terça-feira, 30 de junho de 2015

Quem ama não mata: manda matar - Walter Macedo Filho



ANTES DE LER O CONTO, O AUTOR TEM UM RECADO: “Amigos, quem estiver em Paraty durante a Flip 2015, aproveite para conhecer meu livro Nebulosos (Ed. 7Letras) que estará à venda na Livraria Das Marés (Rua Ten. Francisco Antônio, 352 - Centro Histórico), ao lado da Pousada Literária. Divulguem também para seus amigos."


Quem ama não mata: manda matar

Pra mim, caso entre homem e mulher tem muito a ver com umas sabedorias do tipo “quem muito quer, nada tem”, ou “cavalo dado não se olha os dentes”, “mais vale um pássaro na mão”... essas porras aí que a gente lê na Bíblia, ou no jornal, sei lá. Caso entre homem e mulher, pra mim, é coisa sagrada. Tipo casamento. E eu até poderia dizer que já fui casado. Eu me considerava casado, comprometido. Mas, pra não me comprometer nessa história, vou chamá-la de Fulana.

Cuidei de Fulana. Nisso, eu estou sossegado. Fulana teve do bom e do melhor. Nunca deixei Fulana trabalhar. Nem precisava. O sustento era por minha conta. Eu só queria chegar em casa e sentir o cheirinho de comida e o cheirinho de mulher, as duas coisas que fazem a vida valer a pena.  E, assim, a gente foi levando.

Mas, esta semana, aconteceu um negócio raro no trabalho: eu tive uma janela no meio do dia. O patrão precisava entregar um papel no banco e pediu para eu levar. Ele sabia que era pros lados da minha casa e disse que eu nem precisava voltar naquele dia. O cara é legal. Saí logo depois do almoço. Fiz a entrega e, pra inventar alguma coisa pra não começar a beber tão cedo, me meti num cinema ali perto, um tipo de coisa quer eu faço uma vez na vida e outra na morte. Rapaz, eu nunca imaginei que cinema durante o dia fosse tão vazio. Sentei lá, tranquilo, parecendo um milionário. Daí, no corredor do outro lado, vi Fulana entrar. Gelei... não por minha causa, mas por causa dela. O problema nem era Fulana estar no cinema sem ter me avisado. É que Fulana estava com Sicrana! É sério. Minha mulher estava no cinema com outra mulher. Pensei comigo:

- Que história é essa?

Não é “a ‘história’ do filme que ia passar”, mas “a história da minha vida” que, naquela hora, passou na minha cabeça como um filme. Fulana e Sicrana no cinema... à tarde... assim...? Aí não dá. Deixei quieto. Mais tarde chego em casa e coloco os pingos nos “is” e pronto. Da próxima vez, me avisa antes e tudo bem. Mas o roteiro era diferente, bem do tipo “original”. Fiquei só assistindo. O filme começou e eu nunca tinha visto um amasso tão apaixonado. Mas a cena não era no filme. Era Fulana e Sicrana. Senti muito mais que ciúme. Senti inveja. Um sujeito pode ter chifre, é quase natural. Mas um chifre cor-de-rosa...
Pensei comigo de novo:

- Senhor, dai-me paciência, porque saco eu já não tenho mais.

Se me perguntarem sobre o filme, não sei nada. Quando as letrinha começaram a subir, meu sangue subiu junto... e quase ferveu. Fui o primeiro a sair da sala. Fiquei bem na frente da porta dupla e a dupla saiu agarrada, mãos trançadas e riso na cara. Tomaram um susto. Só pedi que viessem comigo. Obedeceram.  Dei uma carona para as duas. Foi um silêncio como nunca se ouviu antes. Pensei comigo, mais uma vez (esse foi um dia que pensei bastante comigo mesmo; quase cansei de mim e das minhas opiniões):

- Que porra eu faço agora? Quer saber? Entrego a Deus.

