As Noites devem morrer

por Vinicius Varela


A minha história de amor com Júlia é a história de como eu tentei mantê-la viva, como fiz de tudo para que a sua vontade de viver fosse maior que a sua pulsão de morte e não consegui. Fracassei em fazer com que se agarrasse à vida.
A morte rondava nossa casa. Eu sentia como ela fazia minha barba com sua gadanha como se ela fosse uma navalha. A morte era nossa convidada. Júlia a havia deixado entrar. Quando eu desenhei o círculo mágico no chão de casa já era tarde. Não havia contrafeitiço capaz de nos proteger. A palavra tem poder. A todo instante os homens proferem maldições. A morte já havia sido invocada. Júlia pronunciado em voz alta que preferia morrer a continuar vivendo desse jeito.
Júlia era iniciada em mistérios. Guardiã de escuridões. Com dolorosa certeza sou obrigado a afirmar que jamais me aproximei do coração dela. Ela era toda escuros. Júlia ninava o silêncio. De sua treva me revelava dentes de vampira. Dente lindos, claros. E essa é toda clareza que tenho sobre ela. Seus dentes perfeitamente vampirescos, porque não importava o quanto anoitecesse, os dentes de Júlia eram lunares. E seus dentes agora jamais esclarecerão qualquer coisa.
Quando conheci Júlia, isto é, tomei consciência dela, era noite ou dia, (mas na minha memória qualquer lembrança de Júlia sempre se passa à noite, ou com um fundo negro, ou em um lugar escuro) ela me disse jamais ficarei com você. Eu sou um eclipse. Os eclipses podem ser admirados, mas aparecem inesperadamente e por pouco tempo. Eu sou precisamente um eclipse no fim. Desde que nasci já estava no fim. Há 27 anos eu estou no fim e não acabo de findar. Mas pode acontecer a qualquer momento e, nesta noite, sinto meu fim mais próximo do que nunca. Estou prestes a me eclipsar. Se você se envolvesse comigo, seria o seu fim. E o fim é meu, só meu, não compartilho o fim com ninguém. Sou egoísta demais para compartilhar o fim com alguém. Agora eu vou embora, para que você não precise ir, porque o meu embora é para sempre.
Eu deveria ter colocado um fim nesta história nesse momento. E eu pus um fim. Mas não como se esperava que eu fizesse. Eu pus um fim em meu coração. Deixei que o fim ocupasse o meu coração e o nome desse fim é Júlia. Me apaixonei pelo fim. Porque sou idiota, porque não sei quando parar de escrever, porque não sei quando dar a última palavra, deixei que a história seguisse e qualquer pessoa inteligente sabe como termina
esta história, é muito óbvio, mas eu vou continuar contando porque preciso, para alongar um pouco o fim, para amar mais um pouco o fim, assim como eu amei Júlia e amo ainda, porque meu amor não pode mais conhecer o fim, ele já o conheceu, Júlia, e é por isso também que nesta parte da história estou usando mais vírgulas que pontos, porque Júlia morreu e é desnecessário dizê-lo, porque já o disse no começo, Júlia morreu, findou, mas o meu amor não, e só estou dizendo tudo isto não pela história, porque não há, o que há é o meu amor, o prolongamento do fim, estou dizendo tudo isto para dizer o meu amor, não há como contar a história de Júlia, o que há, o que verdadeiramente há, o que sempre há e sempre haverá é o amor, só por isso falar de Júlia, para falar do amor.
O que houve com Júlia? É normal se perguntar o que houve com ela, eu também me pergunto. Como ela morreu? Já que história não há, no mínimo, resta a pergunta como foi que ela morreu. Ela morreu do jeito que todo fim termina, desaparecendo da história. Não há mais história depois do fim. Ela se eclipsou. Eu já não disse? Ela eternizou a noite. Ela queimou seu passaporte porque sua viagem era sem volta. Jogou ao mar os documentos. Realizou seu eclipse e ficou sempre noite. As noites devem morrer. Eu não podia com Júlia, nem ela podia com ela mesma. Mas quem é que pode consigo mesmo?
Esta é a história de Júlia que convidou a morte. E a morte aceitou seu convite. A morte veio buscar Júlia, tirá-la de mim, dos meus braços, da minha história. Júlia era magia negra. Júlia era tumba. A morte passou pelo círculo de proteção, tirou o pentagrama do pescoço dela, apagou as velas. Eu quis manter Júlia comigo. Ela não queria ficar desde o começo, o destino dela era ser noite, ser sempre noite, eclipse vampiresco. Júlia libertou os morcegos. Abriu seu armário de morcegos e deixou que eles saíssem. Eu amava teus morcegos, Júlia.
Júlia é meu fim. Este fim que não termina, esta Júlia sempre terminando, sem fim, Júlia, fim de minha vida, para onde foi afinal? Júlia finalmente. Júlia por quem eu era a fim. Júlia que amo com estupidez e o que dizer? enfim... Maldita Júlia que escolhi amar. Júlia sem final feliz. Finalmente vou te deixar em paz. Não há mais espaço para falar de você, Júlia. Meu amor continua fora destas linhas, no mundo o amor não tem fim, só na página, no texto. E agora eu me chamo Clarice, não Clarice Lispector, só Clarice, Clarice que ama Júlia como quem ama seu próprio fim. Clarice que deixou Júlia para trás. Porque eu não podia mais ser aquela mulher, agora eu sou Clarice.

(Conto lido no encontro de 23/08/2016 sobre mote de Clarice Lispector)

Vinicius Varela é tradutor. Seu envolvimento com a arte e a literatura é uma tentativa de traduzir o indizível da vida. A poesia é o ímpeto primeiro da tradução. Publicou os livretos de poesia Para abir a porta de emergência(2014), Poentes sob a ponte(2015) e De ellos sabemos que estuvieron y nada más(2104). Escreve regularmente para o Clube da Leitura desde o início de 2015, onde publicou seu primeiro conto na antologia Clube da Leitura Vol III(2015). Ficou em segundo lugar no Prêmio Carlos Drummond de Andrade(2015), organizado pela UERJ, com seu conto "Fotogramas", que será publicado em breve em antologia. É tradutor freelancer - português/espanhol e espanhol/português - e já traduziu poemas de vários poetas como Alexandre Guarnieri, do livro Casa das Máquinas(link da versão em espanhol: http://www.mallarmargens.com/2016/05/guarnieri-gringocarioca-varela-4-poemas.html?m=0 ) e foi um dos tradutores do livro "América Latina en 130 documentales", de Jorge Ruffinelli, com lançamento previsto para 2017. Anda envolvido com projetos independentes de tradução e mantém o blog https://aparatagens.wordpress.com/ e a página Aparatagens( https://www.facebook.com/aparatagens/?fref=ts ) que é um livro de minicontos em desenvolvimento virtual. Em breve também pretende publicar seu primeiro livro de poemas. 


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