Panela de Barro

por Maiara Líbano


Como não era visível, por um tempo não se fazia notar. Ao contrário, um cromossomo a mais ou a menos não faz mistério. O distúrbio logo se mostra. Mas esse era um tipo de moléstia sem rosto. Uma imperfeição que ia aparecendo aos poucos.
Ainda bebê a mãe suspeitava, estranhava o balbucio, um balbucio monótono de som, um balbucio tardio. Mas a família tratava logo de espantar esses maus pensamentos da mãe. - É só um bebê, como pode se queixar de qualquer coisa mulher? Num mundo tão estressado tens um bebê calmo. Não se afeta pelas coisas, vai ver já nasceu sabido. Pode ser um presente de Deus!
Mas a mãe percebia o filho. E percebia que o filho não percebia as coisas. Nem as coisas, nem as pessoas. Porque tinha suas ausências. Os olhos parados no vazio. A mãe sentia que nada poderia interromper seu devaneio. Os brinquedos, os penduricalhos do berço. Nada. O menino era um grande sono. Tinha muita vida interior. E somente interior. A parede invisível entre ele o mundo ficava cada dia mais larga. Até que a mãe então decidiu buscar ajuda de um médico. - Não sei doutor, é que ele tem um olhar que não olha.
Quando o médico pôs nome à coisa, tudo mudou. As pessoas mudaram. Não tinha nenhum "se", nenhuma esperança. Um natimorto vivo era o que pensavam as "amigas". Um natimorto traz consigo o sofrimento de um luto. À diferença dele, o sofrimento teria a duração de uma vida, que poderia ser miseravelmente longa. Olhares de piedade os seguiam quando saíam à rua.
Durante os primeiros anos a mãe era toda coragem. Eles não sabem de nada! Vamos construir um mundo, eu e você meu filho. Onde vai ser tudo de sentir. Não vai haver erro. Porque também não vai haver acerto. Só vão ter as coisas. A ideia ferrou com tudo. A ideia te chamou de doença.
A mãe culpava a linguagem. Pois foi quando ela apareceu que as coisas iam mal. A BE CÊ DÊ. - Repete comigo, insistia a professora. Infelizmente não podemos com "crianças especiais". A palavra doce apunhalava a mãe. - Se entende como erro por que chama de especial? É autismo o nome disso! Logo se apercebeu que estava cedendo à própria inimiga. A linguagem que batizava de "autismo" era a mesma que corrigia para "especial". Daí passou a dizer apenas: assim. Meu filho é assim.
Passado algum tempo o marido entregou-se à covardia. - Conceição, espero que um dia me perdoe. Mas essa vida já não posso mais viver. Sou fraco e preciso de pequenas alegrias. Não tenho o suficiente pra me doar por completo a alguém. Não é desprezo. Sou pouco. Não me sobraria nada.
Por um tempo a vida solitária a encheu de tristeza. A vaidade foi-se embora. E junto com ela a fé. Já não ia mais à missa de domingo. Já não participava mais das festas da vila. Vivia para o trabalho e para o filho apenas. Sua rotina era da casa ao trabalho, que era uma barraca na beira da estrada onde vendia panela de barro, côco verde, banana e água. Sua barraca era uma entre dezenas de outras ao longo da estrada rumo ao litoral da Bahia.
O desejo da mãe era só o de estar viva. Não podia morrer antes do filho. Ela sabia que os filhos partirem antes dos pais era contra a lei da natureza. Mas numa natureza que errou uma vez já não se pode mais confiar. E como tinha medo de que a doença fosse com ele agarrada pro céu, guardava na gaveta do criado mudo um veneno. E assim morreria imediatamente depois dele.
Mas na vida só dos dois, sem nenhuma testemunha as coisas funcionavam. Acordavam cedo, tomavam café, colhiam o côco, buscavam as bananas, enchiam o isopor de gelo. E sentavam-se na sombra à espera de que um carro escolhesse sua barraca dentre todas as outras. A mãe passava as horas do dia produzindo novas panelas de barro. O estoque crescia, mas quase nada vendia. O filho passava com os olhos parados em alguma palmeira, em algum graveto. Às vezes contava as placas dos carros. – Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia. À noite somava quantos carros de cada estado tinham passado naquele dia. A mãe fingia interesse. Filho enfermo, filho eterno. Pensava.
Um dia, que era pra ser igual a todos os outros daquela vida pacata, o filho fez algo que a mãe nunca permitira: mexer na argila da panela de barro. Ficou lá pra dentro, manuseando, horas a fio aquele bolo de argila. De noite, a mãe viu o objeto no centro da mesa da cozinha. Era um rosto. O olhar da escultura até assustava a mãe. Parecia gente. Tinha detalhes demais, era expressivo demais. A mãe perguntou se fora a primeira vez que o filho tinha feito uma coisa dessas. Descrente, pediu que ele fizesse mais uma. Dessa vez uma imagem dela mesma. De novo, a escultura ficou perfeita. As imperfeições que haviam na imagem eram apenas aquelas que também existiam no rosto da mãe. Era como se todas habilidades que ele deveria ter estivessem somadas naquele único talento de dar beleza ao barro.
Daí em diante passavam, os dois, o dia todo mexendo no barro. A mãe fazendo panelas, e o filho esculturas. Não demorou pra que um freguês que parava por um côco verde observasse aquelas belas esculturas enfileiradas ao lado das panelas. Foi o primeiro comprador. Como não sabiam dar um valor, venderam pelo mesmo preço da panela.
O talento do filho da Conceição logo passou a ser assunto sabido de um lado ao outro da vila. Não havia quem não tivesse visto as esculturas. Até o padre encomendou uma pra paróquia. A coisa mudou mesmo no dia em que um jornalista passou na barraca. E a escultura passou na televisão. Chamaram de “Art Brut”. E depois vinha gente rica comprar. Com a bonança divina cresceram a casa, fizeram um puxadinho, tudo de alvenaria.
Dizem que era porque o coração da Conceição não aguentava felicidade, estava acostumado demais com a dificuldade. Mas em pouco tempo, sem qualquer motivo aparente, foi encontrada morta dentro de casa. A denúncia veio de uma vizinha, que estranhou o fato de não ver mais nem a mãe nem o filho na barraca. E depois veio o cheiro forte. Ninguém podia acreditar. Mas a polícia, depois que encontrou o veneno no criado mudo, disse que aquilo era um indício e que ele era um suspeito.
O caso nunca foi julgado. Mas, como temia Conceição, seu filho passaria os dias de sua vida, miseravelmente longa, no hospital psiquiátrico da região.

Dizem que a enfermeira levava argila escondida pro seu quarto. Mas ele nunca mais fez uma escultura. Só panelas de barro. 

Conto vencedor do encontro de 23/08/2016 baseado em mote de Clarice Lispector

Maiara Líbano não é precisa, é contraditória.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O livro do desassossego, de Fernando Pessoa

O Caderno Vermelho, por Leo Almeida

Diatribe, por Vivian Pizzinga