A folia, de Guilherme Preger

Prezados, já temos o plano detalhado para o ensaio geral de nosso enredo, “Os Patos no Maravilhoso Reino da Folia Golpista”.
Começaremos o desfile com um grande carro abre-alas, o “Pato Rei”, composto pela enorme alegoria de um majestoso Pato, com 20 metros de altura, todo realizado em teflon amarelado e ilustrado com motivos decorativos de nosso artista convidado, o pintor Romero Britto que veio diretamente de Miami para participar de nosso barracão.
Logo em seguida virá nossa Comissão de Frente, cujo mote será “Salvação Nacional” e cujos integrantes virão com cartolas e fraques, relembrando nossos saudosos Barões do Império. Eles virão fazendo mesuras aos milhares de patos das arquibancadas e camarotes.
Em seguida, teremos o sensacional dueto de passistas. Nosso Mestre-sala virá caracterizado com a fantasia do mediúnico patrono Romero Jucá, vestido de cartomante e com cartas e búzios na mão. A Porta-Bandeira trará uma inovação arrasadora: em vez de portar uma bandeira num estandarte, dessa vez nossa passista virá com ela girando nas mãos, com os dizeres “Ordem e Progresso”. Ela virá caracterizada com a sensual e arrepiante fantasia de Rainha da República Jararaca, com serpentinos detalhes de glitter dourado-brilhante.
Logo após os passistas, virá a ala “com o Supremo, com tudo”, uma homenagem de nossa Escola ao excelentíssimo Poder Judiciário. Todos os elementos dessa ala virão vestidos com esvoaçantes capas negras e penas na mão. Tivemos a sensacional ideia de substituir o tradicional confete colorido por pedacinhos de papel de dezenas de volumes impressos de nossa Constituição picotados. Assim, durante a passagem dessa ala, uma chuva de Constituição picada saudará os doutos magistrados foliões.
A ala seguinte terá o mote: Congresso Nacional. Toda essa ala será composta por foliões vestidos com fantasias de boi, de bala e da bíblia. Será uma ala de temas míticos, evocando uma simbologia primitiva que causará um efeito hipnótico no público.
A próxima ala virá com a maior surpresa preparada para esse carnaval. Estamos montando o maior carro alegórico que já atravessou a avenida, uma obra de dimensões e custos faraônicos. Em homenagem aos nossos patrocinadores, essa ala será denominada: “Odebrecht, Orgulho Nacional”. Será uma obra em homenagem às empreiteiras de megaeventos. O carro alegórico, com 35 metros de altura e todo elaborado em concreto armado, causará espécie. Ele foi inteiramente desenhado, construído e bancado pela própria empreiteira, sem um custo sequer para nossa escola.  
Esse monumental carro alegórico precederá a passagem de nossa bateria “Nota Alta”, como é conhecida nacionalmente. Ela também trará uma inovação histórica, pois será composta inteiramente por instrumentos construídos a partir de panelas. Por isso, a ala da bateria será denominada: “Paneleiros do ritmo”. A passagem de nossa bateria será um dos eventos rítmicos marcantes de nosso carnaval e várias paradinhas já estão sendo ensaiadas, testando tonalidades e timbres das panelas inox.
Depois da bateria, não poderia faltar nossa tradicional ala das baianas. No entanto, nesse ano também resolvemos inovar nesse quesito. Como há no público uma animosidade muito grande contra esse povo nordestino que não sabe votar, resolvemos trazer para esse carnaval uma ala de sulistas, todas louras, vindas das classes mais refinadas do Paraná e vestidas como polacas. Por isso, o mote dessa ala será: “Paraná, paranauê, o gigante acordou, aê”.
Após a ala das polacas, teremos mais um carro alegórico de espetaculares efeitos especiais. Será uma homenagem à ala seguinte, dedicada a celebrar o Ministério Público e sua cruzada contra os inimigos da pátria. O carro majestoso será denominado: “Alegoria do Power-Point” e será composta por uma imensa tela de LED, de ofuscantes efeitos verde-amarelos. A tela projetará a história “A Lei é para Todos”, com imagens inéditas obtidas pela Polícia Federal em conduções coercitivas, tudo filmado e iluminado pelos melhores cinegrafistas da Grande Mídia. Essa ala virá gingando ao ritmo estonteante dos versos de nosso samba: “A minha Política é toda Nova, iê, iá iá/ a minha convicção é sem prova, bala-cobá”.
A ala do MP precederá a ala mais sensual e ética de todo nosso desfile: a ala “mebelê” que terá como padrinho a grande estrela das telas Alexandre Frota, que já confirmou sua participação na passarela. Todos virão vestidos seminus da cintura para baixo, de acordo com o mote “O rei está nu nas ruas, ô meu/ para quê nudez no museu?”, e vestidos da cintura para cima com uma bata eclesiástica sacerdotal. Cada folião ostentará um volume da Opus Dei numa mão e um saco de moedas na outra. Para finalizar essa ala, improvisamos uma surpresa de última hora: a deliciosa madrinha de ala vestida de Cristiane Brasil, cercada de massudos e atléticos homens, carecas e inteiramente nus, porém com os corpos tatuados com imagens de patos de cabeça para baixo, com o pescoço virado para as regiões genitais. Essa passagem será polêmica e fará atração certa em todos os jornais da Mídia Golpista no dia seguinte. 
A passagem da ala vitoriosa do mebelê, como não podia deixar de ser, terá na retaguarda a ala mais crítica de nosso enredo, cujo mote é “A Esquerda que a Direita Gosta”. Essa ala também trará mais um portentoso e incrível carro alegórico, denominado “Apartamento da Paula Lavigne”, e simulará com precisão arquitetônica todo o ambiente frequentado pela “Esquerda Festiva” que tem discutido com seriedade e champagne soluções legítimas para os problemas de nosso país. Os versos referentes a essa ala também são cheios de bossa: “A culpa é do PT, olelê, não é minha nem de você, olelê”.  

Mas acham que acabou por ai? Esperem que a próxima ala será a mais climática de todo nosso enredo. Será a ala do “Povo Marcado e Povo Feliz”. Seu mote será “Petralhas no xilindró” e virá com foliões caracterizados como militantes de partidos populares e movimentos sociais com tornozeleiras eletrônicas feitas de led de pisca-pisca colorido. No entanto, a verdadeira surpresa virá ao final: a passarela inteira, arquibancadas e camarotes, ficarão às escuras e só veremos nesse momento as luzes piscantes das tornozeleiras, quais voejantes vagalumes de led, que lentamente se apagarão, um a um, até que a mais completa e absoluta escuridão desça sobre a passarela.

(conto lido no encontro de 06/02/2018)  

Guilherme Preger é escritor polifônico e carnavalesco do Círculo de Bakhtin 



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