Prédio de cinco andares - Igor Dias



Prédio de cinco andares



Cobertura: Fátima e Lourdes são casadas há vinte anos e acabaram de adotar uma menina. Chamaram-na de Ruth, sob os protestos de todos os seus amigos, que diziam que Ruth era nome de velha.

501: Seu Pedro está há dois dias morto dentro do apartamento, sem despertar a suspeita dos vizinhos.
502: Felisberto toca flauta transversa e faz mestrado em música popular. Mora com a mãe, Dona Avelina, surda e reclamona, de sorte que Felisberto cogita levá-la para um asilo.
503: Úrsula é vendedora numa loja de roupas. Estuda administração e recebe a visita do seu namorado, Isaías, regularmente às segundas, quartas e sextas.
504: Teresa é professora de química numa escola estadual. Seus dois filhos moram em Goiânia, onde foi criada. Teresa morre de saudades de Goiás. Semana passada, um aluno apontou uma arma para a sua cabeça.
401: Ricardo e Clementina moram juntos há dez anos e não são casados no papel. Ricardo tem três amantes, Clementina tem quatro.
402: Rogério é um dos amantes de Clementina, do 401. Muito cuidadoso com o corpo, já transou três vezes com Ricardo (marido da Clementina), que sempre alega estar bêbado quando isso acontece.
403: Lilith é sistematicamnete abusada pelo pai e, esporadicamente, pelo tio Francisco, que não mora com eles. Sua mãe, Ana Nádia, é alcoólatra e prefere não entrar em grandes detalhes sobre a vida da filha.
404: Gustavo morava sozinho até o ano passado, quando Rose engravidou e veio morar com ele. Tendo que formar uma família a contragosto, Gustavo hesita entre permanecer como jardineiro ou começar o curso técnico de eletromecânica.
301: Francisco e Roberta se casaram virgem e tiveram dois filhos: Jurema e Kléber. Se apertam para pagar as contas, mas parecem felizes.
302: Valéria é prostituta e recebe seus clientes em casa. Já quase foi expulsa do prédio por duas vezes. Na última semana, um cliente jogou uma garrafa de vinho contra ela, que se feriu no braço esquerdo e ficou três dias sem trabalhar.
303: Maria é viciada em cocaína. Vendeu todos os móveis da casa e começou a cometer pequenos furtos. É apaixonado por Lucas, que está preso por homicídio doloso em Salvador.
304: Gorete e Carlos são casados. Moram junto com eles as duas primas de Carlos, Jéssica e Roberta, a mãe de Carlos, Dona Delfina e um aigo de Carlos, Beto, que acabou de perder o emprego que tinha numa transportadora. A casa é pequena, mas o amor é grande.
201: Seu Pereira, o síndico, é viúvo há oito anos. Sua única filha, Debora, mora na Inglaterra e vem de vez em quando no Natal.
202: Está para alugar.
203: Está para vender.
204: Pedro está no terceiro período de Letras. Não tem certeza se é isso o que quer da vida. Já tentou o suicídio duas vezes.
101: Dona Ruth mora sozinha e sofre de mal de Alzheimer.
102: Leila e Mauro, recém-casados, brigam todas as noites.
103: Dona Ruth, que sempre recebe as cartas de sua homônima do 101,  mora sozinha e luta contra um câncer no baço.
104: Está para alugar.
Casa do porteiro: Seu Zezinho, o porteiro, mora numa casa nos fundos do prédio como se fosse uma senzala. Não tem sonhos, não tem ambições, mas curiosamente, também não tem tristezas. Pedro, do 204, fantasia que ele está escrevendo um livro, mas que não será sobre a vida comezinha das pessoas do prédio: será um romance fantástico, como Harry Potter.








Conto escrito para o encontro de 21/ 07/ 2015





Igor Dias nasceu no outono de 1987, na cidade do Rio de Janeiro. Participa dos coletivos literários "Clube da Leitura" e "Caneta, Lente & Pincel". É autor dos livros "Além dos Sonetos Breves" (poesia)  e "Dinamarca" (contos) ambos lançados pela Editora Oito e Meio em 2012 e 2015, respectivamente.

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