Asas de papel, por Carmen Belmont

Asas de papel, por Carmen Belmont

– Corta. Corta tudo – disse a voz que parecia sair dela, irreconhecível. Enquanto as mechas longas caíam, a imagem da mulher que ela fora se desfazia no espelho, interrogando-a com um misto de indignação e tristeza, mas ela não se deixou intimidar: sustentou o olhar reprovador levantando a curva dos lábios no lado direito da face, quase como se fosse dar um sorriso. Mas não sorriu; ficou observando aquela figura que chegava, como uma onda inesperada, nos cachos rebeldes cujas pontas curtas se multiplicavam desordenadamente sobre a nuca recém-descoberta.


– Chega. Assim já está bom.

– Mas... ainda não terminei  e –

– Terminou sim – disse e se levantou da cadeira onde estivera sentada, penteando, com os dedos, os cabelos ainda úmidos. Parecia um moleque que acabara de escapar da chuva – pensou, algo divertida, sacudindo gotas brilhantes sobre a bancada envidraçada. Pagou e ganhou a rua rapidamente, juntando-se aos passantes da tarde, suavemente tingida por uma paleta outonal de azuis e amarelos. Caminhava sem pressa, cogitando como seria bom se pudesse cortar os problemas como se corta um cabelo – só que não era tão simples, não mesmo. Ia assim, tão distraída, que tomou o caminho oposto ao que planejara; só percebeu o engano quando a fachada de um casarão imponente de três andares, à entrada de uma ruela, projetou uma sombra tênue sobre os seus passos.

Mirou a bela construção antiga de tijolos acinzentados, emoldurada por um pequeno jardim e portões de ferro, ostentando a placa “Aberto” que informava a sua condição de restaurante. Resolveu entrar. O que tinha a perder? Nada ficaria pior só porque ela se demoraria um pouco mais. Não havia ninguém àquela hora, mas ainda assim solicitou se instalar no terraço da cobertura. Precisava garantir a solidão para refletir consigo mesma, sem interrupções. Escolheu a mesinha mais ao canto para melhor apreciar a paisagem e pediu uma taça de vinho branco. Bebeu água e experimentou o vinho com um certo alívio, antes de o garçom deixá-la a sós com seus pensamentos.

A via era arborizada, com prédios baixos pintados de branco. Alguns tinham janelas coloridas, outros pequenos balcões de ferro.  A alameda de pedras dava em uma praça – constatou – adivinhando o cenário pelas visíveis copas esverdeadas reunidas adiante, de onde podia distinguir, ocasionalmente, ruídos abafados de cães, crianças e pássaros. Crianças brincando na praça, como sempre, como antigamente, como a criança que ela tinha sido – há quanto tempo? Não muito, embora a noção de muito ou pouco, para ela, não correspondesse exatamente aos anos que lhe beijaram o rosto. Parecia ter sido ontem; mas – ela sentia – parecia também que a menina que brincava de roda e bonecas de papel havia se perdido nas estradas empoeiradas da lembrança há muitas eras.

Bonecas de papel... aquelas que havia herdado da mãe – lembrou, fazendo um esforço para recordar os detalhes. Folguedos que foram as primeiras viagens que fizera para além das fronteiras do seu quintal de menina do interior, exímia que era em usar a única ferramenta de que dispunha para tanto – a imaginação. Era um conjunto de oito bonecas, quatro meninas e quatro meninos de países diferentes, com vestimentas típicas dos lugares de origem. A mãe escrevera os nomes no verso de cada uma com a linda letra da professora que seria um dia, e a filha, encantada com o presente, adotou também os nomes dados.

Conjurou mais uma taça de vinho, enquanto revivia as imagens na memória. Ktma, a bela indiana com o bindi entre as sobrancelhas. Erika, a loura suíça de olhos azuis e tranças faceiras, presas, como dois grandes anéis, nas laterais do rosto. Yuri, a japonesinha amigável de mãos espalmadas em reverência e cabelos negros com franjinha. Rosa, a espanhola viçosa de cabelos encaracolados e porte de dançarina.

Os meninos também não ficavam atrás em diversidade e beleza. Oleg, o esquimó da Groenlândia, de cabelos lisos e olhos alegres – sorriu, lembrando que a mãe contara que o nome viera da palavra “gelo” ao contrário. Jay, o escocês de cabelos castanho-avermelhados, olhos verdes e mãos orgulhosas de gaiteiro na cintura. Stan, o holandês louro de olhar celeste e cabelos esvoaçantes com o vento nos moinhos. Miguel, o peruano de olhar latino e forte como seus ancestrais do Titicaca.

A torrente de lembranças inundou sua mente e seu corpo com um prazer imprevisto que obliterou qualquer mal estar. Esqueceu-se de todas as amarras e se levantou, indo até a extremidade próxima do terraço. Ah, sim, agora estou bem, mas poderia estar um tantinho melhor – pensou, já estendendo as grandes asas, que brilharam sob a luz do entardecer.

(Conto vencedor lido em 09.05.18 (terça-feira) no Clube da Leitura, realizado na Casa Rio)

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Fascinada pelos ecos da linguagem escrita, Carmen Belmont lê e escreve desde que se entende por gente; tudo o mais é adendo. "A palavra/ alva/ alvará da imaginação". (Imagem: @cdbelmont in PicsArt)




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