domingo, 12 de fevereiro de 2017

Feijoada

Verbete de “O dicionário amoroso do Rio de Janeiro”, de Alvaro Costa e Silva (mais conhecido como Marechal). Ed. Casarão do Verbo, 2015, págs 79 a 82.

Quanto maior o calor, mais o carioca come feijoada. Com o verão no auge, entre os meses de janeiro e fevereiro, fica impossível fugir dela. É como se vivêssemos naquela cena do filme “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade: mergulhados em orgia numa piscina cheia de lombo, lingüiça, costela, paio, orelha, chispe, focinho, pé, rabo. Para onde quer que você olhe há opções: restaurantes mais ou menos chiques, botequins, quiosques de praia, hotéis, clubes e até livrarias.

As escolas de samba dão a largada, entupindo suas quadras aos sábados, quando são servidas mais de mil unidades do prato. O impressionante preparo, em cozinhas industriais, para o qual contribuem não só mulheres, mas também homens, tem início na quinta-feira. Não são apenas as carnes e o feijão: pense nos molhos de couve, nas dúzias de laranjas, nas cebolas e cabeças de alho para o tempero; nas bacias de doce de abóbora e doce de banana para as sobremesas; em tudo que é necessário para alimentar um batalhão de sambistas. Se Pantagruel desse uma passadinha na Mangueira ou no Império Serrano, sairia de lá constrangido.

Toda a gente já ouviu dizer que a feijoada é invenção dos escravos. Uma sacada bonita e inteligente, mas difícil de engolir. A origem tem a ver com a alimentação básica dos escravos no fim do século 18 carioca: lastreada em feijão preto, farinha de mandioca, laranjas e bananas, além de carnes secas e toucinhos. Não havia como fugir disso, a não ser com as hortaliças que os próprios negros plantavam.

Numa cidade que jantava ao meio-dia, já atuava nas ruas a quitandeira, num improvisado fogão de pedras, cozinhando feijões pretos e pedaços de toucinho. Esse legítimo ancestral primitivo da feijoada era, segundo o viajante-pintor Jean-Baptiste Debret, “bastante suculento e misturado a um bom punhado de farinha de mandioca bem amassada forma um bolo substancial suficiente para a alimentação diária de um preto”.

Daí, evoluímos para a chamada “negra caldeirada”, a qual, com alguma coisa do jeitão do prato como o conhecemos hoje, fazia parte do cardápio de bares e restaurantes, como comprova anúncios de jornais de meados do século 19. Até chegarmos àquela servida na casa de pasto G. Lobo, na extinta rua General Câmara, na região central, onde teria nascido a moderna feijoada carioca. A General Câmara, antiga rua do Sabão, desapareceu quando da construção da avenida Presidente Vargas, na década de 1940. O restaurante G. Lobo morreu antes, em 1905, com as reformas do prefeito Pereira Passos, que, entre outras intervenções urbanas, alargou a rua Uruguaiana.

Escreve o memorialista Pedro Nava no seu livro Chão de ferro: “No meu Baú de ossos referi, repetindo Noronha Santos, que a feijoada completa é prato legitimamente carioca. Foi inventado na velha rua General Câmara, no restaurante famoso G. Lobo, cujo nome se dizia contraído em Globo. Grifei, agora, o inventado, para marcar bem o seu significado de inventado. Não se pode dizer que ele tenha sido criação espontânea. É antes a evolução venerável de pratos latinos como o cassoulet francês, que é um ragout de feijão branco com carne de ganso, de pato ou carneiro — que pede a panela de grés — cassole — para ser preparado”.

Para não deixar o leitor com água na boca: aos sábados, a Toca do Baiacu, na rua do Ouvidor, serve o prato à maneira tradicional — nada light —, uma exigência de quem comanda as panelas, proprietário Marco Antônio Targino, o popular e educadíssimo Marquinho do Baiacu. Perto dali, na rua do Rosário, também aos sábados, temos uma versão branda do prato, no Al-Farabi, misto de livraria e restaurante, administrado pelo poeta simbolista Carlos Narval.

Aos domingos, o Clube Renascença, no Andaraí, recebe para um feijão amigo. O amigo, no caso, é Jorge Ferraz, bombeiro aposentado e malandro e boa-praça em tempo integral. Jorge não tem preconceito: feijão para ele é de todas as cores.

(É o mesmo Renascença, fundado no fim dos anos 1950 como lugar de divertimento e afirmação da cultura negra, palco de outro fenômeno, não gastronômico, mas musical. Tocado pelo compositor Moacyr Luz, o Samba do Trabalhador reúne multidões há 10 anos num dia e horário, digamos, ingratos para quem trabalha: segunda-feira, às 16h. Você pode comer uma feijoada antes ou depois do furdunço).

A feijoada tornou-se patrimônio cultural “imaterial” do Rio (sublinho porque justo o que não pode faltar na receita é matéria consistente). Uma condição que o samba já desfrutava. Aos garfos, pois, com pompa, circunstância, apetite, prato fundo e... uma ambulância na porta de sobreaviso.        

Mote para o encontro de 21/02/2017, lido por Marco Antonio Martire

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