Testo Junkie, por Paul Preciado

Este livro (...) é um protocolo de autotestes com testosterona em gel, exercícios de envenamento controlado em meu próprio corpo. Infecto-me com um significante químico culturalmente marcado como masculino. Vacinar-se de testosterona pode ser uma técnica de resistência para os corpos com os quais fomos designados como mulheres cis. Adquiri certa imunidade política de gênero, tomar um porre de masculinidade, saber que é possível vir a ser do gênero dominante.
"Pouco a pouco, a administração de testosterona deixou de ser um simples teste política e se transformou em uma disciplina, um ascetismo, um modo de ressuscitar meu espírito através do pelo que cresce nos meus braços, um vício, uma forma de gratificação, uma fuga, uma prisão, um paraíso.
"Os hormônios são próteses químicas. Drogas políticas. Neste caso, a substância não só modifica o filtro com que decodificamos e recodificamos o mundo: também modifica radicalmente o corpo e, portanto, o modo pelo qual somos decodificados pelos outros. Seis meses de testosterona e qualquer mulher cis, não uma que deveria-ter-sido-homem ou uma lésbica, mas qualquer menina, qualquer criança de bairro, uma Jeniffer Lopez ou uma Rihanna, pode tornar-se um membro da espécie masculina indiscernível de qualquer outro membro da classe dominante.
"Recuso a dose médico-política, seu regime, sua regularidade, sua direção. Advogo por um virtuosismo de gênero: para cada um, a sua dose; para cada contexto, sua exigência precisa. Aqui, não há norma, há simplesmente uma multiplicidade de monstruosidades viáveis. Tomo testosterona como Walter Benjamin fumava haxixe ou como Freud tomava cocaína ou como Michaux, mescalina. Isto não é uma desculpa autobiográfica, e sim uma radicalização (no sentido químico do termo) da minha escritura teórica. Meu gênero não pertence nem á minha família nem ao Estado nem a indústria farmacêutica. Meu gênero não pertence nem sequer ao feminismo, nem à comunidade lésbica, tampouco à teoria queer. É preciso arrancar o gênero dos macrodiscursos e diluí-lo em uma boa dose de psicodelia hedonista micropolítica.
"Não me reconheço. Nem quando estou em T., nem quando não estou em T. Não sou nem mais nem menos eu. (...) afirmo que a subjetividade política emerge exatamente quando o sujeito não se reconhece em sua representação. É fundamental não se reconhecer. O desreconhecimento, a desidentificação é uma condição de emergência do político como possibilidade de transformação da realidade. A pergunta que Deleuze e Guattari se faziam em O anti-Édipo, em 1972, continua queimando nossa garganta: "Por que as massas desejam o fascismo?". Não se trata aqui de opor política da representação e política da experimentação, e sim de tomar consciência de que as técnicas de representação política implicam sempre programas de produção somática de subjetividade. Não estou optando pela ação direta frente à representação, e sim por uma micropolítica da desidentificação, um tipo de experimentação que não confia na representação como uma exterioridade que possa oferecer verdade ou felicidade.
"A fim de realizar o trabalho terapêutico para a multidão que me fez começar a tomar testosterona e a escrever, preciso agora apenas convencer vocês, todos vocês, de que vocês são como eu, e não o contrário. Não vou dizer a vocês que sou igual a vocês, seu igual, ou que vou pedir que me permitam participar de suas leis, ou que me reconheçam como parte de sua normalidade social. Mas aspiro, sim, a convencê-los de que, na realidade, vocês são como eu. Tentados pela mesma deriva química. Vocês a levam dentro: vocês se acreditam mulher cis, mas tomam a pílula; vocês se acreditam homens cis, mas tomam Viagra; são normais, mas tomam Prozac ou Paxil, na expectativa de que algo os livre dos seus problemas de decréscimo de vitalidade; vocês usam cortisona, cocaína, álcool, Ritalina e codeína... Vocês, você também, vocês são o monstro que a testosterona desperta em mim".

PRECIADO, Paul B. Testo Junkie. Sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica. São Paulo: n-1 edições, 2018.

(Mote para o encontro de 26/06/2018 lido por Vivian Pizzinga)


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