Trecho do livro "Poema", de Alex Andrade

O autor Alex Andrade esteve no Clube da Leitura de 13/05/14. Ele leu um texto de seu livro, "Poema", e cedeu dois exemplares para o sorteio no fim da rodada. Abaixo, o começo de seu conto, "Minhas noites com Rimbaud".

Minhas noites com Rimbaud

Paulo, então, experimentou novamente seu exercício de prazer.
Abriu a porta da casa sem fazer barulho, destrancou tudo, e foi saindo, deixou a casa com as portas escancaradas, sem a preocupação de fechá-las depois. Continuou a andar. Os olhos estavam compenetrados e os ouvidos concentrados na música que vinha daquela casa.
 A pequena luz apontando o caminho: “Oh não, não”, pensou em um instante. E enquanto entrava, disse: “Deus, me surpreenda.”
Abriu o portão com uma rapidez incrível, que nem mesmo ele sabia que tinha, pois a todo momento lembrava que lhe faltava coragem para a vida. Depois se meteu dentro da casa e foi entrando. O ar fresco era inominável, ele que morava nas montanhas numa cidade fria estava desacostumando com tudo.
Recomeçou então a andar, agora duro, tateando as paredes para se assegurar de alguma coisa. Ajeitou o casaco que tinha apanhado antes de sair. Com a leve contristação de quem vivera desamparado por uma vida inteira, sem ninguém, revelava-se então um homem prestes a desvendar as surpresas da vida.
Mas a música lhe rodava os pensamentos mais inabitáveis: a ausência dos pais, a falta do amor num cansaço da procura, num choro mudo, e ele quis voltar.
No instante seguinte, o homem, sem conseguir recuar, viu apenas a sombra de alguém a andar pela sala, silenciosa e firme. Depois ouviu aquela voz, o piano não era mais tocado.
De súbito recorreu a ele o medo de tudo.
Mas era tarde e se manteve onde estava.
Andando de um lado para outro, impaciente, o corpo magro, frágil, vestido com roupas largas perambulava pela sala.
Numa das mãos um livro, enquanto a outra gesticulava impunemente, sempre com um cachimbo aceso.
Pela sombra via o emaranhado dos fios do cabelo. Era um menino. Tão belo que, à distância, desenhava-se um enigma. Nos olhos carregava a melancolia erguida pelo espírito.
O homem ficou parado admirando-o, talvez quisesse ir embora, mas o som que vinha era bom, melhor do que a canção do piano que o conduzira até ali.
E no silêncio da noite fria, os passos apressados, gestos largos, um olhar desenfreado a romper-lhe os nervos, o menino o olhou um instante.
 Paulo sentiu o frio que entrava pelas janelas abertas da casa azul, teve o ímpeto de fechá-las, mas o menino protestou: não feche, deixe o ar entrar, preciso sentir esse frescor, preciso respirar, dizia, enquanto conduzia o outro até a cadeira perto da janela.
Eles então se olharam.
O menino sorriu e estendeu a mão, muito prazer, Arthur Rimbaud, às suas ordens.
O homem aprumou um pouco a cabeça, ligeiramente recuou o corpo em desconfiança. Mantendo os olhos bem abertos, uma sensação de aflição foi se misturando com tantas outras, ele permaneceu imóvel enquanto o outro falava. O coração apressou-se em bater mais rápido, numa espécie de fuga para não sentir o que estava sentindo.
O menino deu outra investida, já derramei lágrimas demais, desgosto me assoma, sorriu com seus olhos de vertigem.
 O homem desviou o rosto perplexo, desprendeu-se da cadeira e estava quase saindo daquele lugar quando o menino, sem se mover, de onde estava, abriu os braços e disse pausadamente, como tentativa de assegurar ao outro de que ele era quem era: Arthur Rimbaud.


(do livro "Poema", Confraria do Vento, 2013)



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