sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Diálogo, por Guilherme Preger

Diálogo

(cena com dois interlocutores: D e E durante o bloco Escravos da Mauá no domingo antes do carnaval).

D- O que você quer dizer com “Feijoada é de esquerda”? Eu adoro feijoada, quer dizer que eu sou de esquerda?
E- Depende da maneira como você come, não da feijoada. Esquerda e direita são posições, não são essências.
D- Explica melhor isso, eu detesto esse pedantismo da “esquerda filosófica” que acha que todo mundo de direita é imbecil. 
E- Bem, eu acho que quem luta para ter menos direitos só pode ser imbecil. Mas deixa isso para lá,  pois nosso assunto é a feijoada. A feijoada, como coisa-em-si, não é de esquerda. É verdade que era comida de escravos, era a alimentação básica dos negros escravizados: feijão preto, farinha de mandioca, laranjas e bananas, além de carnes secas e toucinhos...
D- Só o fato de ser comida de escravos faz ser de esquerda a feijoada? Não havia escravos de direita? Não havia negros que venderam outros negros aos brancos? Esses também eram de esquerda? Eu nunca acreditei na superioridade moral do pessoal de esquerda. Foi a esquerda que criou os gulags, os paredões e a corrupção…
E- Desculpa, companheiro, mas você me cortou. Eu ia dizendo que a feijoada por si só não é de esquerda, mas que depende da maneira como você a come...
D- Não sou seu companheiro. Não sou gulaguista, dilmista, petralha nem corrupto...
E- Corrupção, meu amigo, é de direita...
D- Ah, assim é fácil. Se corrupção é de direita, eu sou de esquerda.
E- Com certeza. Porque corrupção é privatização do público “às escuras”.
D- Não entendi. O que tem isso a ver com os conceitos de direita e esquerda?
E- Esquerda e direita são conceitos surgidos antes da Revolução Francesa. Havia aqueles que sentavam à direita do soberano e gozavam do “Privatum Legis”, ou privilégio, que era um regime legal diferenciado para nobres e para o clero. E havia o resto que gozava do regime geral. Era a esquerda. Assim, a luta da esquerda é a luta contra os privilégios. Mais tarde, essa passou a ser a luta pela democracia...
D- Ah, está bom. Cuba é a maior democracia do mundo...
E- E não é? Cuba tem a “batalha das ideias”, como dizia Fidel. Tudo é discutido lá. Você entra numa birosca e todo mundo está discutindo política.
D- E a família Castro continua no poder...
E- Por que o Povo quer. A revolução era do Povo, não era de Fidel.
D- Podia ter eleições ao menos para a gente saber...
E- E tem. Tem vários níveis de eleição. As eleições em Cuba para as Assembleias populares têm um dos maiores índices de comparecimento de todo o mundo ocidental.
D- Assim, a gente não chega a lugar algum. Vamos voltar para a feijoada. Por que a feijoada é de esquerda? Hoje eu comi feijoada e não estou me sentindo nadinha de esquerda.
E- Me diga, amigo, quando você comeu feijoada você sentiu o quê?
D- Cara, eu senti um prazer doido porque a feijoada estava ótima. O feijão, o paio, a couve, a laranjinha. E ainda tinha uma batida de limão para uma rebarba.
E- E nesse prazer todo que você sentiu, isso te fez pensar que é um prazer que te faz igual aos outros ou melhor do que os outros?
D- Nem melhor nem igual. Diferente.
E- Hummm. Quero saber se esse sentimento de diferente, se ele foi uma forma de distinção. Se o prazer que você sentiu te faz apartar da comunidade, te deixar numa posição privilegiada, pois afinal era você que estava provando uma delícia e não outro...
D- Não é bem assim. Era um prazer que eu mereço. Eu achei que merecia sentir aquele prazer porque paguei a feijoada com meu dinheiro, dinheiro de meu trabalho.
E- Hummm, você trabalha? Então isso já é um caminho para ser de esquerda. Mas me diz então, você acha que outras pessoas não mereciam sentir o mesmo que você?
D- Eu não disse isso. Todo mundo merece sentir o prazer de comer uma boa feijoada. Basta ter dinheiro para comprar.
E- E se não tiver dinheiro?
D- Ué, então ajam como os antigos escravos: façam sua própria feijoada.
E- É um bom caminho. Mas e se não tiverem dinheiro nem para isso, para comprar os ingredientes? E se nem puderem plantar ou criar animais, porque os desalojaram das terras que hoje estão nas mãos dos latifundiários?  
D- Aí não tem jeito. Não tem almoço grátis.
E- É isso que estou dizendo. Se você come uma feijoada gostosa e chega à conclusão que todo mundo deveria comer feijoada se assim desejasse, então você é de esquerda. Se você come feijoada e se acha privilegiado, você é de direita.
D- Cara, não existe a possibilidade de todo mundo comer feijoada. Isso sim é burrice.
E- Eu sei que não tem, mas esse não é o ponto. Nem todo mundo precisa comer feijoada ao mesmo tempo. Há muita coisa boa para se comer. A questão é como fazer que todo mundo tenha acesso a coisas boas, que elas não sejam apenas privilégios de poucas. E é sempre possível compartilhar, para dividir melhor as coisas boas que existem.
D- Eu ainda acho que o dinheiro é a melhor maneira de dividir as coisas...
E- Pois é, podiam fazer mais dinheiro para todo mundo né? Para muita gente está faltando grana...
D- Mas aí ia ser uma inflação monumental...
E- Cqd- como queríamos demonstrar. Não tem terra para todo mundo, não tem feijoada, nem dinheiro. Se você está contente com essa situação, você é de direita. Se você quer mudar essa situação, você é de esquerda. Não depende do que você é, mas do que você faz, daquilo pelo que você luta, se é que luta...
D- Desisto. No momento, não quero lutar por coisa alguma. Estou de barriga cheia da feijoada boa que comi. Quero só curtir o carnaval: aí está vindo a Escravos da Mauá. Você vai me proibir de pular porque sou de direita? Vai me censurar? Vai me colocar no paredão?
E- Claro que não, rapaz. Seja nosso convidado, não só meu, mas de todo esse povo que está aqui na região portuária. Imagine que se para pular atrás do Escravos da Mauá fosse necessário pagar por um abadá, o que seria?
D- Aí não seria o Escravos da Mauá!
E- Isso! Assim como feijoada não é cassoulet. Aí vem o bloco!

la lalaiá lalaiá, lalaiá lalai, laiá

 (Conto vencedor de 2o lugar, baseado no mote Feijoada)

Guilherme Preger é escritor da esquerda filosófica, festiva e violenta







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