E foi o que eu fiz. No carro, ninguém falava nada. Nem tinha o que falar. Fui subindo o morro e Fulana resolveu abrir a boca. Perguntou pra onde a gente ia. Claro que eu não respondi. Estava na cara. Lá em cima encontrei Deus. João de Deus, que se responsabilizou pela coisa.

Ontem peguei o que sobrou. Chegando em casa, misturei os dois sacos de cinzas com a terra de um vaso que tinha lá. Agora, estou meio “cientista”, regando tudo direitinho. Quero saber que coisa vai brotar daquilo.

Conto escrito para o encontro de 23/06/2015


Walter Macedo Filho é dramaturgo, jornalista, roteirista, escritor e gestor cultural. Integrou o Círculo de Dramaturgia do Centro de Pesquisa Teatral, coordenado por Antunes Filho. Como gestor cultural, atuou no SESC São Paulo, Arena Carioca Dicró, Biblioteca Parque Estadual e Instituto Augusto Boal. Publicou seu primeiro livro de contos, Nebulosos, pela Editora 7Letras. Atualmente escreve o roteiro para o novo filme do diretor Paulo Thiago após ter desenvolvido o argumento.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Persona - Poliana Paiva



Persona

Outro dia conheci uma personagem de Comédia Romântica. Eu, que até hoje só fiz Drama, achei o maior barato conhecer gente diferente, com uma vida assim mais tranquila, um futuro mais garantido e coisa e tal.

O que acho mais curioso nas Comédias Românticas é que, mesmo quando dá uma merda muito grande e o protagonista se fode, nos 10 minutos finais alguém se redime e tudo dá certo. Até meio certo demais, mas, enfim, o fato é que eu conheci essa moça da Comédia Romântica. Ela era muito bonita. Bonita mesmo. Tá certo que ela tinha a cabeça meio grande. Cabeça de quem faz muita dieta. Sabe quando a pessoa vai ficando tão magra que a cabeça vai ficando um pouco grande em relação ao resto do corpo? Pois é. Essa personagem era assim. Cabeçuda. Em outros tempos até  poderia chamar atenção, mas, hoje em dia, definitivamente, isso não importa tanto. A pessoa pode tá pobre, pode tá sem amor, pode tá doente, pode até ter caído na malha fina do Imposto de Renda. No entanto, se tiver magra, tudo se ajeita.

Era um domingo, isso eu lembro bem, porque o Aterro tava fechado e todo mundo pedalava com um sorriso de propaganda de margarina. Estávamos nos jardins do MAM. Lembro também que tinha muita gente nadando no trecho entre a Marina da Glória e a Enseada de Botafogo. Todos provavelmente vacinados contra hepatite B.

E não falo de vacina por mania de doença, não. Eu nem tenho como ser hipocondríaca. Até hoje só fiz Drama de Época. E nos Dramas de Época, a realidade é cruel. Personagem que não morre de peste, de infecção, nem de necrose, é minoria. E essa minoria, naturalmente, não tem tempo de ficar obcecada com dieta equilibrada. O buraco é mais embaixo. Se der pra procriar, pra comer e pra trabalhar, o corpo do personagem tá mais que bom.

O caso é que, mesmo sem ser hipocondríaca, acabei perguntando pra essa personagem minha amiga se ela tava se sentindo bem, se queria comer alguma coisa. Afinal, ela tava tão magrinha, que era bom um carboidrato, uma gordura, sei lá. Foi aí que ela sorriu de um jeito meio nervoso e disse que precisava mesmo era de um cigarro.

Nesse momento, do nada, apareceu a Elke Maravilha dizendo:      “-Criança, fumar é feio”.

Até aí eu tava achando tudo normal. Sempre encontro Elke no Leme. Uma fofa. Inteligentíssima. Libertária. Tudo de bom. Daí Elke pega uma canga, senta do nosso lado e pergunta: “-Viu se Painho já chegou?”

