segunda-feira, 13 de março de 2017

O Pucaro Búlgaro, de Campos de Carvalhos

Mote: Trecho de “O púlcaro búlgaro” de Campos de Carvalho


13 de novembro
Fui ao psicanalista e ele me fez deitar num divã, sem o paletó, a gravata e os sapatos.
- Está se sentindo confortável?
- Muito. E o senhor?
- Desaperte o cinto.
- Quer dizer que já subimos?
- Limite-se a responder. Feche os olhos, procure concentrar-se. Fazia um calor dos diabos, e de repente me veio uma vontade louca de urinar.
- Já pensou alguma vez em matar seu pai?
- Muitas. Mas, se o sr. me permite, eu gostaria de urinar.
- Tem irmãos ou irmãs?
- Que eu saiba, não. Assim de momento é meio difícil...
- Gatos? Cachorros?
- Se o sr. não me deixar ir urinar, não respondo, nem respondo pelas consequências. E depois que eu voltei do banheiro:
- Quantos dedos o sr. tem nas mãos? Não, não pode abrir os olhos.
- Dez, até chegar aqui pelo menos.
- Responda depressa: se ponho vinte e duas melancias nas suas mãos e depois tiro cinco e acrescento três, com quantos dedos o senhor fica?
- Vinte. Contando os dos pés, naturalmente.
- Em que ano estamos?
- Mil novecentos e sessenta e três.
- Século?
- Vinte.
- Antes de Cristo ou depois de Cristo?
- Que Cristo?
- Não faça perguntas, já disse. O mar é vermelho ou é amarelo?
- Depende. No mapa lá de casa, tanto o mar Vermelho quanto o Amarelo são azuis. Da minha janela às vezes ele é cor de abóbora.
- Qual o oceano que dá para a sua janela?
- O Atlântico, isto é pacífico.
- O Atlântico ou o Pacífico?
- Assim o sr. me confunde. Nem eu vim aqui para me submeter a prova de geografia. O homem foi até a janela e cerrou calmamente as cortinas.
- Agora vai dizer em voz alta, e sem pensar, tudo que lhe vier à cabeça. Relaxe-se o mais possível e nada de escrúpulo.
- Escrúpulo. Cabeça. O oceano é azul. Que calor está fazendo. A morte de Danton. As metamorfoses de Ovídio. O senhor é uma besta. Com quantos paus se faz uma canoa? Vinte e um, vinte e dois, vinte e três, vinte e quatro. As laranjas da Califórnia são deliciosas. Umbigo. Rapadura. Otorrinolaringologista. É a tua, mulher nua, vou pra Lua, jumento, pára-vento, dez por cento, Catão, catatau, catapulta que o pariu, catástrofe, caralho, os medos, os vegas, as vegaminas, as sulfas e as para-sulfas, diametilaminatetrassulfonatosótico, porra de merda, argentino, argentário, argentículo, testículo, laparotomia, BorisKarloff, Irmãos Karamazov, Irmãos Marx, Marx, Engels, Lenin, Lenita, onomatopéia, onomatopaico, onanista, ovos de Páscoa, jerimum, malacacheta, salsaparilha, Rzhwpstkj, Celeste Império, semicúpio, Salazar, sai azar, seis e vinte da manhã, Dadá, Dedé, Dodô, Dudu, holofote, oliveira, olá Olavo, Alá, ali, alô sua besta já não basta?...
- Basta.
O sábio agora me olhava atentamente, o lápis suspenso no ar, o bloco de papel com rascunhos sobre o joelho. Sua máscara traia uma grande
inquietação, como se temesse alguma coisa ou já começasse a pôr em dúvida a minha sanidade. Até que, simulando uma calma absoluta, arriscou com o armais natural deste mundo:

- O senhor já foi à Bulgária?

(Mote lido por José Fontenelle para o encontro de 21/03)


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