João Russo, por Vivian Pizzinga

João Russo era um dos pacientes que mais gostávamos na clínica, embora sua assiduidade ao tratamento sempre tivesse sido aquém em relação àquilo que os supervisores consideravam terapeuticamente indicado, no caso dele. Russo tinha cerca de cinquenta anos. Ou um pouco mais. Um olho cego, um sorriso grátis, uma fala suave, muita vontade de gentileza, excesso de tristeza encarcerada. Quando conversava conosco, confesso: era difícil de entender, parecia que sua língua estava pela metade, danificada. Ou mesmo perambulando, troncha, pelo cerne da boca, e dando encontrões desavisados com o palato e talvez os dentes, que guardaram entre eles, algum dia, uma faca que nunca cravou o coração de ninguém. Russo já teve ódio. Já teve luta. Já teve, principalmente, muito, muito medo. Isso tudo era fácil de enxergar. Dentro dele, no entanto, o que o habitava agora era a loucura, forma possível de esquecimento, escolha de certo abandono de si e do mundo. Já isso era difícil de aceitar. João Russo n...