Aí, sim, achei estranho. Pô, Chacrinha morreu tem tempo e Elke é uma das pessoas mais lúcidas que conheço. Foi então que comecei a juntar as peças: primeiro, o povo do sorriso de margarina pedalando. Depois, o pessoal nadando na baia mais imunda do mundo e, agora, Elke perguntando por Chacrinha... Minha espinha gelou e tive a certeza: “Puta merda, tô num sonho!”

Não sei quanto a vocês, mas eu não curto nada a ideia de passear no sonho dos outros. É sempre dor de cabeça. Sempre. Todo mundo se acha cineasta nessa hora. Todo mundo quer brincar de narrativa, mas ninguém se importa se os personagens estão cansados, com fome ou com vontade de fumar.

Antes que a coisa piorasse, chamei minha amiga num canto e disse: “-Amada, isso é uma cilada. É um sonhozinho de quinta e, se a gente não se ligar, vai ficar aqui por muito tempo aplaudindo por do sol. E o pior: sem cigarro e sem bebida, que pelo visto a única droga que esse povo consome é televisão”.

Foi assim que consegui convencer minha mais nova amiga de infância a evadir do sonho alheio. Foi simples: começamos a cantar uma música do Ratos de Porão e fomos convidadas a nos retirar.

De volta à realidade, nos despedimos. Fui protagonizar o nonagésimo remake do “Direito de nascer” e ela foi pro ensaio de “Como perder um homem em dez dias – Parte 3”.

Agora, se fosse pra voltar pra realidade mesmo, essa que vocês encaram todo dia, de metrô cheio, neuroses de gaveta e regulagem de cu alheio, preferia ficar no Aterro, doida de vontade de fumar e ouvindo um bando de neohippie dizendo “gratidão”.

Conto escrito para o encontro de 23/06/2015


Poliana Paiva é formada em Cinema pela Uff e em Teatro pela Cal. Dirigiu e roteirizou 4 curtas, foi roteirista dos programas de auditório 'Esquenta' e 'Papo de Mallandro' e, no momento, escreve seu primeiro longa, uma série para tv e uma série pra web. Foi publicada em duas coletâneas de novos autores e selecionada no concurso 'Poema nos ônibus e nos trens', promovido pela prefeitura de Porto Alegre. Fora isso, integrou as exposições 'Liberte a literatura' (2012), no Centro Cultural da Justiça Federal e 'Caneta, Lente e pincel', no subsolo do Monumento a Estácio de Sá (2013) e no foyeur do MAM (2014). Sua página no facebook, www.facebook.com/romanticuzinhos, tem mais de 20 mil seguidores e a ideia é transformá-la em livro até 2016.

domingo, 28 de junho de 2015

Jaguadarte - Guilherme Preger



Jaguadarte

“Que porra a meia-idade!”, pensei,  enquanto tomava um cafezinho no Café Gaúcho e olhava as patricinhas que caminhavam no Centro do Rio na hora do almoço. Sou apenas um cana velho, mas com certeza eu ainda poderia comer qualquer uma dessas novinhas.   Minha Rainha dizia que já estava na hora de me retirar. Mas ficar em casa seria meu fim. A Rainha não entende: se eu ficar em casa de bobeira, seria uma tentação. Eu só iria ficar atrás de novinhas. Então, adeus Rainha. Ela acabaria cortando meu pau, se eu desse mole. Ela vivia me dizendo: “Você é um cara-de-pau-duro”.

