. No apartamento de baixo, uma mulher conversa com uma criança, pergunta sobre o final de semana em Minas. Ouço uma vozinha que a tudo responde, algumas risadas da mulher. Sorrio discreto, apenas com o canto dos lábios. É o máximo que consigo numa segunda-feira de manhã. No caminho de volta pro quarto consigo ver o sol já colorindo os prédios mais altos lá do outro lado da rua, anúncio de mais um dia morno de outono. Aviso aos garotos que o dinheiro pro metrô está em cima da mesa da sala e peço que não se esqueçam de apagar a luz do quarto que a conta de luz tem vindo altíssima.

Seis e 55, ainda dá tempo pra enfiar uma roupa e correr pra academia. Mas assim tão cedo? Mergulho embaixo das cobertas, ouço o silêncio da casa e decido que é nele que quero ficar.
Pego um livro e já na primeira página os olhos reagem, as linhas se embaralham, o pensamento vaga e um homem sem rosto aparece me trazendo uma dúzia de rosas cor de salmão, que eu planto, uma a uma, em cada canto da casa.
 
Conto escrito para o encontro de 23/06/2015


Ana Claudia é carioca e acredita na força das formigas. E dos ventos. E das coisas que não se veem.

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