Uísque

Aquele porteiro praticava um hábito curioso: bebia à noite durante o serviço doses de uísque. Digo curioso porque imagino o seu salário. Sem grana o bastante para criar família ou entreter namorada, ainda assim reduzia as parcas despesas, curtia sacrifícios para saborear à noite doses queridas de uísque.

Tomava várias precauções, sabia quando beber. Sempre depois da meia-noite, quando os moradores já deitados sonhavam sobre travesseiros. Sacava a garrafa de um armário esquecido em um canto da portaria, do seu quarto trazia o gelo, esticava-se na cadeira de rodinhas e assistia à televisão. Embriagava-se devagar, protegido pela escuridão da portaria.

Uma noite, Milena chegou com vontade de falar, os papos com os amigos não tinham sido suficientes. Parou junto dele, observando seus olhos baços, avaliando o homem que descobriu beber escondido, mas que parecia capaz de conversar.

Ela perguntou quanto é que fora o jogo.

Ele perguntou quê jogo.

— Não sei, sempre tem um jogo.

Ele riu à vontade daquela frase perfeita. Ela riu também.

O papo prosseguiu. Depois de minutos, ele quis buscar para Milena um copo e Milena foi catar em casa um uísque melhor. Ela tinha um doze anos largado em casa, um ex-namorado sovina o esquecera. Desceu na volta os dois lances de escada, duvidando se era mesmo verdade que descia para beber uísque e conversar com o porteiro. Não cogitou nem por um segundo que descer poderia render mais do que isso.

Ninguém cogita.

Seria um mundo em que dormiriam juntos no quarto onde ele descansava o corpo depois do trabalho. Só que não. Naquela noite e nas outras em que o encontro se repetiu, Milena deu somente o seu recado: falou sobre suas incríveis opiniões, pois guardava muitas. Gostava do porteiro porque ele ouvia suas histórias interessado e arriscava uma prosa de qualidade diferente daquela dos rapazes, sua prosa gerava uma atmosfera sedutora de paz. Quando Milena atinou com a sensação, disse intrigada para si mesma:

— Deve ser o uísque.

Com vontade de ter certeza, convidou um amante a vê-la em seu apartamento. Vestiu na ocasião uma roupa comportada, que sexo não era o objetivo. Botou para tocar uma música e serviu suas comidinhas. Nada de cerveja. Beberam uísque.

Não conseguiu na ocasião mais do que uma trepada correta. Desdenhou dela. A receita que Milena praticava no apartamento detinha um valor infalível, como arroz e feijão, como queijo e goiabada, como risoto e camarão. Trepar assim nunca levaria a marca perene de uma nota ruim, mas Milena esperava que a performance do amante fosse outra, ganhasse em prazer da prosa pacífica do porteiro.

Insistiu. Subia com o rapaz diante da face do porteiro, que nunca manifestou ciúme. Insistiu também com as conversas inocentes na portaria, que se tornaram uma resposta à inquietação das baladas, Milena insistia no tempo com o bêbado, a provar de sua paz alcoólica, administrada pelos preços das garrafas em promoção no supermercado.

Uma vez, o rapaz que lhe servia de amante quis companhia e tentou uma visita surpresa depois das doze badaladas. Milena atestara pelo whatsapp que passaria a noite em casa. O rapaz chegou no prédio de pileque, cheio de coragem e esperança. Encontrou a possível namorada em conversa animada na portaria. Milena negou-se ao constrangimento, convidou o rapaz a participar do papo.

A ideia não foi má. Contudo, observar os dois compartilhando aquele uísque saturou o pretendente de males inesperados: a simpatia do porteiro injetava indignação nas suas retinas e gerava um desprezo que amadureceu quando Milena e o rapaz subiram. Milena tentou no que restou daquela noite conciliar duas forças desenganadas: a prosa calada do rapaz arrependido da iniciativa e a memória do porteiro de hábitos abusados. O fracasso foi evidente. A transa não foi boa.

Na manhã seguinte, o rapaz abdicou de todo orgulho.
  
No elevador do prédio, abordou o assunto com o síndico.

Reclamou apenas do uísque.

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Conto lido no encontro de 19/07/2016



Marco Antonio Martire é carioca, autor do livro de contos "Capoeira angola mandou chamar" (2000) e do ebook "Cara preta no mato" (2001). 

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