Pelo Menos - Poliana Paiva



Pelo Menos

Nem passar dos trinta a gente pode mais. Outro dia, na sala de espera da depilação, uma menina me perguntou se eu estava encarando bem a menopausa. Tudo bem a pessoa ser novinha, gatinha, cheirando a leite. Tenho sobrinhas, afilhadas, sei como é. Mas daí a achar que uma mulher de trinta e cinco anos está na menopausa é um pouco demais. Minha vontade foi dar-lhe uma resposta atravessada mas fiz a fina, dei um sorriso amarelo-margarina e voltei pra minha “Caras”. Mais precisamente, pra reportagem sobre o vazamento de fotos íntimas de alguma celebridade. Nessas horas fico feliz de não ter emplacado como atriz, porque, do jeito que já perdi vários aparelhos, se eu tivesse feito qualquer ponta em “Malhação”, meus bucelfies estariam por aí, espalhados em todas as redes. Esse tipo de coisa com certeza me deixaria arrasada e poderia ser capaz até de tolhir meu exibicionismo, pra tristeza de todos os meus paus amigos. O sorriso amarelo-margarina de superioridade tinha um motivo: eu não estava indo me depilar à toa. Havia uma demanda. E não era uma demanda qualquer. Era uma demanda de cu. Eu estava naquela sala de espera indigesta só pra fazer a cavada bigode-de-hitler-cu-incluso. Negócio responsa. Consegui encaixe com minha depiladora à tarde por um milagre. Já o encaixe de logo mais à noite consegui (quem diria?) num evento de poesia. Era uma homenagem à Hilda Hilst, o que, querendo ou não, dá vontade de falar de cu, de lambidinha no cu, dedadinha no cu, pirocadona no cu, tudo no cu. Dá vontade também de falar de teste da farinha, de plug anal, de dupla penetração, de cuspe, de K.Y., de vibrador, de chuca, de colocar camisinha com a boca, de dar de quatro, por cima, de ladinho e coisa e tal. Tudo isso me deu vontade de falar pra garota insípida que achou que eu estava na menopausa, mas a vontade de falar se calou. Há tempos ando comedida. Deve ser porque já lati demais. Já ladrei demais. Já babei demais. Agora só quero a poesia de um leitinho morno na minha cama. Quero sentir todo o alfabeto entrando. Verso por verso. Letra por letra. Rima rica atrás de rima rica, sem tirar de dentro da estrofe.

“Senhora, sua depiladora a aguarda”, ouvi alguém dizer em em alto e bom som.

Interrompo meu devaneio anal, olho pra garota e sorrio. Ela me sorri de volta. Não há mágoa em meu coração, apenas o desejo de que um dia ela aprenda a não fazer perguntas desnecessárias. Uma moça naquela idade já devia saber que é melhor dar o cu que a intimidade.


Conto escrito para o encontro de 13/ 10/ 2015





Poliana Paiva é formada em Cinema pela Uff e em Teatro pela Cal. Dirigiu e roteirizou 4 curtas, foi roteirista dos programas de auditório 'Esquenta' e 'Papo de Mallandro' e, no momento, escreve seu primeiro longa, uma série para tv e uma série pra web. Foi publicada em duas coletâneas de novos autores e selecionada no concurso 'Poema nos ônibus e nos trens', promovido pela prefeitura de Porto Alegre. Fora isso, integrou as exposições 'Liberte a literatura' (2012), no Centro Cultural da Justiça Federal e 'Caneta, Lente e pincel', no subsolo do Monumento a Estácio de Sá (2013) e no foyeur do MAM (2014). Sua página no facebook, www.facebook.com/romanticuzinhos, tem mais de 20 mil seguidores e a ideia é transformá-la em livro até 2016.

Comentários

  1. depilation e desopilation! <3 uma tarde escrota para uma escrita à noite, como previsto: várias carimbadas no papel em branco, por trás da cena o corisco encara o campo limpo, sem um fio sequer, não há mais pentelhos no cu! amei [xnd dos Ratos]

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