quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Rodada (29/ 09/ 15)

Contos

(primeira rodada)














Escritora convidada Lisa Alves fala de seu novo livro, "Arame Farpado".

 


 



 



 



 



 



 



 





 

 


 



 



Motes

(segunda rodada)

 

 



Fotos por Luiz Alberto Benevides








terça-feira, 29 de setembro de 2015

O Jogo da Amarelinha - Julio Cortázar



Recomendação de leitura por Vinicius Varela


O Rayuela, em português “O Jogo da Amarelinha”, de Julio Cortázar, é um acontecimento na história da literatura. Lançado em 1963, mudou a forma de se fazer romances. O romance nunca mais foi o mesmo depois disso. Uma obra essencialmente aberta que permite múltiplas leituras e mais do que permitir, deseja ser lida de diversas formas. Rayuela é um convite ao leitor a construir sua própria narrativa. O autor dá ao leitor fragmentos que podem ser organizados da maneira que o leitor desejar. Acontece um trabalho de co-autoria em que o livro é construído entre o escritor e o leitor. O livro não chega às mãos do leitor já pronto, pelo contrário, ao chegar a essas mãos é que começa a se construir, as partes soltas de juntando. Poderia dizer-se que Rayuela é um livro sobre livros. Inicialmente, Rayuela são dois livros em um só, mas como o próprio autor diz no ”Tablero de dirección”, um tabuleiro de instruções para a leitura: “A su manera este libro es muchos libros, pero sobre todo es dos livros. El lector queda invitado a elegir una de las dos posibilidades siguintes” ( À sua maneira este livro é muitos livros, porém, fundamentalmente, dois livros. O leitor está convidado a escolher uma das possibilidades a seguir – em tradução livre). Em seguida, o autor explica que o primeiro livro deve ser lido de maneira normal, até o capítulo 56, onde termina. Já o segundo, começa no capítulo 73 e segue uma ordem indicada no início de cada capítulo. Os capítulos desse segundo livro são lidos “puladinhos”, igual ao “jogo da amarelinha” em que se pula as casas até chegar à casa marcada pela pedrinha previamente arremessada. 73 – 1 – 2 – 116 – 3 – 84 – 4 – 71 – 81...(e assim sucessivamente). Desde o começo, o leitor é convidado a ler o livro da maneira que desejar. O autor deixa o leitor à vontade para explorar o livro. Da parte dele são propostas duas leituras, entretanto, o que Julio Cortázar deseja, sem dúvida, é a plurissignificação. Enquanto houver novas leituras, capazes de renovar a obra, o trabalho do autor se concretiza. Ele que foi o escritor belga mais argentino de todos e mais afrancesado também, estava propondo em suas criações uma mudança drástica na forma de se pensar e fazer literatura, mas ainda demoraríamos alguns anos em perceber. Os argentinos logo reclamariam o “argentinismo” de Cortázar, mas ele terminaria enterrado em Paris, tendo se naturalizado francês, em protesto à ditadura militar argentina. Em entrevista, o escritor disse que, apesar de ter vivido tempo suficiente em París como para mudar de língua e adotar o francês, jamais conseguiria deixar de escrever em espanhol. O espanhol era sua língua, uma língua que ele jamais poderia abandonar. Rayuela é um jogo literário dos mais interessantes em que em cada casa (capítulo) se esconde uma surpresa e no final do jogo não há prêmio. Não raro acontece entre os jogadores (leitores) se perguntar, ao final do jogo (leitura), o porquê de ter jogado. Parece que são tomados por uma espécie de amnésia literária, não conseguindo lembrar como começou aquele jogo (livro). O livro de Julio, O Jogo da Amarelinha, certamente interessará aos melhores ludomaníacos ou ludópatas para dizê-lo na língua do autor. Estão preparados para jogar o jogo? Jogue a pedrinha e descubra o que vem no próximo capítulo.




segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A cobra (ser)repentista. - Fernando Andrade



A cobra (ser)repentista.


