O FANTASMA DE DEODATO

Por Maiara Líbano

- Fica quieto aí que isso é um assalto! Mão na cabeça! Mão na cabeça, porra!
- Opa opa. Tudo bem. Pode ficar tranquilo. Eu imagino que você deve estar mais nervoso do que eu.
- Cala a boca! Mandei tu falar alguma coisa?
- Calma...calma. Não precisamos nos tratar dessa forma. O que quero dizer é que eu sei o que você está passando. Você certamente é um excluído do mercado de trabalho e vivencia na pele as mazelas da desigualdade. Não sou seu inimigo. Pra mim roubo é distribuição de renda.
Em qualquer outra ocasião o bandido gostaria daquilo que ouviu, mas naquele momento se sentiu profundamente desrespeitado.
- Aqui eu sou o bandido e você é a vítima. Ok?
Após amarrar os punhos e os pés de Deodato, o bandido começou a circular pela casa jogando tudo pro chão, procurando coisas de valor. A primeira coisa que apanhou foi o laptop.
- Provavelmente você não sabe, mas esse é um macbook última geração. Tem um alto valor de revenda. Não se deixe enganar, pessoas mal intencionadas podem querer pagar um valor mais baixo.
O bandido olhou para Deodato com desprezo. Fez menção de falar algo, mas um espirro irrompeu sua fala.
- Com todo o respeito, mas você não quer tirar essa meia do rosto? É tão desconfortável.
Depois dessa o bandido passou uma fita na boca de Deodato e o deixou ali sentado, amarrado e amordaçado. Tinha experiência com vítimas agressivas, histéricas, resistentes, paralisadas. Mas chatas não. Deodato era o primeiro.
Depois de recolher tudo o que prestava naquela casa, o bandido se virou para onde estava Deodato, por um minuto até pensou em soltá-lo. Mas ao olhar para sua cara flagelada viu que por detrás da fita ele sorria. Não era ironia, sarcasmo, nem loucura. Era como se aquele sorriso fosse um riso da sua incapacidade de ser mau. Sem titubear tirou a arma da cintura e PAH acertou o tiro fatal no peito de Deodato. Correu, apanhou os pertences e fugiu pelos fundos do condomínio.
Mais tarde deitado ao lado de sua mulher na cama o bandido pensava no bizarro roubo daquela noite. O bandido era experiente no ramo, homicídio não tirava seu sono. Mas naquela noite se sentia perturbado, fritava de um lado pro outro, não conseguia dormir. Até que abriu os olhos para ver que horas eram e viu, ali ao seu lado, o fantasma de Deodato.
- Não se deixe levar pela culpa. O que houve foi um impulso natural do seu corpo que reagiu em estado de torpor e adrenalina ao que somos acometidos diariamente.
- Não, não é possível. Eu estou delirando. Que você está fazendo aqui?
- Certamente vivemos um momento de crise social e política de natureza ética e moral, sobretudo dentro do paradigma da desigualdade ante a utopia pela igualdade social.
No outro dia, quando acordou do cochilo que conseguiu tirar depois da noite insone o bandido viu que não tinha sido pesadelo. O fantasma de Deodato estava ao seu lado continuando a palestra de onde havia parado.
O bandido nunca mais conseguiu se concentrar nos assaltos seguintes. Porque em todos os momentos lá estava o fantasma de Deodato teorizando sobre política social. Quando o bandido ouvia funk, o fantasma de Deodato discursava sobre o Juízo de gosto em Kant. Quando o bandido estava num churrasco, o fantasma de Deodato lhe apontava os benefícios do veganismo. Quando o bandido passava muitas horas deitado, o fantasma lhe dava palavras de incentivo “ei faça exercícios físicos”. Já desesperado, o bandido procurou a Igreja, acreditando que recorrendo a Deus o fantasma o deixaria em paz. Estava enganado. “Deus está morto.” E o fantasma iniciava assim a palestra sobre Nietzsche e a crítica da religião que passaria a dar durante os cultos, ao seu lado no banco da Igreja.
À beira do enlouquecimento o bandido já não conseguia mais se reconhecer. Já tinha se separado da mulher, já não conseguia mais assaltar, sequestrar, nem sequer furtar em paz. Até que um dia subiu até o alto do morro e lá de cima meteu uma bala na própria cabeça. Seu último pensamento: “Senhor, que eu vá para o inferno. Mas que fique longe desse fantasma.”
No além, sem inferno nem céu, finalmente iguais, os fantasmas do bandido e de Deodato nunca mais se encontraram.

Conto vencedor do encontro de 19/07/2016

Maiara Líbano não é precisa, é contraditória.



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