sábado, 3 de junho de 2017

Conversa, por Gabriel Cerqueira




Fevereiro de 1902, em São José do Barreiro - São Paulo


Felipe Azevedo andava de um lado para o outro na cozinha do casarão da Fazenda Santo Eustáquio. Ele esperava por Carlos Fagundes, um conhecido de infância a quem iria propor a venda da Fazenda São Francisco. Já tinha em mente tudo o que iria dizer e como agir, e estava confiante mesmo diante do desafio que estava por vir. Sentou em uma das cadeiras postas a uma longa mesa de mogno e bebeu um pouco do café que Dona Maria havia passado. Um burburinho se iniciou fora do casarão seguido. Fagundes entrou na cozinha. O rosto jovem, a pele bronzeada, bigode e barba finos, o cabelo ondulado e o corpo esbelto; parecia mais um peão bem cuidado que senhor de fazenda. Colocou o chapéu em cima da mesa e sentou-se em uma das cadeiras.

Fagundes não era uma pessoa fácil de lidar, isso Felipe sabia desde criança. Homem de poucas palavras e senso forte, o arquétipo de homem mal-encarado envolveu Carlos e a simples pronúncia de seu sobrenome, alcunha pela qual era mais conhecido, era recebida com receio por qualquer pessoa da região. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, viu-se obrigado a se afastar da advocacia após a morte do pai em 1897 para administrar os bens que herdara.

Felipe foi direto ao ponto - prolixo era uma das últimas coisas que Fagundes aparentava ser – e logo começou a falar sobre as dimensões da Fazenda São Francisco, de quão boa a qualidade da terra era, ideal para o plantio de café e das cabeças de gado que poderia angariar se aceitasse a oferta logo. Fagundes disse apenas:

- E o senhor seu pai concorda com isso?

Parecia que tudo que Fagundes dizia era friamente calculado. Felipe tinha a fama de bon vivant sustentado pelo pai. Felipe não se abalou.

- Senhor Antônio está muito doente. O médico disse que não dura duas semanas. Como não levo tino para os negócios de fazenda ele mandou que eu vendesse a São Francisco.

- Não sabia que Antônio estava tão mal assim. E por que você não espera a herança? Pode deixar a cargo do advogado do senhor seu pai, que Deus ainda terá, a venda das posses. E Pedro, que houve com ele?

- Por que a parentada está atenta feito urubu sobrevoando carniça. A todo momento chega gente que não vejo há mais de anos e agem como se almoçassem lá na fazenda todo domingo depois da missa. Pedro anda enfiado na Fazenda Aurora, em Barbacena - sentiu vergonha ao falar do único irmão que tinha, pois era o oposto dele e orgulho do pai, mas não deixou transparecer.

Maria Amália, esposa de Fagundes, entrou na cozinha pela porta que dava para fora do casarão. Não disse palavra. Se aproximou de Fagundes e tocou sua mão, e ele lhe devolveu o gesto. Era uma Gouveia e haviam se conhecido em Braga. O populacho de São José do Barreiro costumava dizer que Fagundes e Maria Amália eram duas faces da mesma assombração. Ela também compartilhava o ar sério do marido, não gostava de conversa mole, nem das reuniões de senhoras na cidade; gostava da roça, do sol batendo na face, de fruta colhida do pé. Caçava de espingarda na mão montada em seu cavalo. Sua pele também era bronzeada e os longos cabelos castanhos estavam presos em trança. A aura de mulher forte a envolvia, algo que ao mesmo tempo atraía os homens e os amedrontava. Para manter seus status de poder eles preferiam mulheres que costurassem buracos nas camisas em vez delas mesmas fazê-los.

Pessoa de alma pequena, Felipe pensava mais com a cabeça de baixo que com a de cima e demorou seu olhar mais tempo do que devia em Maria Amália. Fagundes sacou uma faca que estava em sua bota e a fincou na mesa. Enquanto os dois homens se encaravam - um parecendo uma cobra prestes a dar o bote, o outro a presa covarde que suava frio -, Maria Amália despejou um pouco de água num copo de barro; o som do líquido preencheu a cena fatal. Ela bebeu tranquilamente e se retirou do aposento.

- Para que serve a faca? - enfim disse Fagundes.

- Para fatiar… Cortar - Felipe tremia. “Lá vem os enigmas do Fagundes…”, pensou ele.

- O que determina isso?

- O fio da lâmina.

- E quem determina isso? - Fagundes fez questão de enfatizar bem a palavra quem.

- Aquele que a manuseia.

Fagundes pegou a faca e a deixou cair na mesa, a lâmina tilintou.

- Sem o homem a faca não nem existe. O metal habita as entranhas da terra e o cabo ou é árvore ou sustenta um animal. É o homem quem decide qual o nome do objeto e o que fazer com ele, como cortar a comida ou arrancar couro... Que tipo de homem eu sou?

Uma resposta que poderia ser considerada um ato de suicídio surgiu à boca de Felipe, que a falou sem pensar:

- Apenas um homem.

A sorte era que Fagundes não tinha o ego elevado e gostava da sinceridade contida nas respostas atrevidas.

- Visitarei seu Antônio nesta semana - Fagundes continuou com seu mistério; ao não dizer data certa poderia chegar a qualquer instante, o que atrapalhava qualquer situação que poderia ser ensaiada por Felipe. - É uma vergonha que ainda não tenha visitado um amigo de grande estima para mim e meu pai. Já está na hora de você ir.

Felipe pegou seu chapéu e acenou com a cabeça.

- Obrigado por ter me recebido, Carlos.

E Felipe saiu contrariado, com o gosto amargo da derrota na boca. O que havia imaginado não se cumprira, pelo contrário, tornara-se pior. Agora precisava arranjar algum jeito de matar o pai ou piorar sua saúde antes que Fagundes soubesse que Antônio Azevedo estava apenas com um resfriado.

(Conto lido no encontro de 30/05/2017) 

Gabriel Cerqueira não faz a menor ideia de quem ele é.

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