Do Alto, por Gabriel Cerqueira



O azul do céu parece um mar invertido que se cansara da Terra e decidiu fugir para o paraíso. Lá e cá ele é pontilhado pelos passarinhos que vem e vão semeando seus cantos por onde passam, bailando e brincando. A paisagem revela o verde das plantas que vai até o horizonte, sendo cortado apenas pelo ocre das estradas de terra, pelo branco das casas e pelas mais diversas cores de flores nos campos e das frutas que caíram maduras no chão.

Ana e Miguel caminham por uma dessas estradas. Suas peles são douradas, seus sorrisos são alvos. Peles de Sol, sorrisos de Lua. Eclipses, ambos são noite e dia. A conversa animada dita o passo tranquilo no ritmo da cidade do santo. Eles caminham descalços para sentir a terra úmida e tudo o que ela tem a dizer em seu idioma a nós oculto.
Um cachorro late, fingindo-se de feroz, em frente a uma casa antiga e simples com uma cerca de bambu. Miguel se abaixa e sorri, assobia e estala os dedos. O cãozinho se aproxima e lambe uma das mãos do novo amigo e recebe carinho; de imponente sentinela a terno anjo. Criatura plena em sua felicidade, o cão deita esperando um afago na barriga enquanto sua cauda se agita e sua língua pende da boca. Ana também sorri e junto de Miguel brincam com o cãozinho.

Dona Maria aparece na porta, surpreendida pela festa repentina que acontece na frente da sua casa. Sua pele é escura como ébano e marcada com as cicatrizes do tempo, seu sorriso é amável e seu olhar, infantil e curioso. Na cabeça o lenço esconde seus cabelos presos em coque. Ela convida Ana e Miguel para tomarem uma xícara de chá e eles aceitam.

A cozinha de Dona Maria tem diversos ramos de ervas e plantas curativas com os mais diversos aromas. Tem arruda, alfazema, alecrim, erva-cidreira, arnica e tantas outras. Na janela há vasinhos com margaridas e violetas. Dona Maria serve o chá de cravo, hortelã e gengibre em canecas de alumínio e começa a contar histórias para passar o tempo. Ela conta que um ermitão morava numa caverna da região e que costumavam chama-lo de Zé do Mato. Zé do Mato dizia conhecer o Saci, Curupira, Mãe d’Água, Comadre Fulozinha – “Tudo gente muito da boa”, ele falava dando seu sorriso banguela - e que os ajudava a manter os “espríritus” ruins longe da cidade. Zé sumiu, mas dizem que ele ainda habita na mata; de vez em quando alguém vê o vulto de um velho homem correndo pelas árvores enquanto dá risada – e desde então ninguém mais ouviu falar de aparição do Corpo-Seco na região. Dona Maria também mostrou as plantas que poderiam ajudar contra o mau-olhado, dor na barriga, de cabeça, e até medo de altura, antes de se despedir de Ana e Miguel.

No caminho de volta para casa o céu está branco e Ana encontra uma jabuticabeira carregada. Ela pega uma das frutas e a come, e o sabor doce percorre toda sua boca. Miguel enche os bolsos de jabuticabas e também come algumas. Os galhos de algumas árvores de ambos os lados da estrada se entrelaçaram no alto, formando um túnel de folhas, galhos e ninhos. Uma das árvores está cheia de flores vermelhas. Miguel alcança uma delas e a coloca no cabelo de Ana, que sorri. Mais lá para cima uma trovoada ressoa e começa a chover. Um segura a mão do outro e os dois começam a correr.

Chegando em casa, molhados e respingados de lama, Miguel e Ana gargalham enquanto desabam na varanda. Eles arfam por causa da corrida e da alegria que os contagia. Pelos corredores branco e azul pairam no ar o cheiro de café, broa e bolo de laranja, pão recém-saído do forno e geleia de acerola. Ah, Cadu esteve com eles esse tempo todo. Ficou calado, concentrado, observando e capturando tudo com as lentes de seus olhos de águia.

Parece que Deus, atarefado como só ele, esbarrou num pedaço do céu que acabou caindo na Terra bem em cima daquela cidade, da cidade do santo.
E a vida é simples e bela.

(Conto lido no encontro de 06/12/2016) 

Gabriel Cerqueira não faz a menor ideia de quem ele é.




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