quarta-feira, 14 de junho de 2017

Corredor Polonês, por Eduardo Villela

Sentada no banquinho, Daniele olha as nuvens ao lado e abaixo. Os querubins em torno não chegam a incomodar, quase fazem um pouco de cócegas. Com a rapidez que lhes é característica, checam boca, nariz, pernas e braços, cabelos protetores; um se detém mais em seu rosto, olhando-a fixamente. Este é um anjo superior, milhares de anos à frente dos demais. Os outros se ocupam em observar se ela enxerga bem, se pode ouvir qualquer ameaça, identificar algo nocivo pelo cheiro, sentir gosto estranho, sentir dor.
Eles nada dizem, mas parecem em conjunto mostrar a ela que nada será simples dali pra frente. Aí é que entra a importância do querubim mais evoluído, a testar sua percepção e raciocínio, inteligência e bom senso. Sabe que ela passará por momentos difíceis, desafiadores, que exigirão todos os seus sentidos e capacidades que aqui não têm uso. Daniele tem um pouco de medo, e o tal anjo então sorri, pois é justamente essa faculdade que ele quer testar agora. É um anjo só cuida de coisas invisíveis, e por isso desperta um pouco da inveja dos outros.
Ela olha de novo as nuvens lá embaixo, que nada deixam ver além. Tenta imaginar como é o mundo, não consegue. Não tem ideia de como será esse lugar que todos falam e ninguém conhece. Há os que vêm só por pouquíssimo tempo e retornam para lá, mas esses não conversam, parecem descansar enquanto passam pela manutenção angelical.
Daniele já ouviu fofocarem que além das nuvens há mares, tempestades, montanhas com precipícios, mas são só conjecturas... O que mais assusta, na verdade, é todo o aparelho necessário para viver a tal vida. Olhos, bocas, braços, nariz, isso sem mencionar os órgãos internos − pulmão, intestino, pâncreas, coração! Todo o aparato e a armadura em volta parecem indicar que a vida deve ser mesmo bem desafiadora e complicada.
E as tais faculdades invisíveis de que trata o anjo mais nobre? Será preciso usar tanta inteligência, astúcia, medo, sensibilidade, percepção na tal vida na Terra? O anjo nesse instante faz uma carinha preocupada, e de repente dá um empurrão nela para fora do banco, e Daniele vai caindo, caindo, caindo... Os demais querubins param estupefatos e ficam se encarando um ao outro sem entender nada. Até que o querubim superior desce, agarra-a pelo braço e traz de volta uma Daniele que, em vez de assustada, parece agora atônita. O nosso anjinho nobre respira aliviado, ao perceber em sua pupila que o medo agora dá lugar a outros sentimentos, como surpresa e espanto. As coisas parecem voltar a ficar em ordem.
De todos os itens a serem checados durante o trabalho dos anjos, as faculdades invisíveis são tratadas como superiores às outras. Às vezes, por uma falha, a pessoa até nasce com um ou outro problema físico, e algum querubim sofre advertência por isso. Mas quando o problema se dá dentro das tarefas do anjo superior, coitado, ele tem que ser reprovado mil anos atrás, para o mesmo trabalho dos demais, e conviver com o escárnio deles enquanto tenta escalar degraus de novo.
O trabalho em Daniele durou só mais um pouco que o necessário, então ela foi jogada de vez às nuvens, para ultrapassá-las e só retornar depois de toda a provação. Por que era assim, por que todos tinham que passar por isso, ninguém sabia explicar, mas devia haver algum motivo. O que sabiam de bom era que a dificuldade desalentadora a viver na Terra era inversamente proporcional ao tempo que ficavam lá embaixo, pequeníssimo se comparado à vida aqui em cima. Mas todos têm que passar por isso, sim. Alguns são tão fortes que sobem, passam por um pit stop rápido, e ainda retornam para ficar mais um tempinho por lá.
Isso era quase tudo que os querubins sabiam, baseado nas aferições a partir do trabalho deles. Tentavam deduzir como eram as coisas além nuvens a partir, apenas, do aparato necessário para essa aventura, que, por parecer tão desafiadora e rápida, chamavam-na “corredor polonês”.
A inspiração do nome veio de um ser que subira certa vez apenas para manutenção e repetia, seguida e pausadamente, essas duas palavras.

(conto lido no encontro de 13/6/17)

Eduardo Villela lançou seu primeiro livro de contos, "O Interesse pelas Coisas", em fevereiro. O livro está disponível no site da Editora Moinhos.


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