Se Deus quiser, por Carmen Belmont

Se Deus quiser, por Carmen Belmont


“Se Deus quiser, um dia eu quero ser índio.”
Rita Lee, in ‘Baila comigo’.


Ele não era um sujeito muito eloquente, mas isso nunca tinha sido um problema perto dos outros tantos na sua vida de menino de periferia. O que lhe faltava em palavras sobrava em resistência: crescera, como todo garoto nessa condição, apesar da pobreza, do descaso e devidamente vacinado contra as adversidades. Mal completara os estudos básicos, porque desde cedo já trabalhava para ganhar uns trocados e ajudar a mãe a alimentar as três bocas que o pai bêbado abandonara ainda pequenos. Mas tinha fé e era calmo e tenaz, de modo que não sofria pelo passado nem reclamava do presente. Quanto ao futuro, tentava fazer a sua parte para que fosse melhor, se Deus quiser.

Tinha encontrado Nícia em uma festa junina, uma daquelas em que ele fora mais por insistência dos amigos do que por outra coisa. Tá certo, também aceitara ir porque sabia que poderia ficar em paz vendo o vaivém das garotas sem ser incomodado, já que todo mundo logo se desgarrara da turma para se ocupar em conseguir alguma atenção feminina. Ele sabia dançar, mas não tinha a menor pressa. Comprara uma cerveja e arranjara uma posição estratégica para observar o salão enfeitado e borbulhante de pares coloridos, que rodopiavam ao som do ritmo contagiante do sanfoneiro e sua trupe musical.

Estava assim absorto em sua contemplação há uns minutos – ou seriam horas? – quando ela apareceu. Sozinha, vestida de branco  – será que ia participar do casamento na roça? Não, não podia ser a noiva – pensou –, pois acabara de ver os consortes da noite entre os dançarinos na quadra. Ela parou a poucos passos de onde ele estava e ficou olhando a festa como se procurasse alguém, mas não parecia aflita para achar quem quer que fosse. Ao contrário, alguns segundos depois deu de ombros e se aproximou do bar.

– Um refrigerante, por favor – pediu, entregando a ficha que tirou da pequena bolsa branca bordada de pontinhos minúsculos que pareciam ser flores. Pegou a bebida servida no copo descartável com a mão fina e levou-a aos lábios rubros, caprichosamente desenhados com batom. O gesto delicado contrastava com sua beleza enérgica, de olhos escuros e cílios espessos brilhando na tez morena. O vestido alvo destacava a silhueta generosa e as pernas bem torneadas. Uma única flor vermelha sustentava os cabelos castanhos displicentemente presos acima da orelha direita.

Aparentemente alheia à presença dele, ela parou a seu lado e foi percorrendo o salão em semicírculo com o olhar. Devagar, finalmente encontrou os olhos dele e, sorrindo, divertida, indagou:

– Tá gostando?

– Tô sim, e você?

Daí não se largaram mais o resto da noite, nem nas semanas seguintes, que se transformaram em meses, anos, um casamento e um casal de filhos. E também em muita luta para sobreviver numa casinha apertada e simples, perto dos sogros, para eles poderem ajudar com as crianças, senão não dava para gerenciar um lar, cuidar da mãe, apoiar os irmãos, trabalhar e ser arrimo de família – tudo de uma vez e ao mesmo tempo –, mesmo se Deus quisesse.

A esposa não tinha um trabalho formal, mas ajudava nas despesas costurando e vendendo cosméticos de catálogo. Ele agora dirigia um táxi, única alternativa restante depois de ter sido demitido do seu último emprego de carteira assinada. A muito custo conseguira juntar umas migalhas para pagar o primeiro aluguel do carro que, aliás, era uma salgada taxa semanal, a qual ele tinha que se virar para cobrir antes de fazer a sua féria. Com a crise, não estava fácil pra ninguém, então ele se ausentava para trabalhar sempre que podia, sacrificando suas horas com a família, não havia outro jeito. Mas como não era homem de se queixar, fazia o que tinha que fazer, confiando no que o destino – ou Deus – tinha reservado para ele.

Em uma dessas tardes no meio da semana, circulava pelo bairro da zona norte no qual mais costumava dar sorte para arranjar passageiros. Hoje o dia estava fraco, mas ele não desistia de passar e repassar pelas ruas na esperança de conseguir alguma coisa. Decidiu pegar a pista marginal da via principal, quem sabe? Foi quando avistou um homem, atarracado e uniformizado, fazendo sinal com o braço defronte de um dos muros altos que ladeavam a avenida.  A maioria dos imóveis por ali era de motéis mais ou menos arrumados, por isso ele não estranhou os trajes meio extravagantes da figura. Ao parar, o homenzinho deu uma batidinha na lateral da porta, pedindo para abaixar o vidro, e em seguida esclareceu:

– Tem um casalzinho aí saindo do hotel, tá a fim de levar?

–  Ôpa, levo sim, vambora! O porteiro baixinho sumiu na portinhola do muro, de onde não demorou muito para surgir um casal, o homem de mãos dadas com a moça. O motorista destravou a porta de trás, eles entraram e se acomodaram, o rapaz atrás do banco dele, a mulher ao lado.

– Boa tarde! Pra onde?

O rapaz tomou a frente: – Boa tarde. Conhece a Penha?

– Claro, moro lá. O interlocutor, em resposta, indicou o local aonde queria ir e o táxi deu a partida.

Do retrovisor, observou que o passageiro voltou-se para a mulher, tentando conversar, porém ela permanecia quieta, mal respondendo em murmúrios monossilábicos inaudíveis. O rapaz insistia, animado, provavelmente sem entender o porquê daquela atitude amuada da companheira depois de uma tarde supostamente prazerosa para ambos. Contudo, a moça não arredou pé do seu inexplicável silêncio durante todo o trajeto.

Chegando ao destino, o veículo parou. O rapaz dispôs-se a pagar, indicando que a moça iria prosseguir. Antes que qualquer dos dois se mexesse, o taxista perguntou de chofre:

– E aí, Nícia, onde tu vai descer?

– Peraí, tu conhece ela? – contestou o surpreso acompanhante.

– Se conheço? Conheço sim. Ou pensava que conhecia, pois até uma hora atrás ela era a minha mulher!

Sem dizer palavra, o homem entregou o dinheiro da corrida e ambos os passageiros – um por cada porta – desceram do carro.

Ele acelerou sem olhar para trás, os olhos marejados, o coração em frangalhos: como Deus queria.

(Conto lido em 06.09.16 (terça-feira) no Clube da Leitura, realizado na Casa Rio)

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Fascinada pelos ecos da linguagem escrita, Carmen Belmont lê e escreve desde que se entende por gente; tudo o mais é adendo. "A palavra/ alva/ alvará da imaginação". (Imagem: @cdbelmont in PicsArt)



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