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Mostrando postagens de agosto, 2020

O Defunto, por Pedro Nava

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  O DEFUNTO (Pedro Nava) A Afonso Arinos de Melo Franco Quando morto estiver meu corpo evitem os inúteis disfarces, os disfarces com que os vivos, só por piedade consigo, procuram apagar no Morto o grande castigo da Morte. Não quero caixão de verniz ou os ramalhetes distintos, os superfinos candelabros e as discretas decorações. Eu quero a morte com mau gosto! Deem-me coroas de pano. Deem-me as flores de roxo pano, angustiosas flores de pano, enormes coroas maciças, como enormes salva-vidas, com fitas negras pendentes. E descubram bem minha cara: que a vejam bem os amigos. Que a não esqueçam os amigos que ela perturbe os amigos e que lance nos seus espíritos a incerteza, o pavor, o pasmo... E a cada um leve bem nítida a ideia da própria morte. Descubram bem esta cara! Descubram bem estas mãos: Não se esqueçam destas mãos! — Meus amigos! Olhem as mãos! Onde andaram, que fizeram, em que sexos se demoraram seus lábios quirodáctilos? Foram nelas esboçados todos os gestos malditos...

Pai Goriot, por Honoré de Balzac

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  Por fim, a sra. Vauquer tinha visto muito bem, com seu olho de águia, certas inscrições no livro-caixa que, vagamente somadas, podiam dar àquele excelente Goriot uma renda de cerca de oito a dez mil francos. Desde esse dia, a sra. Vauquer, De Conflans em solteira, que estava então com quarenta e oito anos feitos e só aceitava trinta e nove, teve algumas ideias. Embora o canal lacrimal dos olhos de Goriot estivesse revirado, inchado, caído, o que o obrigava a enxugá-los com muita frequência, ela o achou com uma expressão agradável e muito ajeitado. Aliás, sua panturrilha carnuda e saliente prognosticava, tanto como seu nariz quadrado e comprido, qualidades morais que a viúva parecia apreciar, e que o rosto lunar e ingenuamente parvo do homenzinho parecia confirmar. Devia ser um animal solidamente constituído, capaz de despender todo seu espírito em sentimentos. Seus cabelos em asas de pombo, que o cabeleireiro da Escola Politécnica ia empoar toda manhã, desenhavam cinco pontas sob...