Narrativas - Francisco Ohana


Narrativas

Ainda lhes restava alguma autoconfiança. Havia no centro da cidade uma espécie de edifício monolítico. Preto. Era menos que uma sentinela guia de destinos, menos que um canto de sereia perturbador de macacos e astronautas temerosos. Acho mesmo que, pela irrelevância, pode não ter acontecido nada do que digo, e que minha memória seja mais uma contação, apenas. Da janela da torre não se vê muita coisa, mas o suficiente para notar que funcionários fechavam às pressas os portões em torno na tentativa de barrar os manifestantes. Vinham em traje típico e alguns tinham arco e flecha em mão. Canteiros inclinados ladeavam o prédio, cercado de grades que haviam sido transpostas pelas gentes em movimento. Uns penduravam-se no cercado e gritavam uma cantoria de bando. Outros apontavam flechas para fileiras de homens uniformizados, curvos detrás dos muros e paredões da estrutura, esgueirando-se ao modo dos primatas iniciais na iminência de um salto maior. No gramado viam-se cocares amarelos, azuis e vermelhos, sobre seres materiais. Sobre homens e seus corpos, corpos que – ressalte-se – alimentavam ali mesmo, no cimento, com mingaus de pupunha, quitutes de mandioca macerada e bebidas fermentadas. Numa cerimônia de defumação sobre o concreto, batiam nas vigas da construção num chamamento de selva, como as pancadas que ecoam dos pés de grossos troncos à parte alta da mata. E ensaiavam nova invasão.
Autorizou-se a entrada de um grupo. Um yanomam – um ser corpóreo – despiu-se das poucas vestes que trazia, deixando ver sua pintura de urucum, jenipapo e carvão, de tinta batida em cuia. Tratava-se de um padrão ancestral facilmente encontrável em panos, afrescos e ocas do mundo. É imaginação coletiva, afinal. Ele: o tipo de homem que acessava arranjos mais largos de inconsciente. Sabia de algum modo que vimos migrando pelos mesmos estreitos, um grande continente, geleiras que escorrem em formas lacustres, navegações rudimentares. Sabia das batalhas de histórias. Que as histórias são batalhas, que as batalhas são histórias. Suas gentes começaram a escrever em árvores e paredes – e ambas se tornavam cada vez mais raras naqueles tempos, não havia por que evitar a realidade. Ante algum constrangimento dos presentes, disse que não compreendia os mecanismos que de longe pareciam grandes moinhos delgados. De longe: um bosque de cata-ventos. Mas se aproximava até debaixo das pás que cortavam o ar em torno do parque eólico. Tampouco entendia o uso do alagamento da terra de antes, num esquema de transformação de energia que lhe parecia pouco intuitivo. Ou as turbinas, os eixos. Estava tudo alagado agora. Cheio de cata-ventos brancos. Disse assim que não foi sábio que se houvessem aproximado tanto. Que os houvessem mantido sob cerco. Pois viram muito seus rostos e agora os sabiam de cor. Suas gentes decoravam tudo: traços, gostos, comidas. Medos. Suas horas de dormir e humores. Disse de muitos salvadores que passaram por ali, antes (bem antes) de dois mil anos. Cristos de plumas, meninos com sexo – seu pauzinho sem pelos – nas colinas de vegetação fechada, banhando-se nos rios. Contou de árvores sagradas nas trilhas da caça, sulcadas com descrições de mitos da floresta. Contou de festas fúnebres antigas, quando atavam bichos mortos com cipó – ficavam pendidos sobre o fogo baixo – e comiam macaco, tamanduá, preguiça e roedores. Na praça de terra havia agora canteiros de obra, mas ainda persistiam os gemidos distantes da elite de pajés e as poses que emulavam coreografias de uma natureza indecifrável para a maioria. Os chefes agiam sob influência de um pó marrom de raspa de árvore, que alegrava, vez ou outra, as anciãs da pequena sociedade matriarcal. Depois comiam mais bichos – mutuns, onças, porcões, cotias e tatus-canastra assados em folha de bananeira. Eram mais inteligentes que os bichos, pois seguiam seus hábitos alimentares como quem espreita a cara da morte. Daí que ao lado dos igapós de curso ainda não drenado houvesse totens dos tais bichos mortos, quando se viam patas, mãozinhas e crânios de tamanho, dureza e formatos diversos, naquelas noites de insônia e regurgitações. Esse tipo de cerimônia tinha lugar porque o morto tivera uma queda estranha, batera a cara contra o chão ou qualquer outra morte pouco usual – um tipo de acidente místico. E havia pouco espaço para ansiedades nas festas de vida e morte da aldeia, pouca liberdade para o pranto. Pois vida e morte seriam um mesmo rosto no rio da sua aldeia.
Ocorreu-me que eu visitara certa vez um posto avançado da empreiteira, em que capatazes mal-encarados faziam cócegas na barriguinha de sementes de um papagaio, fumavam e assistiam a programas de auditório na televisão. Em torno dos casebres dos peões, dispunham-se roupas como as peles que secavam nas franjas de uma oca vizinha, num intercâmbio de relações inconfessáveis de subjugação. E na manhã da invasão, o índio falou como num diálogo arcaico. Aqui: fronte reta. Eis ali a imaginação de uma coletividade, afinal. E existe um tipo mais perverso de exílio – o do mundo alheio que diminui o espaço de ação, uma esfera em progressiva redução em torno do sujeito parado. No mesmo lugar. O dos círculos concêntricos de um universo no avesso da expansão, em movimento centrípeto e, sobretudo, sufocante. Vim a saber que o homem era de uma tribo nômade de área demarcada, que couberam ali um tanto de gerações reduzidas a uns poucos mil habitantes de hoje. Que temiam novas corridas do ouro no rastro de obras de governos e projetos que alterariam o funcionamento da reserva. Como num viveiro de grandes proporções, arrombado por entradas e bandeiras espúrias, revestidas da novidade da via férrea e estradas de séculos após, em novas corridas ainda. Histórias de lugares ao norte do mais ao norte que eu conhecera, de gentes de olhos mortos pela raspa inalada, quando se via um céu em queda inevitável, onde se davam brigas simbólicas de uma liturgia toda particularidade e leveza. Até a merda dos brancos era impura naqueles cantos. E hoje rolava pela imensidade da região.
Queria – mas não sei – descrever o que vi.


Conto escrito para o encontro de 29/07/2014





Francisco Ohana é economista e participa de atividades que o mantenham ligado às artes, principalmente literatura, teatro e música. Frequenta o clube de leitura do Baratos da Ribeiro desde fevereiro de 2014.

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