As coisas estão nos seus lugares. Mas os lugares estão nas suas referências?  Ou mais exato, nos seus devidos lugares?
Pergunto isso, pois Pedro que já é masculino de Pedra: um objeto ou lugar? Que não é semanticamente referência para nenhum lugar, pois em nenhuma pedra se marca lugar, pois apesar do tamanho, forma, todas são semelhantemente constituídas. Portanto Pedro andando pela estrada de Marco lira; um caminho onde poetas devaneavam escrevendo em pedaços de guardanapos, horizontes de poemas.
A estrada era de estrelas, sim, nela toda noite estrelas cadentes caiam do Céu imantando a estrada à noite. Portanto para o peregrino à noite, o caminho cintilava, e isto não era uma licença poética. Não, não era.  
Mas Pedro a percorria ao dia, com os olhos abertos, e curiosos. Devaneava talvez algum início de novela que estivesse por manufaturar. Num momento que sua cabeça desenvolvia imagens
Chegou-se na beirada do caminho, Zé Ser.
Bom dia, Senhor andante.
Bom dia, quem é o senhor?
Sou Ser,
Um rastejante que percorre estas bandas em busca de antídoto antes da monotonia. Sou violeiro, toco nas minhas peles que sãos anéis todas as melodias que o senhor possa imaginar.
Sou Ser pertencente à todas as flautas celtas que Pã já tocou.
Toco viola, bandolim, dijeridoo, embora prefira digerir as pequenas notas ou rotas.
Pedro pensou, havia tomado um comprimido de LSD antes de sair da sua pousada.

A que gênero pertence Ser?
Quando mordo meu próprio rabo sou círculo de mim mesmo.
Mas sim, vou lhe responder como uma cobra; Coral. Aquele que está de fundo fazendo vozes coletivas. Sou o gêneros das vozes adjuntas. As que fazem coro não para este estado de coisas, na verdade não dou bote à toa. Só canto na boa.
Ando vendo cobras repentistas que falam como trovadora dos campos. Será que a dose foi elevada, para a criação? Se fosse este recanto um paraíso?
 Diria que sou o ofídio que pôs a marcha da humanidade a descer ladeira à baixo.
Não és Adão, e não vejo Eva, aí contigo. Embora possa parecer que para uma serpente, o eterno retorno, ideia daquele filosofo que adorava cavalos, seja para nós um dilema.
Ficamos com a pecha dos peçonhentos.
Mas peço que reconsidere
Você já viu algum músico com veneno nos lábios?
Só os que não tocam bem...
Por falar nisso...  O que está devaneando ai na sua caixa de ferramentas? 
Umas ideias para uma luta entre o bem e o mal
Ha Há, sei, por que rastejas aos meus pés, amada, minha. Sei que sou um homem concentrado no antídoto do amor caudal.
O que é isso?
Uma estrofe de um verso de uma canção que acabo de fazer para uma letra.
Se já na canção termina toda estória de amor, por que eu um escritor deveria devanear uma narrativa longa, se já senhora, Ser, já botaste em poucas palavras toda gênese do discurso - amoroso.
Sou uma cobra
Obra para todo oboé
Aquilo que abro pela boca
É de fato uma moda- poética.

Conto escrito para o encontro de 15/ 09/ 2015



Fernando Andrade tem 46 anos, é jornalista e poeta. Trabalhou por 10 anos com livreiro e hoje trabalha na Biblioteca Parque Estadual. Participa de dois coletivos : Caneta Lente e Pincel e Clube da Leitura. Escreve para o site Ambrosia resenhas de Literatura. Tem dois livros de poemas lançados pela Editora Oito e meio, “Lacan por Câmeras Cinematográficas” e “Poemometria”.

domingo, 27 de setembro de 2015

Transtorno de ansiedade - Marco Antonio Martire



Transtorno de ansiedade


Naquela noite fazia aniversário e discursava feito uma poetisa.

Os preparativos para a festinha em seu apartamento devem ter dado trabalho, havia muita comida e a casa estava de verdade impecável. Tanto esforço foi recompensado, pois a galera compareceu em peso, numa animação tremenda, curtiam todos a música e os papos agradáveis. Quando Natália percebeu o sucesso, que a festa funcionava como tinha imaginado, largou os discursos e afetos de lado e deixou-se levar por um gostoso devaneio na varanda. Fechou a porta para fumar, não percebeu nada durante uns minutos, viajou na paisagem noturna que a cidade lhe dava de presente.        

Natália tinha uma vida boa.

Seu emprego não era o melhor, era o possível, mas rendia um bom salário, que pagava as despesas do apartamento e ainda rendia uma bela liberdade: comprava quase tudo que queria e também viajava. Uma, duas viagens por ano, sozinha ou acompanhada.

Não tinha dificuldades para conseguir namorados. Não imaginara que Mauro viria à festa, convidara por convidar. Findo o romance entre os dois, quando o trocou pela Bia, soube que ele andava em depressão. Natália não se culpava absolutamente, achou até meio machista aquela depressão, ser trocado por mulher era o que certamente deprimia o seu ex. Antes dela, Mauro trocava tanto de namorada que assumir a relação até a incomodara. Mauro tinha amigas em todos os cantos. Ver que ele já era capaz de se divertir na presença dela, na casa dela, a libertava de inúteis preocupações.

