Quem ama não mata: manda matar - Walter Macedo Filho



ANTES DE LER O CONTO, O AUTOR TEM UM RECADO: “Amigos, quem estiver em Paraty durante a Flip 2015, aproveite para conhecer meu livro Nebulosos (Ed. 7Letras) que estará à venda na Livraria Das Marés (Rua Ten. Francisco Antônio, 352 - Centro Histórico), ao lado da Pousada Literária. Divulguem também para seus amigos."


Quem ama não mata: manda matar

Pra mim, caso entre homem e mulher tem muito a ver com umas sabedorias do tipo “quem muito quer, nada tem”, ou “cavalo dado não se olha os dentes”, “mais vale um pássaro na mão”... essas porras aí que a gente lê na Bíblia, ou no jornal, sei lá. Caso entre homem e mulher, pra mim, é coisa sagrada. Tipo casamento. E eu até poderia dizer que já fui casado. Eu me considerava casado, comprometido. Mas, pra não me comprometer nessa história, vou chamá-la de Fulana.

Cuidei de Fulana. Nisso, eu estou sossegado. Fulana teve do bom e do melhor. Nunca deixei Fulana trabalhar. Nem precisava. O sustento era por minha conta. Eu só queria chegar em casa e sentir o cheirinho de comida e o cheirinho de mulher, as duas coisas que fazem a vida valer a pena.  E, assim, a gente foi levando.

Mas, esta semana, aconteceu um negócio raro no trabalho: eu tive uma janela no meio do dia. O patrão precisava entregar um papel no banco e pediu para eu levar. Ele sabia que era pros lados da minha casa e disse que eu nem precisava voltar naquele dia. O cara é legal. Saí logo depois do almoço. Fiz a entrega e, pra inventar alguma coisa pra não começar a beber tão cedo, me meti num cinema ali perto, um tipo de coisa quer eu faço uma vez na vida e outra na morte. Rapaz, eu nunca imaginei que cinema durante o dia fosse tão vazio. Sentei lá, tranquilo, parecendo um milionário. Daí, no corredor do outro lado, vi Fulana entrar. Gelei... não por minha causa, mas por causa dela. O problema nem era Fulana estar no cinema sem ter me avisado. É que Fulana estava com Sicrana! É sério. Minha mulher estava no cinema com outra mulher. Pensei comigo:

- Que história é essa?

Não é “a ‘história’ do filme que ia passar”, mas “a história da minha vida” que, naquela hora, passou na minha cabeça como um filme. Fulana e Sicrana no cinema... à tarde... assim...? Aí não dá. Deixei quieto. Mais tarde chego em casa e coloco os pingos nos “is” e pronto. Da próxima vez, me avisa antes e tudo bem. Mas o roteiro era diferente, bem do tipo “original”. Fiquei só assistindo. O filme começou e eu nunca tinha visto um amasso tão apaixonado. Mas a cena não era no filme. Era Fulana e Sicrana. Senti muito mais que ciúme. Senti inveja. Um sujeito pode ter chifre, é quase natural. Mas um chifre cor-de-rosa...
Pensei comigo de novo:

- Senhor, dai-me paciência, porque saco eu já não tenho mais.

Se me perguntarem sobre o filme, não sei nada. Quando as letrinha começaram a subir, meu sangue subiu junto... e quase ferveu. Fui o primeiro a sair da sala. Fiquei bem na frente da porta dupla e a dupla saiu agarrada, mãos trançadas e riso na cara. Tomaram um susto. Só pedi que viessem comigo. Obedeceram.  Dei uma carona para as duas. Foi um silêncio como nunca se ouviu antes. Pensei comigo, mais uma vez (esse foi um dia que pensei bastante comigo mesmo; quase cansei de mim e das minhas opiniões):

- Que porra eu faço agora? Quer saber? Entrego a Deus.

E foi o que eu fiz. No carro, ninguém falava nada. Nem tinha o que falar. Fui subindo o morro e Fulana resolveu abrir a boca. Perguntou pra onde a gente ia. Claro que eu não respondi. Estava na cara. Lá em cima encontrei Deus. João de Deus, que se responsabilizou pela coisa.

Ontem peguei o que sobrou. Chegando em casa, misturei os dois sacos de cinzas com a terra de um vaso que tinha lá. Agora, estou meio “cientista”, regando tudo direitinho. Quero saber que coisa vai brotar daquilo.

Conto escrito para o encontro de 23/06/2015


Walter Macedo Filho é dramaturgo, jornalista, roteirista, escritor e gestor cultural. Integrou o Círculo de Dramaturgia do Centro de Pesquisa Teatral, coordenado por Antunes Filho. Como gestor cultural, atuou no SESC São Paulo, Arena Carioca Dicró, Biblioteca Parque Estadual e Instituto Augusto Boal. Publicou seu primeiro livro de contos, Nebulosos, pela Editora 7Letras. Atualmente escreve o roteiro para o novo filme do diretor Paulo Thiago após ter desenvolvido o argumento.

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