Quando chega o dia... - Walter Macedo Filho



Quando chega o dia...


Virgínia não sabia que havia chegado o dia da sua morte. Acordou eterna. Olhou o espelho num relance, sem ver quem realmente era. Perdeu a última chance. Escolheu a roupa com desleixo. Nem a melhor, nem a pior. Por certo, a menos apropriada para ser encontrada morta. A primeira-última refeição foi ligeira e insossa. Não levou sabor inesquecível para o sempre. No caminho, pensou em coisas desimportantes. Fugiu das reflexões, das dúvidas, das decisões. Deixou tudo para depois, para mais tarde, para o dia seguinte... que não houve. Fez o mesmo caminho do todo-dia. Desconsiderou a vontade de conhecer o bairro novo, o parque inaugurado há pouco... não dava tempo: tinha que chegar logo no mesmo lugar, pelas mesmas ruas, para ver as mesmas pessoas e fazer as mesmas coisas. Enquanto trabalhava, quase cantarolou músicas que gostava, como costumava fazer tempos atrás. Não foi adiante. Deixou a persiana fechada e não pôde entrever o clima lá fora: se permaneceu igual... se chuva, se vento, se nuvens, se sol... Afinal, era só mais um dia, que não sabia ser o último. Ia telefonar... desistiu. Ia falar com o chefe da ideia que teve. Preferiu procurá-lo em outro momento... que não aconteceu. Ia comentar com alguém o sonho da noite anterior, parecido com o filme que vira e gostara tanto, mas... Quis mandar uma mensagem reconciliadora para o namorado, com quem brigou um dia antes. Percebeu a besteirinha que causara a discussão e começou a escrever. Guardou o rascunho; não enviou. Na hora do almoço, saiu apressada, sem razão para isso. Cogitou não retornar e largar-se no resto do dia. A culpa puxou-a de volta. Repetiu as tarefas repetitivas. Terminou o dia que não terminou. Pegou suas coisas e foi embora, para lugar nenhum.

Conto escrito para o encontro de 29/ 09/ 2015



Walter Macedo Filho é dramaturgo, jornalista, roteirista, escritor e gestor cultural. Integrou o Círculo de Dramaturgia do Centro de Pesquisa Teatral, coordenado por Antunes Filho. Como gestor cultural, atuou no SESC São Paulo, Arena Carioca Dicró, Biblioteca Parque Estadual e Instituto Augusto Boal. Publicou seu primeiro livro de contos, Nebulosos, pela Editora 7Letras. Atualmente escreve o roteiro para o novo filme do diretor Paulo Thiago após ter desenvolvido o argumento.

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