Mote do encontro (10/ 05/ 16)


Mote lido por Daniel Russell Ribas

Muito barulho por nada



Quinto Ato

Cena 1

LONATO – Eu te peço, chega de conselhos, pois eles caem em meus ouvidos tão inúteis como a água numa peneira. Não me dês conselhos, nem permita que consoladores outros venham me agradar os ouvidos, exceto se for alguém cujos agravos sejam comparáveis aos meus. Arranja-me um pai que amou tanto quanto eu a uma filha, motivo de seu orgulho e sua alegria, agora dominado por dor como esta minha, e pede a ele que me fale de paciência. Que a desgraça dele venha medir o comprimento e a largura da minha, e que se correspondam, o meu cansaço e o dele; que se possa ver um tanto cá e um tanto lá, um pesar tão importante nele quanto em mim, em cada feição, em cada ruga, na forma e no formato. Se esse sujeito sorrir e alisar a barba, despachar a tristeza, com um “Harrã” limpar a garganta em vez de gemer de dor, usar provérbios como curativos para o luto, embebedar o infortúnio com filosofices de livros, vê que ele venha até mim e já, que eu dele vou coletar paciência. Mas acontece que tal homem não existe, porque, meu irmão, os homens sabem aconselhar e consolar quando a dor é aquela que eles próprios não sentem. É só provar de uma dor assim, e transfiguram-se em fúria os mesmos conselhos que antes receitavam preceitos contra a raiva, amarravam a loucura galopante com delicados fios de seda, enganavam feridas com a voz e a agonia com palavras. Claro, claro, é a obrigação de todo homem pedir paciência àqueles que se contorcem sob o peso da tristeza, mas não existe em homem algum nem a virtude nem a capacidade de ser tão moral assim quando é ele quem tem de suportar o mesmo fardo. Portanto, não me dês conselhos; meu desalento grita mais alto que tuas censuras.


SHAKESPEARE, William. Muito barulho por nada. Tradução: Beatriz Viégas-Faria. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2002.




William Shakespeare foi um poeta, dramaturgo e ator inglês, tido como o maior escritor do idioma inglês e o mais influente dramaturgo do mundo. É chamado frequentemente de poeta nacional da Inglaterra e de "Bardo do Avon".

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