O verme do meu analista - Vivian Pizzinga

O verme do meu analista Estive, dia desses, lendo o Kundera, insustentável e leve, e pensei sobre a merda e deus, deus e suas vísceras mais recônditas, a merda borbulhando no grosso e no delgado, o ânus como porta de saída de tudo o que um dia entrou, o homem à imagem e semelhança sabe-se lá de que devorador de comidas cósmicas. Estive pensando a seguir - associei de modo livre e esvoaçante - no meu analista, o Otto, muito impecável em suas cores em tom pastel, sua poltrona atrás de mim, seus leves movimentos, certos menear e piscar e andar, interpretações certeiras e perguntas perturbadoras, e lembrei de uma sessão em que ele disse que tomou vermífugo, nem sei a deixa, nem sei motivos, não sou capaz de adivinhar a finalidade de seu dito, mas que disse, disse! Tão contraditória aquela revelação com toda a discrição e todo o bojo de psicanalista dos bem formados, bem lidos, bem freudianos cultos, que cheguei a engasgar e, hoje, às vezes, só às vezes, duvido de que ele tenha...