Um peso no estômago - Maria Leão



Um peso no estômago


Quando toquei meus pés naquela areia fina e branca, entendi a palavra alívio. Apesar da insólita maciez, era um lugar em que eu podia fincar os pés, mesmo com o império de uma luz cuja nuance não se encontra nas palhetas da “Suvinil”. Procurei ajuda. Algum sinal de vida. Nada! Só havia areia e luz. Arrastei-me até o limite de uma dor na “boca” do estômago explodir e apaguei. Mas não totalmente. Vi vultos que me levaram para um lugar frio. Senti agulhas entrando em meu corpo com um líquido gelado que trouxe outro sentido da palavra alivio. 

E ali estava eu em minha baia de trabalho, à frente do meu computador digitando palavras sem sentido, até que Gaiacoras pousou seu cotovelo sobre meu biombo. 

- E aí? Conseguiu um bom brunch hoje? 

Esquisito! Percebi que sua calça estava rasgada e as barras enlameadas. Gaiacoras sempre andou vincado! Voltei a digitar, mas as palavras não faziam sentido. Pesquisei os arquivos do meu computador, o sistema era diferente, não conseguia acessar nada. Soquei a mesa de raiva. Todos me olharam. Pilantoras, não perdeu a chance: - Tá com fome? 

Todos riram. Miacoras, a gostosona do staff, me lançou um olhar sedutor: - Hoje você vai cuidar de mim, garotão? 

Confesso que me entusiasmei. Mas pela volúpia do inusitado, entendi que se tratava de outra coisa! Triste era não saber? Em segundos, a angústia se soltou de mim logo, logo, através uma sirene estarrecedora. Gaiacoras e Pilantoras puxaram de suas gavetas, rifles de caça de longo e médio alcance. Meu colega de baia, Gargantoras exibia uma luneta “Nikon” com zoom de amplo poder. Todos o admiraram! Rapidamente a corregedoria se manifestou: 

- Onde conseguiu? – Precipitou Pericolas. 

- Como pagou? – Questionou Malinoras. 

- É material de fonte limpa, meninas. Paguei com meu suor!  

Embora meu crescente entusiasmo ao ver o inoportuno instrumento ser exibido por meus colegas em pleno horário de trabalho, na minha mente, as quinas de um incômodo arranhou uma pergunta: para quê tudo isso? Servincoras, nosso office boy, corria de mesa em mesa com uma caixa de logomarca da empresa estampada distribuindo velhos rifles, facões e carabinas. Chegou à mim e balbuciou: - Rápido! 

Quando olhei dentro da caixa só havia uma espingarda de chumbinho. Miacoras chegou bem perto de mim e olhou para minha espingarda com desdém: – Deixa estar, garotão! Hoje Gargantoras vai cuidar de mim.  

Surgiram vários significados da palavra alívio! Peguei o elevador, desci no átrio e ao sair do prédio, veio àquela luz de antes. Não via ninguém. Nenhum movimento, nem pessoas, nem automóveis, nenhuma buzina ou estrondo de acelerador, nem sequer uma voz humana, nenhum camelô vendia nada. Nada! Mas tudo estava lá, igualzinho como sempre. Andei com cautela. No canteiro a minha frente entre as folhagens, duas orelhinhas pontudas e uma fuça cheirava o ar. Sorri. O que um coelhinho estaria fazendo ali? Mal tive tempo de pensar. Tiros de vários cantos acertaram o bichinho e vultos velozes passaram por mim, me estonteando e quando me reequilibrei, vi dois colegas da firma, Duvidoras e Discordoras, disputando aos murros e pontapés a carcaça do coelhinho abatido. Na verdade era uma lebre. Mas no quê isso importa! No ar um urro de elefante, no chão vibração de terremoto californiano e nos meus ouvidos patas galopantes. 

Discordoras ganhou a lebre, passou por mim com um olhar estranho e me disse:  

- Mete o pé! E correu dali a passos largos. Duvidoras ficou ferido no chão:  

- É muita pressão! Não vou conseguir! Não vou conseguir. 

A vibração e o som aumentavam. Apavorado, tentei levantar Duvidoras do chão, mas o homem tinha um peso de chumbo, era como se a gravidade o grudasse ali.  

- Vá embora! Salve-se! 

- Não posso te deixar aqui. 

- Pode sim! Eu te deixaria, idiota!  

Havia uma verdade desprezível no rosto de Duvidoras, suas pupilas piscavam desespero. Queria dizer, mas seus lábios não articulavam. E por trás de mim pulou um leão, com um rugido alto, direto na jugular de Duvidoras e o arrastou por um beco estreito de jeito que o pobre não conseguiu nem mais gritar. Um rastro de sangue os acompanhou. Paralisei! A luz que antes me ardia, agora me cegava. Aguardava de olhos bem fechados o momento em que aquele volume de patas passaria por cima de mim. E me engasguei! Tive um ataque de tosse. A manada de búfalos engoliu a calçada, mas evitou meu corpo num raio de um metro e meio. Búfalo tem medo de tosse? Não sei! Só sei que a cara desses bichos me lembrou aquela antiga canção “O Boi da Cara Preta”. Como podem ninar crianças assim? Manada passada, só me percebi um pouco empoeirado, e entendi outra significado para a palavra alívio. 