Já Bia não viera mesmo, Natália fizera questão de não convidar. Deixara a possibilidade em aberto, a depender de um acaso fortuito a partir do recente rompimento entre as duas, como se esperasse no fundo que alguém a trouxesse por livre e espontânea vontade. Não funcionou a estratégia, mas a ausência dela não trazia qualquer mágoa, Natália sentia-se livre, redimida pelo prazeroso sucesso cotidiano.

Pensava que não havia nenhum mal em desprezar a importância de Bia em sua vida quando notou a falta do som alto e alguém da festa invadiu o bem estar de sua varanda. As notícias não eram boas: Mauro suava frio na cozinha, levava as mãos ao peito, respirava como se condenado. Dizia que era um ataque de ansiedade. Mandaram perguntar a Natália se tinha algum remédio, um comprimido guardado que resolvesse a questão.

- Não tenho, dá maconha pra ele.

Já haviam tentado aquela salvação, mas Mauro rejeitara o baseado depois de duas tragadas. O ataque piorou com a erva, o pessoal não sabia o que fazer. Mauro estava ficando verde.

- Gente, chama uma ambulância e pronto! - disse a dona da festa.

Assim foi feito. Mauro permaneceu na cozinha, amparado por uma turminha de melhores amigas. Natália continuou de pé na varanda, um pouco confusa, o mal estar alheio não estava nos planos. Esticava o olhar para dentro da casa de vez em quando. Acendeu outro cigarro, tentava compreender o significado daquele ridículo showzinho de seu ex. O clima da festa deu uma azedada, o som baixou talvez para sempre e as conversas perderam o tom animado. Mantiveram o Mauro na cozinha ao lado da cerveja no gelo.   

O tempo passava e a ambulância nada. Mauro não aparentava melhora. Natália foi vê-lo somente uma vez, de longe seus olhares tocaram-se feito plumas, não encontraram o que dizer, ela não teve pena. Voltou para a varanda, a varanda se tornara sua fortaleza.

Queria conseguir reclamar mas um sentimento cretino de solidão a calava. Queria voltar para aquele devaneio de quase meia hora atrás, o cenário era o mesmo, ainda que nada estivesse no mesmo lugar. O fricote repentino de seu ex atravessara a paisagem noturna da cidade como uma discreta chuva que empurra os pedestres para debaixo dos cobertores. Que fizessem amor discretamente em seus quartos a salvo da friagem, Natália queria aproveitar com seus convidados aquela noite.

Ninguém mais na festa era doente, nem esquizofrênico ou já esclerosado, ninguém era declarado paciente ou cliente de péssimo terapeuta, ninguém alimentava uma convicção semissecreta de ser desprezado na multidão. Ninguém. Eram todos sãos. Esperavam como Natália que o mal passasse, que fosse culpa do vento frio, do som alto ou da poluição noturna, que fosse culpa do pavio curto.

Natália só abandonou a varanda quando a ambulância chegou. Ela mesma abriu a porta para os médicos. Queria muito festejar, precisava celebrar a vida, os sonhos e as ilusões desmedidas, os devaneios desperdiçados.

Por um segundo, desejou que Mauro sofresse é de um infarto mortal. Estava de saco cheio.

Mas o ex sofria de um transtorno de ansiedade mesmo.

Conto escrito para o encontro de 15/ 09/ 2015


Marco Antonio Martire é carioca, formado em Comunicação pela UFRJ. Já publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar” e a novela “Cara preta no mato”, esta em ebook pela Saraiva. Escreve crônicas para a Rubem (www.rubem.wordpress.com) e resenhas para o Cabana do Leitor (www.cabanadoleitor.com.br). É fã do Clube da Leitura.   

sábado, 26 de setembro de 2015

Por quê? - Walter Macedo Filho



Por quê?