Será que meu contato viria? Desde que me colocaram na Divisão de Repressão aos Crimes de Informática – DRCI – que não consigo resolver mais nenhum caso. Parecia uma promoção mas não era nada disso. Sabiam que não manjo nada dessa porra de computador. Sou virgem nisso. Fizeram essa sacanagem porque entrei no movimento anti-proibicionista. Cansei de ver neguinho morrendo por causa de um baseado. Não faz sentido essa porra. Eu sempre fui contra maconha, até o dia em que peguei meu garoto adolescente com um cigarro na mão. E a merda é que eu estava bebum de uisquinho. Era algo sem sentido. Em vez de eu dar um esporro nele, foi ele que zoou em cima de mim. Marrento. Tal pai, tal filho. Decidi que ia sair dessa hipocrisia antes que meus colegas soubessem. Perdi a moral para prender essas pobres mulas do tráfico e acabei batendo de frente com meu chefe. Depois veio essa história de redução da maioridade. Sou contra essa bobagem. As cadeias já estão superlotadas e ainda querem meter mais meninos lá dentro. Eu sei, por meu próprio testemunho, que se rolar essa redução, os primeiros a dançarem serão os menores. Sociedade hipócrita e filha da puta.

Por causa dessas causas perderam a confiança em mim e me botaram na DCRI. Só tem garotada lá dentro. Para me humilhar me deixaram de chefe um pirralho com menos de 30 anos. O garoto se acha o máximo. Ele me chama de “Chapeleiro”, porque estou sempre com uma boina diferente. Essa garotada nova é muito arrivista. Eles só querem resultado. Me colocou num caso de lavagem de dinheiro. Detesto esses casos, porque é só número. Dinheiro na conta de lá, dinheiro na conta de cá, nesse negócio um tanto, naquela nota outro tanto.  Não tem ação nenhuma, tudo se passa num mundo virtual. Descobri que preciso abrir um arquivo onde estariam todos os dados do “Rato”, nosso alvo de investigação. Mas não sei como fazer isso, porque não entendo desse mundo de dados e números. Eles sabiam disso o tempo todo. Só quiseram me foder perto da aposentadoria, pois não consigo ganhar promoção já que a garotada nesse assunto é muito melhor do que eu. Em compensação, quase ninguém lá dentro sabe manejar uma arma...

Meu amigo, o Coelho Branco me passou um contato. Não sei quem é, mas ele me disse que é F – fêmea. Agente de confiança. Codinome: Lagarta. Estava esperando Lagarta, quando me perguntaram por um isqueiro atrás de mim. Virei e vi, era uma novinha, dessas meio punk, pequenininha, cabelo pintado nas pontas, um anel na sobrancelha, os olhos marcados de preto, calças rasgadas na altura do joelho, uma mochilinha. Típicas, essas garotas skatistas e punks. O que primeiro me veio à cabeça foi um pensamento de merda: “essa menina podia ser minha neta”. Estava meio envergonhado pois eu deveria tê-la visto primeiro. Bobeei. Então disse olá, pois já tinha entendido que essa novinha era a tal Lagarta. O código era justamente pedir um isqueiro, já que hoje em dia ninguém pede mais fogo assim. Ainda mais se você não estiver fumando. 

“Lagarta?, perguntei. Ela concordou com a cabeça. Você é o Chapeleiro, não?, ela me disse. Olhei-a de alto a baixo. Uma idade indefinida, no máximo uns 20 anos, seios mínimos, não usava sutiã. Bunda grande. Cabelos pretos compridos, com uma franja sobre os olhos. As mechas pintadas de azul.  Os olhos eram meio esverdeados. Achei que eram lentes. Estava com uma expressão de entediada, como se estivesse irritada com alguma coisa. Tive também uma antipatia.    E tentando esconjurar a sensação de que aquela menina poderia ser minha neta, pensei então: teria cabelos entre as pernas? Teria boceta cabeluda ou seria pelada? As novinhas nessa idade estão todas se depilando, imaginei. Não gosto dessa moda, mas tudo bem. “Como se chama?”, perguntei. “Me chame de Alice, ela disse. Você trouxe o prometido?”. “Claro, Garota, eu não ia te deixar na mão”. “Então vamos almoçar, ela falou”. “Onde você quer?” Ela então me levou para um restaurante indiano vegetariano logo ao lado. Subimos por uma escada em caracol cheia de flores pelo chão, com cheiro de incenso e uma música hare khrisna ensurdecedora. Enquanto subíamos, ela na frente, eu ia reparando sua bunda. Ela era uma quase menina, mas sua bunda era de mulher. Vi também em sua nuca, tatuada,  a palavra “Jaguadarte”. Que porra é jaguadarte?