Virei algumas esquinas com minha espingarda de chumbinho à punho como o próprio “Rambo”. Parei e vi Malinoras e Pericolas, em meio a várias mulheres, todas de salto alto e saias curtas, empunhando facões. De um cantinho surgiram galinhas ciscando pelo chão, cocoricando. Num piscar de olhos elas se misturavam e o som de mulheres e galinhas se confundiu. Penas e scarpins voaram.
Segui outras esquinas rápido, cheguei ao Largo do Obelisco, o lugar convergia ecos de balas, gritos, urros e grunhidos. Um macaco subiu o Obelisco com grande habilidade e risadas. O semáforo piscava o sinal verde, mas nenhum automóvel passava. De repente parei. Um arrepio me correu o corpo, olhei com cuidado e vi à minha direita, perto da banca de jornal, um rinoceronte. Esfriei! A vontade de matar aquela criatura me fulminou, mas atirar em um rinoceronte com chumbinho não era uma boa ideia, estivesse eu no mundo em que eu estivesse. O bicho soltou fumaça pelas narinas e partiu na minha direção em traço reto e contínuo. Corri! Corri para todos os lados, mas as portarias estavam trancadas. Vi uma marquise e um banco com encosto alto ao lado. Acessei-a. Nunca tinha pulado tão alto em toda minha vida. O bicho ficou bufando! Da marquise pulei para outra, e outra, até que consegui avistar uma fumaça. Se “onde há fumaça há fogo”, haveria algo ali produzido por mãos humanas. Sem avistar nenhum perigo, voltei ao chão e me deparei com Gaiacoras e Pilantoras assando um javali. Sorriram a me ver. Gaiacoras comenta: 

 - Ainda bem que fez um bom brunch, colega!

- É! A sorte não nos acompanha sempre! - Destaca Pilantoras. 

- Se não tivesse que levar minha parte à paga, te ofereceria. Mas aqui a lei é da selva. 

 A sirene tocou. Gaiacoras e Pilantoras apagaram o fogo com água, pegaram o javali e zarparam dali. Uivos e gritos se distanciaram. A sirene tocou novamente e sons comuns invadiram as ruas, buzinas, aceleração, apitos de guarda de trânsito. Rapidamente, a cidade como quase sei voltou a ser. No caminho para o escritório, camelôs vendiam nacos de carne, facas sujas de sangue e rifles sem munição. As pessoas estavam sujas, rasgadas e arranhadas. Ambulâncias e carros do corpo de bombeiros competiam nas pistas. 

Quando entrei no elevador, Gargantoras e Miacoras estavam lá. Miacoras intacta, com um gritante mau humor e Gargantoras desolado, sujo e amassado, matinha ar derrotado. No staff, todos fediam, o ar condicionado não dava vazão do cheiro de suor e sangue. Discordoras já digitava seu memorando quando Servincoras anunciou que Duvidoras não havia conseguido. Todos lamentaram! Discordoras abriu choro de criança. O chefe bem vestido com seu paletó e gravata, saiu de sua sala para almoçar. Gaiacoras e Pilantoras o cercaram e lhe ofereceram uma gorda parte do javali assado, o chefe aceitou o presente com tapinhas nas costas dos rapazes. Gargantoras, envergonhado, abaixou a cabeça para evitar o olhar furioso de Miacoras. 

Uma dor na “boca” do estômago me queimou por dentro. Os gases rodavam minha barriga. A maldita luz de fora invadiu o staff ao ponto deu não consegui enxergar mais nada. Uma mão pesada apertou meu ombro com força. Levantei a cabeça era Toninho, o cara que sempre almoça comigo.
- Te falei pra não comer muita carne na hora do almoço!


Conto escrito para o encontro de 15/ 09/ 2015




 Maria leão nasceu em Teresópolis, município da Serra Fluminense, em 1964. Formou-se arquiteta e trabalhou nesta profissão por 20 anos. Em 2009 estudou roteiro cinematográfico e dramaturgia, a partir deste novo rumo, escreveu dois longas metragem não filmados, e vários curtas, duas peças teatrais, sendo a de título Jabuticaba merecedora de uma menção honrosa no Concurso de Dramaturgia do Instituto Guilherme Coussol em Lisboa no ano de 2013. Publicou em março último o romance Morangos Selvagens. É sócia idealizadora do hostel A Casa Azul em Teresópolis e membro do coletivo de artistas Acasos na Casa como dramaturga e produtora. maria.leao@outlook.com.br

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