O Plano - Cláudio Santos

O Plano


E de algum tempo eu reparei que minha mulher, que já não me amava, suponho, deixava meu jantar em um pote plástico. Desses que vão pro microondas. O que, não posso deixar de admitir, é alguma forma de afeição. Mas não necessariamente amor. Nunca nada especial. Um punhado de arroz e feijão, alguma peça de carne, ou frango ou peixe ou nem isso. Uma omelete, talvez. Um punhado de macarrão e mais alguma coisa. Isso por que eu nunca dizia que horas eu iria chegar. Durante tempos antes, no início do nosso casamento, há dez anos, tudo funcionava como um relógio. Eu, digitador de uma empresa terceirizada de banco saía depois de ela chegar do trabalho. Ela funcionária de farmácia. Dez e meia ela chegava e o seu sanduíche e seu refresco já estavam numa bandeja na mesa da sala. Depois que fui trabalhar no tráfico do morro ao lado de casa não pude garantir os horários. As dívidas aumentaram, fiquei desempregado, não teve jeito. Sempre tem um colega de bar pra dar conselho errado. Nunca pensei em ir pro mundo do crime. No máximo apontador de bicho, em outra época que fiquei desempregado. Que é mais “leve” do que traficante. Por mais que eu estivesse ganhando melhor, e avisasse que não precisava deixar jantar, ela o fazia. Como uma cobrança pela minha “escolha”. Que ela apenas supunha, mas eu não dava certeza.
Não era por que eu estava ganhando bem que iria me indispor aos seus caprichos. Era por que não dava tempo.  Eu não tinha mais horário. Tinha um revólver e obrigações. E não diria a ela nunca. Muito menos morto.
Me alimentava aos olhos dos gatos. Eles em cima da geladeira, eu em pé.  Um casal. Ele com uns seis anos, ela com uns cinco. Me observavam com um ar reprovador. Sempre. “Por que você faz isso aqui, como se quisesse nos provocar, aqui na sala de jantar? Vá pro seu quarto! Não nos aborreça!”
Até que a mulher vinha e discutia: “Pra que essa luz ligada na sala de jantar? Na cara dos pobres bichinhos? Que não podem se defender nem reclamar?”.
Voltei para meu quarto levando meu prato, terminei minha refeição e planejei a morte de todos eles.
Um por um.


Conto escrito para o encontro de 13/05/2014


Profissional de informática, ex-"um monte de coisas" (baixista, auxiliar de escritório, técnico em eletrônica, vendedor de pão caseiro,etc). Escrevia poemas entre os 15 e os 17 e jogou tudo fora (autocrítica forte). Em 2007 começou um blog de crônicas, em 2010 começou um livro e em 2012 conheceu o Clube da Leitura e, por isso, começou a escrever contos e publicá-los em novosapontamentos.wordpress.com



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O livro do desassossego, de Fernando Pessoa

O Caderno Vermelho, por Leo Almeida

Diatribe, por Vivian Pizzinga