Quando chegou de volta em casa, Juliana se deu conta de que havia largado o menino na instituição de caridade, ao invés de deixar as roupas que levara para doar. Sem dinheiro para a condução, sem vontade de voltar àquele lugar tão longe e sem tempo para isso - porque ainda precisava preparar o jantar antes da chegada do marido - Juliana resolveu abandonar o menino e passar a cuidar das roupas que voltaram com ela. Concluiu que assim teria muito menos trabalho e despesas. Sentiu-se bastante feliz com o futuro que começava a construir. Aquela felicidade fez com que se esquecesse do jantar. Foi para o quintal lavar as outras roupas que não tinham ido para doação e que ainda estavam sujas. A partir daquele momento não mediria esforços para se tornar um exemplo de dedicação no trato com a nova família que acabara de adotar. Juliana caminhou no terreno de terra batida com muita dificuldade. Ao chegar na edícula onde ficava a lavanderia, virou-se e ficou surpresa ao ver que brotavam chumaços de grama nas pegadas que deixara para trás. Aquilo a preocupou bastante pois tinha certeza de que o marido a repreenderia, podendo até mesmo castigá-la. Aflita, procurou a enxada que tinham em casa, guardada em algum lugar. Viu que a ferramenta estava encostada num canto, atrás da máquina de lavar. Pegou a enxada e começou a remover a grama. Arrancava os últimos vestígios de vegetação quando notou que a enxada batera em alguma coisa. Abaixou-se e, com bastante cuidado, retirou a terra com as mãos. Eram ossos. Achou prudente procurar ajuda, mas não havia ninguém por perto. Pensou em chamar a vizinha. Quase desistiu ao lembrar que a mulher dormia já fazia sete meses. Sem outra opção, foi até lá, tocou a campainha 85 vezes até que a mulher, com a cara um pouco amassada, veio atender. Explicou o que tinha encontrado no terreno. A vizinha logo sugeriu que chamassem os investigadores da polícia do Suriname, especializados em alguma coisa, que ela não se lembrava o quê. Os homens do Suriname chegaram em seguida, com suas fardas de plástico transparente. Cercaram a casa e, em movimentos que mais pareciam um filme, arrastaram-se até o quintal. Terminada a movimentação da tropa, o comandante perguntou para Juliana (em uma língua incompreensível) se por acaso teria sacos plásticos guardados, pois alguns de seus soldados estavam com as fardas rasgadas por causa do deslocamento pelo chão. Mas Juliana era uma mulher de consciência ambiental exemplar. Nunca pegava sacos plásticos no supermercado e muito menos os guardava em casa. Juliana lembrou-se dos pedaços de plástico-bolha que usara na mudança. Entrou em casa e, depois de algum tempo, retornou com o material, que entregou ao comandante, junto com uma tesoura e um rolo de fita-adesiva. A tarefa de remendar os soldados foi bastante demorada. Terminada a missão, só então o comandante deu as ordens e o grupo começou a cavar, cavar, cavar... Por fim, toda a ossada estava exposta. Foi um susto! Tratava-se do esqueleto de um anjo. Não havia como confirmar sua idade, mas dava para notar que era um anjo adulto. A vizinha tinha certeza de que era um anjo selvagem, e não desses criados para abate que se compra em qualquer açougue. O comandante ficou bastante surpreso com a descoberta, a ponto de engasgar quando tentava falar alguma coisa na tal língua ininteligível (que nem mesmo seus soldados entendiam). Ao perceber que tudo aquilo poderia complicá-los, o comandante deu outra ordem para a tropa e o grupo militar se liquefez, escorrendo de uma só vez pelo ralo do tanque. Juliana virou-se, e a vizinha dormia de novo. Com dificuldade, puxou-a pelas pernas largando-a na entrada da casa, pois, ao sair, a mulher fechara a porta com a chave dentro. Juliana olhou para o céu e viu o quanto o tempo corria, pois já estava amanhecendo, dois valetes tinham sido descartados, os outros dois formaram as canastras e seu cachorro tinha morrido há quase seis meses, quando ainda moravam no apartamento. Voltou sozinha ao quintal, agachou-se na frente do enorme buraco e permaneceu por muito tempo olhando fixo para a ossada. Passadas algumas horas, suspirou fundo, deitou-se na terra, apoiou a cabeça nas mãos e falou para si mesma: “por quê?” E, de imediato, uma voz interior respondeu: “por que o quê?”

Conto escrito para o encontro de 15/ 09/ 2015


Walter Macedo Filho é dramaturgo, jornalista, roteirista, escritor e gestor cultural. Integrou o Círculo de Dramaturgia do Centro de Pesquisa Teatral, coordenado por Antunes Filho. Como gestor cultural, atuou no SESC São Paulo, Arena Carioca Dicró, Biblioteca Parque Estadual e Instituto Augusto Boal. Publicou seu primeiro livro de contos, Nebulosos, pela Editora 7Letras. Atualmente escreve o roteiro para o novo filme do diretor Paulo Thiago após ter desenvolvido o argumento.