Doutor Faustus: Autoexílio nos Trópicos, por Marcos Pedrosa de Souza

Foi no mesmo bar em que se conheceram, que os dois vieram a se reencontrar. Doutor Faustus, o mefistófeles do submundo do Rio de Janeiro, e Demétrio, o Lacan da Lapa. Não se viam há um bom tempo e se lançaram aos braços um do outro com toda efusividade em uma daquelas confraternizações de velhos e saudosos amigos. A última vez que se encontraram foi ainda durante o período de vivência intensa de suas respectivas juventudes.
Era à época em que Faustus, ainda um estrangeiro na cidade, buscava sua aproximação com as figuras mais prosaicas da vida carioca. E entre estas, estava Demétrio, alguém com quem teve imediata e plena identificação. Apesar da pompa do título de doutor, Faustus era, como Demétrio, um charlatão barato, um vigarista de alta estirpe, um pilantra formado nas piores escolas da canalhice. Também tinha realizado seu curso por correspondência como o Lacan da Lapa, nosso psicanalista especializado no atendimento aos frequentadores do baixo meretrício. Só que em lugar de Viena, Paris ou Zurique, seus diplomas de sociologia traziam os selos das mais inexpressivas instituições de ensino de Berlim, Marburgo e Bonn.
Doutor Faustus havia nascido, não fisicamente, mas espiritualmente, em algum lugar da Europa, embora ninguém soubesse precisar ao certo onde. Depois foi obviamente se criar com gosto e esmero extremo na Alemanha. De qualquer jeito, foi justamente no Brasil o país em que veio a se sentir mais em casa, mais à vontade. Bastou desembarcar por aqui para nunca mais querer voltar. Quando mencionavam o assunto, tinha ataques de repulsa, chiliques inomináveis, síncopes acompanhadas por aquilo que alguns achavam tratar-se de alucinações, como se fosse um Hamlet mergulhado em histeria a ver fantasmas. Muitos o julgavam um louco em seu apego a seu país de adoção, mas ele pouco se importava com isso.
Quando indagavam de que lugar havia partido na Alemanha, ele sacava de seu nano sound blaster de micro-portabilidade e detonava uma das músicas do seu repertório autoral guardada em um arquivo digital armazenado em uma nuvem interneteira. O nano-player então reverberava em alto e bom som os versos de um poema hiperneoconcretista que escrevera e que está em uma de suas conhecidas composições: “Bonn, Colônia, Dortmund, Renânia, Brandemburgo, Stuttgart, Leipzig, Munique, Kassel, Hamburgo, Dresden, Bavária, Vestfália…”.
Sim, além de sociólogo mal-sucedido, doutor Faustus havia se aventurado pelo mundo da música. Escreveu, em parceria com músicos amigos, versos para composições de muito sucesso que davam conta da variedade de personagens que conheceu em suas andanças pelo submundo do Rio de Janeiro.  Começou pelos subúrbios, onde fez fama retratando godivas bandidas que viviam de pequenos expedientes envolvidas com contraventores. De lá, partiu para narrar, como um ciber-rapper-futurista, a sua muito particular visão sobre o que via nos inferninhos da Zona Sul. Região da cidade por onde também transitava com desenvoltura, sempre se deliciando com o clima de bas-fond de lugares como La Cicciolina, Barbarella e Pussycat.   
Mantinha estas atividades, mas seguia se dedicando obstinadamente a seus estudos sociológicos. Estudos estes que o levariam durante anos a grandes discussões e confrontos de ideias com os amigos que frequentavam o seu ponto de encontro favorito, um boteco na entrada de Copacabana. Justamente nesta parte da cidade que para ele representava o “êxtase da sagrada perdição” (era como se referia ao espaço de seus sonhos reais) com a exuberância de seu império de sentidos delirantes. Foi ali que conheceu, entre um chopp e outro, o Lacan da Lapa.
Em seus embates, os dois haviam chegado, é verdade que por perspectivas bastante distintas, a uma conclusão: a de que o instinto básico do ser humano é o da destruição, da eliminação, do aniquilamento completo de todas as espécies. Uma sensibilidade pós-darwiniana trabalhada em voltagem máxima por ímpetos vorazes que não guardavam nem mesmo sentimento de empatia ou compaixão para com o seu próprio gênero. E o melhor laboratório de horrores do planeta era, na opinião coincidente dos dois, o Brasil. Parecia que ambos já anteviam o que surgiria no futuro glorioso do país. Por isso, neste reencontro ficaram maravilhados com o acerto de suas visões proféticas.
Faustus comentava com Demétrio:
- Veja você, Demétrio, quando poderíamos ter imaginado que estávamos tão certos? Leia as notícias que circulam nos grandes portais noticiosos, nas redes de informação mundo afora: aqui, onde foram criadas maravilhosas montanhas de rejeitos de minério, maciços de barragens com restos de detritos sólidos e líquidos de alto teor poluente, belíssimas paisagens de resíduos de níquel, cobre, cobalto, bauxita. Sim, isso mesmo. Aqui neste exato país, o que se vê? Um lastro de poluição e destruição sem igual ou paralelo no planeta. Depois de assistirmos ao apogeu do maior projeto pirotécnico do mundo, o da incineração da floresta amazônica, esta é a grande novidade. Isso sem falar nos ataques impiedosos das milícias e grupos clandestinos de extermínio que fariam morrer de inveja, por sua audácia e ousadia, os mais gabaritados quadros da SS.
Demétrio exibia o seu sorrisinho faceiro e observava:
- Faustus, querido, o tempo passa e vemos que você segue como sempre com essa sua análise exclusivamente social. Parece até que o ser humano não existe. Será que você não andaria esquecido dos solitários homicidas convictos que grassam por aí a assassinar, bater, estuprar, com requintes de crueldade e apatia característicos do que seria um Raskólnikof em versão típica dessa nossa era pós—fim do mundo? Não estaria alheio também a um dos maiores contingentes de pobres e miseráveis da face da terra? Uma seleção de facínoras e de seres depauperados em sua auto-estima, humilhados em sua psiquê dilacerada, desvairados com sua total falta de opções? Em um ponto, no entanto, devemos concordar: aqui é onde pulsa em toda sua exuberância o verdadeiro coração da besta. Conrad deveria ter aproveitado uma de suas viagens marítimas para conhecer o Atlântico Sul e retratar o autêntico âmago das trevas, um coração musculoso e palpitante em generosa atividade delinquente.

(Conto vencedor do encontro de 26/02/2019)

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj/Consórcio Cederj/SEE-RJ. Formado em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e em letras pela Universidade Santa Úrsula (USU), é mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi colaborador dos jornais O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, entre outras publicações, e professor da Universidade Estácio de Sá (UNESA). Seu levantamento com todas as crônicas que Nelson Rodrigues escreveu para a revista Manchete Esportiva foi editado no livro O berro impresso das manchetes (Editora Agir, 2007). Participou do volume “Crítica e Valor – Uma Homenagem a Silviano Santiago” (Fundação Casa de Rui Barbosa, 2014) e possui ensaios publicados em revistas acadêmicas e nos anais dos congressos dos quais participou. Para mais detalhes, consultar a plataforma lattes do Cnpq e o blogue do autor no endereço:


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