Os consanguíneos - Maria Leão



Os consanguíneos

Suas costas lhe doíam, já faziam mais de quatro horas naquela mesma posição curvada tentando acertar o encaixe da manga. A máquina é velha, sem os recursos que são ofertados nas novas, mas o ponto é bom. O canto do motor também é bom. Como se apreciar ponto e canto pudesse garantir a resolução da manga. Logo a manga essa palavra homonímia, que existe para provocar confusão nos delineados ao ponto e canto de fazê-los acreditar que o objeto da contenda pode vir a ser, em delirante hipótese, o preparo de um sorvete, ou a produção em série de revistinhas japonesas. Tudo bem! É roupa mesmo. Ou parte dela, cujo encaixe esta impossível.

É ‘bem feito’ para quem não quis atender o tempo quando o segredo estava disponível.

Com tanto pano pra manga, resta agora acreditar que o segredo está no sangue, aquele mesmo que vem do corpo de seus antepassados e agora se faz presente e líquido, direto até a ponta de seus dedos para firmar o encaixe, sem passar por questões de palavras ou gestos, emboladas nos entraves das gerações. Sombras aristocráticas da crença que a sabedoria é transmitida aos herdeiros pelo sangue. Se assim fosse, poder-se-ia acreditar, depois de inumeráveis voltas do mundo, na capacidade de qualquer humano, pronto e operante, executar qualquer ofício criado desde o infinito passado até o presente, a partir de nascido. Ou antes.

Então chega a hora de plugar os equipamentos. Fecha os olhos, trinca os nervos, e mergulha no escuro de seu corpo, encontra pelo caminho o agito de sua própria porosidade escorregadia, e se enfurece por ter que sustentar como um fardo, todo o conteúdo que se manifesta indiferente a sua vontade, o tal desejo-chave do encaixe da manga. Nenhuns dos bombardeios mostram possibilidades de juízo, apenas bombardeiam. Como as moções e os raios.

A dor obriga abrir os olhos. Suas costas lhe avisam. Já faziam mais de cinco horas naquela mesma posição curvada tentando acertar o encaixe da manga. A dor, fio que conecta os mundos dentro e fora, lembrou-lhe na hora que aceitar a derrota, seria uma boa maneira de decidir o que fazer! Muitas coisas ainda podem ser feitas, desde comprar a roupa pronta; ou ligar para alguém de notório saber sem custos; ou pagar um serviço qualificado. Quem sabe frequentar um curso de corte costura e aprender! Mas aprender representa doar um lugar da mente para receber algo que já deveria estar ali por ser cosanguíneo. É uma sensação de filho pródigo. Um fracasso na linhagem. Um E. T..

Continua a teima, retorce seus arquivos nas caraminholas elétricas, quase em choque, em busca de alguma lembrança vaga da infância, tempo de sua avó viva nas costuras, ávida em partilhar o saber. Puxa e chacoalha gavetas até que vê em HD modo mudo, que quando na vez de aprendiz, erguia paredes de preguiça em seus ouvidos para impedir o ruído da velha, na luta para lhe transmitir, por inábil dizer e coreografia cansada, que seu maior desejo era que seus descendentes não precisassem pregar sequer um botão, pois toda atividade de costura é capaz de provocar muita dor nas costas.


Conto escrito para o encontro de 29/ 09/ 2015
 




Maria Leão nasceu em Teresópolis, município da Serra Fluminense, em 1964. Formou-se arquiteta e trabalhou nesta profissão por 20 anos. Em 2009 estudou roteiro cinematográfico e dramaturgia, a partir deste novo rumo, escreveu dois longas metragem não filmados, e vários curtas, duas peças teatrais, sendo a de título Jabuticaba merecedora de uma menção honrosa no Concurso de Dramaturgia do Instituto Guilherme Coussol em Lisboa no ano de 2013. Publicou em março último o romance Morangos Selvagens. É sócia idealizadora do hostel A Casa Azul em Teresópolis e membro do coletivo de artistas Acasos na Casa como dramaturga e produtora. maria.leao@outlook.com.br

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