Eu detesto comida vegetariana. Naquele dia serviam um yakisoba de legumes e uma berinjela recheada. Tive que admitir que estava muito bom. Durante o almoço, quis saber algumas coisas da moça, mas ela não parecia muito interessada em papear. Ela queria ver o brinquedinho que eu trouxe e seria o pagamento pelo serviço. Abri minha pasta e retirei o envelope. Não seria dinheiro, era o trato nosso. Não rolaria grana nem drogas. O pagamento é um taser moderno que eu havia conseguido com os idiotas da PM que combatiam as manifestações. Agora que não rolavam mais manifestações, havia muitos desses jogados nos armários. Era fácil conseguir um, pois ninguém na polícia quer uma arma não letal. E eu sei que essa garotada de hoje adora tasers. “Ele funciona tanto à queima-roupa, como à distância”. Os olhos da menina se abriram felizes. Ela pegou o treco como uma menina que manuseia uma boneca. “Só não pode se masturbar com uma coisa dessas”, brinquei para quebrar o gelo, mas ela me olhou com um olhar enfezado e por pouco achei que ia desistir. “Bricadeirinha”, falei sem jeito. Comemos o resto do almoço em silêncio, depois paguei a conta e saímos.

Quando estávamos na rua, perguntei: “você trouxe seu computador?” Ela me olhou como se eu fosse um cretino. “Para o que vamos fazer, só numa lanhouse”. Então nos dirigimos para uma lanhouse na rua da Assembleia, muito perto de onde estávamos. Subimos uns andares e eu estava querendo quebrar o mal entendido, porque minha piada tinha sido muito fora de propósito e então perguntei o que vinha a ser jaguadarte. Mas a pergunta só teve um efeito de piorar o estranhamento, pois ela me olhou com seriedade, dessa vez como se fosse uma mulher bem madura e falou: “Vocês canas acham que tudo tem que ter um sentido. No que eu faço, precisamos procurar pelo que não faz sentido”.

Uau! Essa novinha era terrivelmente imprevisível. Chegamos numa sala cheia de computadores. Havia muitos jovens lá dentro. Ela escolheu uma bancada isolada junto à parede. Abriu sua mochila, tirou um pen-drive e colocou no computador. Logo abriu-se uma tela negra. Ela começou a digitar algumas teclas. “Agora vamos atravessar o espelho, ela disse. Onde estão os dados?” Eu lhe entreguei outro pen-drive: “está tudo aí”. Ela instalou no computador e continuou teclando. “De onde te conheço, perguntei, porque eu te conheço, não? Por que você está ajudando um cana velho como eu? Não é por compaixão, não é garota?”. Sem tirar o rosto do que estava fazendo, ela deu risinho, o primeiro do dia e disse: “Você estava lá, na delegacia no Catete naquela manifestação do Papa”. “Você foi presa naquela noite?”, perguntei assombrado. “Não, mas a minha amiga foi”. E então pegou o celular, e me mostrou uma foto. Era eu mesmo, dois anos antes, dando um esporro num PM que tinha enchido a delegacia de gurizada. Ela tinha tirado aquela foto sem que eu percebesse (as fotos eram proibidas na delegacia).  Estava tudo uma confusão, cheiro de gás de pimenta e uns 30 meninos e meninas que haviam sido presos. Os PMs queriam  mandar todos aqueles jovens para Bangu, mas eu não deixei. Bangu já estava lotada, disse àqueles canas broncos e os expulsei todos da delegacia. Depois que a coisa se aquietou, fui mandando embora, jovem após jovem. “Quer dizer que sua amiga, estava lá”? Ela concordou, sem tirar o rosto do computador. Imaginei que “amiga” queria dizer namorada. Essas meninas agora só transam entre si, pensei desanimado. Será que gostariam de homens mais velhos, com um certo ar paternal, protetor, pensei no cúmulo da safadeza?

