No Cassino do Senhor, de João Bastos de Mattos


Tinha sido um encontro tão sem pretensões que ele nem sabia dizer como é que depois virou tudo aquilo. Marilda romântica não-me-toques, não sei se minha mãe vai deixar, e depois o cinema e depois a discoteca, a mão que não podia ultrapassar certos limites e aquele jogo duro e a mãe: criei minha filha para ser feliz no casamento e o pai: mas você vai ter condições de assegurar a felicidade de minha filha. Tudo já era passado e agora os dois na alegria e na tristeza, o apartamento de dois quartos no Cachambi e o emprego dele como técnico de manutenção de geladeiras e ela digitadora num bureau de informática e a velha cuidando do neném e Marilda reclamando minha mãe está deseducando a criança e mal dava para ir ao cinema os dois juntos mas o churrasco na casa do sogro era de lei e a santa cervejinha garantida nos fins de semana.
Não, não foi bem assim. Eu me confundo. Refaço a história. Ela é que se insinuou e ele nem fazia tanta força mas afinal era cômodo e podia sair alguma coisa interessante e ela foi encostando a cabecinha no ombro dele e dando suspiros apaixonados nos lances mais românticos do filme e ele foi se enredando enredando e quando viu já estavam assistindo a novela Dancing Days no sofá da sala da sogra e provando hoje uma compota de goiaba e amanhã uma torta de ricota que a Neide fazia durante o dia. E então já não havia mais por que abandonar aquelas noites tão confortáveis e o sogro ainda fez questão de dar de presente os móveis de cozinha e de repente a vida a dois num apartamento de dois quartos no Cachambi.
Faço trapalhadas e conto histórias ao revés. Nunca tinha lhe vindo a ideia de algo mais sério com uma lambisgoia como aquela mas ele não era muito de dizer não e foi mordendo a isca e ela puxando a linha e quando percebeu ela estava grávida e os amigos: isso é uma loucura mas ele achava que afinal tinha um prumo na vida e os pais cobrando o término da engenharia mas a faculdade estava um porre e pensando bem era uma vida mais fácil e foi assim que um dia se viu instalado com ela num apartamento de dois quartos do Cachambi.
Mas não adianta eu ficar tentando recordar como foi exatamente que tudo começou tantos anos faz é natural que ninguém se lembre. Hoje ele e ela estão morando numa casinha em Iguaba e os filhos vêm no fim de semana e os netos querem ir para a Lagoa e ele diz que a Lagoa está poluída mas ela: que bobagem sempre a gente nadou nessa Lagoa e nunca aconteceu nada e o filho reclama porque não achou peixe para fazer na brasa e a filha diz vou ao açougue mas a nora: não vim de Jacarepaguá até Iguaba para comer o mesmo churrasquinho de todo domingo e vira pro marido vai até São Pedro procurar uma peixaria.
Mas não é bem isso, até porque não é um casal de filhos que eles têm, são duas filhas, a mais nova num grupo de teatro, e a mais velha: Jesus Cristo como é que vocês aguentam esta riponga, e o pai: mas você já gastou o que eu te dei semana passada, e a mais nova: mãe, bem que você podia ter escolhido um coroa menos reacionário. E a mãe: olha o respeito, filha, e a mais velha: muito fácil fazer a revolução contando com mesada certa no final do mês, quero ver ralar o dia todo como coordenadora dos caixas do Carrefour, e a mais nova: bem que eu não queria vir pra Iguaba neste fim de semana, e a mãe: parem de brigar e me ajudem com a louça.
Ou então é outra coisa, eles só tiveram um filho, ela queria ter mais dois, ele resistia, com a crise que este país está vivendo, e depois nossa poupança foi congelada e não vai dar mesmo, e quando mais tarde planejaram talvez quem sabe poderia ser, aí os esforços foram em vão, e então veio a grande crise que não era mais política não era mais econômica era uma crise do casamento, e essa é a maior crise porque aí não tem pacote de medidas não tem constituinte não tem eleições gerais, e eles se separaram e não teve mais volta, e ela foi morar com a irmã que tinha um marido insuportável, e ele se juntou com a mulher de cabelo vermelho que parece que foi a causa da separação. E o filho: vou pra república dos amigos e chega desse nhenhenhém, e ela: porque seu pai é um desgraçado e vai ver quando eu entrar na justiça com o pedido de correção de pensão, e ele: porque sua mãe poderia me deixar em paz e vender logo aquele Fiat Uno cheio de multas que era meu. Porque seu pai isso, porque sua mãe aquilo.
E agora eu vou ter de contar para vocês a verdade e a verdade é que eles não tiveram um casal de filhos e a verdade é que eles não tiveram duas filhas. A verdade é que nem mesmo foram morar em Iguaba, porque a verdade é que antes de pensarem em comprar a casa de Iguaba e antes de chegar o segundo filho eles se separaram. Eu sei disso porque o filho deles sou eu, e eu é que tenho que suportar essa maluquice que se tornou a vida deles, mas às vezes eu fico pensando que dizem que Deus joga dados e que Deus adora jogar na loteria, tem mil vidas possíveis, e poderia bem ser que quando Deus refizesse a jogada da vida deles aparecesse a sorte grande.


Conto Vencedor escrito para o  encontro de 05.06.2018

João Bastos de Mattos, nascido de Capivari-SP no inverno de 1952, é engenheiro eletrônico formado pelo ITA, mas tem dificuldades para trocar uma simples lâmpada. Trabalhou por mais de 30 anos na Petrobrás. É escritor diletante, tendo vencido por duas vezes o Concurso de Contos Petros.



Comentários

  1. Rapaz, é simplesmente delicioso esta multiplicidade, este vai e vem nos faz rodopiar. Quem se preocupasse somente com a história, com o enredo ficaria maluco.

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