“Já tenho tudo - ela disse depois de alguns minutos - vou mandar imprimir. Cadê o brinquedo?”. Surpreso pela rapidez do trabalho lhe passei o taser. Ela o guardou rapidamente na mochila e tirou dela outro pen-drive. “Tome esse criptógrafo para você e instale em seu computador. Só vamos nos falar através disso de agora em diante. Se precisar digita uma mensagem e eu logo respondo. É meu “gift”, disse com um sorriso. Um brinquedo por outro brinquedo”. Fiquei feliz, afinal um trato se fazia entre Alice e eu. “Quando você entrar, ele vai pedir uma senha. Então digite... jaguadarte”, disse com um sorriso malicioso. “Agora vá buscar lá, pois já mandei imprimir tudo”.

Me levantei, peguei a impressão, paguei a lanhouse, mas quando voltei Alice tinha... desaparecido!  Evaporou-se, sumiu completamente. E o estranho era que, para sair da loja, tinha que passar pela bancada da impressão. Na tela do computador onde estávamos, havia apenas uma boca e um sorriso se desfazendo. Nâo entendi e saí da lanhouse desolado. Gostaria de ter conversado mais com Alice. Apertei com força o pen-drive que ela havia me dado, pois esse era o nosso contato e segui andando pelas ruas do Centro carioca pensando no que seria afinal Jaguadarte. Que merda ter meia-idade, ela poderia ser minha neta. E esconjurando esse pensamento, me vinha à cabeça a pergunta insistente: seria cabeluda ou pelada?  Essa questão, eu ainda iria saber responder...

Conto escrito para o encontro de 23/06/2015


Guilherme Preger é escritor e engenheiro, autor de "Capoeiragem" (7Letras) e "Extrema Lírica" (Oitoemeio) e está no Clube da Leitura desde sua fundação.

sábado, 27 de junho de 2015

Mote do encontro (07 /07/ 15)



sugerido por Maurício Gouveia

O mote da Livraria



Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria.
Jorge Luis Borges

Pode parecer confuso, só que não, mas livrarias comercializam livros. Algumas também trabalham com CDs, DVDs, mochilas, artigos de papelaria e, acreditem, pinguins (está permitido o uso da expressão “nhóm” neste item);
Lilian Dorea – “Manual prático de bons modos em livrarias”


O que é uma livraria? Os significados variam para cada um.

Alguns buscam um estado de contemplação e euforia através desta taça chamada Livro. Uns matam tempo e, de vez em quando, notam a decoração pitoresca de blocos de papel nas paredes. Para a maioria, livrarias são comuns. No entanto, ao contrário de uma farmácia ou bar, quando uma fecha, sentimos seu vácuo. O fim de um espaço dedicado ao comércio e divulgação da cultura e educação provoca comoção.

Ao contrário de serviços gerais, cada espaço dedicado ao livro é único como nossa casa. Desde as obras até o café no mezanino, tudo contribui para uma experiência particular. Tal e qual um beijo, podemos encontrar remédios e bebidas em uma esquina. Mas, como o beijo de um grande amor, que nos coloca em êxtase, cada livraria nos marca de forma inesquecível.

A livraria é um instrumento para outro mundo. Lá, podemos encontrar a musa de cabelos longos que queimam no inverno, nos olha num misto de inocência e sensualidade e sorri com um dente lascado em meio um cenário bucólico. Ela sussurra para ser desvendada, o que nunca conseguiremos por inteiro. Jamais adquiriremos toda a riqueza oculta nas estantes da livraria. Entretanto, mergulhamos o mais fundo possível e trazemos tesouros que ficarão pelo resto de nossas vidas. Da livraria, vivemos através de outros nós mesmos.

Livraria é a ideia! Este é nosso mote.